segunda-feira, 30 de setembro de 2019



Repúblicas, espaços míticos que despertam muitas curiosidades...



As suas origens remontam ao século XIV, quando D. Dinis, por diploma régio de 1309, promovia a construção de casas na zona de Almedina e que deveriam ser habitadas por estudantes, mediante pagamento de um aluguer, cujo montante seria fixado por uma comissão, expressamente nomeada pelo Rei, constituída por estudantes e por "homens bons" da cidade. É assim que a partir de um tipo de alojamento comum, permitindo minimizar os encargos financeiros, viriam a surgir, por evolução, as actuais Repúblicas. Ainda hoje as "casas" caracterizam-se pela exaltação de valores universais que unem o passado ao presente: a vida em comunidade, a soberania e a democraticidade. As decisões são geralmente tomadas por unanimidade e todos os membros responsabilizados na gestão da "casa".

“(…) a ‘república’ era como que um verdadeiro cortiço, onde viviam (…) rapazes das mais variadas Faculdades, das terras mais diversas, com os temperamentos mais diferentes e com os hábitos e psicologias mais antagónicas, mas vivendo como a mais exemplar das famílias. Desde os ‘cábulas’ impenitentes aos ‘ursos’ conceituados (…); desde o poeta de fama ao prosaico batoteiro e glutão que nunca se deitava sem ceia; desde o monárquico fiel até ao anarquista revolucionário; (…) desde o católico fervoroso (…) ao livre pensador (…)”. in “O Romance de Coimbra”, de Fernando Correia, 1932. 



Nas Repúblicas de Coimbra respira-se um ambiente único de originalidade e irreverência. Vivem debaixo do mesmo teto pessoas com divergências ideológicas por vezes bastante acentuadas, o que origina acesos debates. A ceia proporciona momentos de rara eloquência onde temas tão diversos como a política e a religião são debatidos.  As decisões são tomadas unanimemente e todos os membros responsabilizados na gestão da sua casa.

A imagem das Repúblicas esteve constantemente aliada à irreverência e à contestação do poder, sempre que isso significasse a defesa dos interesses da Academia. Assim foi, na década de 60, contestado o regime salazarista. 
A Crise Académica de 69 constituiu um retrato fiel da coragem e do espírito reivindicativo aí existentes; uma lista apoiada pelo Conselho das Repúblicas venceu, por esmagadora maioria, as eleições para a A.A.C. 
No início da década de 70, com a queda do salazarismo, importantes movimentos sociais intervieram na vida académica. 


Nota:
"Em 11 de Dezembro de 1948 cria-se o Conselho das Repúblicas, formado pelos KÁGADOS, BACO, RÁS-TE-PARTA, PAGODE CHINÊS, PALÁCIO DA LOUCURA, JÁSTÁ, tendo como principal objetivo aumentar o número destas e garantir a sua subsistência por tempo indefinido."

“Casas fruídas por Repúblicas de estudantes de Coimbra são consideradas associações sem personalidade jurídica” – Diário de República, Lei n° 2/82 de 15 de Janeiro 

“As Repúblicas e os Solares de Coimbra, admitidos como tal pelo Conselho de Repúblicas, bem como as cooperativas de estudantes são reconhecidos como pólos autónomos dinamizadores de cultura e de vivência comunitária e académica.” – Estatutos da Universidade de Coimbra, artigo 21°



Repúblicas de Coimbra:

Paços da República dos Kágados   Fundada em 1933
Real República Baco   Fundada em 1933
Real República Rás-Te-Parta   Fundada em 1943
República dos Galifões   Fundada em 1947
Real República Palácio da Loucura   Fundada em 1947
Real República do Bota-Abaixo   Fundada em 1949
República Ninho dos Matulões   Fundada em 1950
Real República do Prá-Kys-Tão   Fundada em 1951
Real República Spreit-Ó-Furo   Fundada em 1951
Real República Ay-Ó-Linda   Fundada em 1951
República dos Inkas   Fundada em 1954
Real República Boa-Bay-Ela   Fundada em 1956
Real República Rápo-Táxo   Fundada em 1956
Real República Corsários das Ilhas   Fundada em 1958
Solar dos Kapangas   Fundada em 1958
Real República Trunfé-Kopos   Fundada em 1960
República Kimbo dos Sobas   Fundada em 1963
República Farol das Ilhas   Fundada em 1962
Solar Residência dos Estudantes Açoreanos   Fundada em 1962
República 5 de Outubro   Fundada em 1967
República dos Fantasmas   Fundada em 1969
República Rosa Luxemburgo   Fundada em 1972
Solar do 44   Fundada em 1983
República da Praça   Fundada em 1989
Solar Marias do Loureiro   Fundada em 1993

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

CAPA e BATINA E A IGREJA??!!  Será que existe uma relação? 



O Traje académico, também conhecido por Capa e Batina, foi objecto de significativas transformações, no talhe e no aspecto, ao longo dos anos e tem a sua génese nas próprias vestes eclesiásticas.
A influência da Igreja no ensino, e, consequentemente, nos próprios estudantes, é um factor importante para explicar algumas particularidades que ainda hoje vigoram entre nós.
Realmente, tendo sido responsável pelo ensino superior até ao séc.XVIII, a Igreja, pelo estreito contacto que mantinha com o meio estudantil, veio a influenciar este com algumas características.
A mais vistosa é o próprio traje (como já atrás foi referido), no entanto, outras particularidades se podem salientar.

É de Praxe ter os botões do traje em número ímpar, os furos dos sapatos em número ímpar, os emblemas na capa em número ímpar, em suma, esta fixação pelo número ímpar vai ao ponto de não se dizer números pares e, em vez deles, dizer o número ímpar anterior mais 1. É uma particularidade, ou melhor, uma tradição, que encontra a sua melhor explicação nessa mesma influência que a Igreja teve na Universidade.

Este facto encontra fácil explicação na simbologia que os números pares e ímpares tinham para a Igreja Católica.

De facto, os números ímpares sempre foram os que mais significado tiveram para a Igreja Católica, salientando-se a simbologia do:
1: Deus;
3: Número da unidade e da Trindade. É usado para reforçar ou dar ênfase a uma expressão. Assim, quando se quer dizer que Deus é Santo, repete-se três vezes: «Deus é Santo, Santo, Santo». Deus abençoa três vezes. Três são os mensageiros que anunciam o nascimento de Isaac. É o número da plenitude e da santidade.
7: É a soma de 4 + 3. Por isso é o número perfeito, indica o máximo da perfeição; grande quantidade; totalidade; O sábado é o sétimo dia; Deus fez a Criação em 7 dias;a festa de Pentecostes acontece 7 vezes 7 dias depois da Páscoa; Cada sétimo ano é sabático (descanso para a terra e libertação dos oprimidos) e depois de 7 vezes 7 anos vem o Jubileu. Não se deve perdoar 7 vezes, mas 70 vezes 7, etc…

Por mera curiosidade, o número 4 significa os 4 elementos do universo, os 4 evangelhos, 4 cantos da terra, por isso associado ao 3 dá 7 que é o número perfeito.

Esta foi uma breve explicação do importante simbolismo que os números ímpares têm para a Igreja, que explica a sua adopção por esta como números favoráveis e, consequentemente, passaram para a Universidade.


Não esquecer que a maior parte dos números pares têm simbolismo feminino e os números ímpares têm simbolismo masculino, o que, também explica a preferência da Igreja pelos ímpares. Isto aliado ao facto do número par 6 ser o número imperfeito, sendo o 666 o número da besta (do diabo, satanás, demo, belzebu) conotado com o azar, má sorte, maldade, completa na perfeição a explicação da preferência pelos números ímpares.


sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Preso só na UC. Foi D. Dinis que cria um estatuto jurídico especial 

      Documento da criação foro académico


A 15 de fevereiro de 1309, outorgou-lhe D. Dinis a «Carta magna privilegiorium», na qual a isenção do foro comum foi consideravelmente ampliada.

... 1.º Proíbe ao alcaide Coimbra e aos seus oficiais que, em qualquer ocasião e seja por que motivo for, obrigarem os estudantes a comparecer perante os tribunais seculares;

2.º Permite-lhes apenas que os prendam em delito de homicídio, ferimento, furto ou roubo, rapto de mulher, ou fabricação de moeda falsa; com a condição porém de, o mais breve possível e sem dificuldades, independentemente de qualquer requisição, fazerem entrega deles à autoridade eclesiástica para esta os julgar.

E assim ficaram as coisas nos primeiros tempos da Universidade em Coimbra. As pessoas universitárias eram isentas da jurisdição das autoridades comuns, tanto nas causas crimes como nas cíveis, e sujeitas à jurisdição de um Juiz próprio, que, por escolha e determinação del-Rei, era a autoridade eclesiástica.

Neste mesmo diploma é criado na Universidade... o novo oficio... da Conservatória do Estudo.
Manteve-se o foro privativo da Universidade, até ao advento do regime constitucional, implantado em Coimbra a 8 de maio de 1834.

A jurisdição deste foro privativo residia, como vimos, na Conservatória judicial da Universidade. Havia nesta, além do magistrado judicial, que era o Conservador, o pessoal seu subordinado: 2 almotacés, 1 meirinho de vara branca, 2 escrivães, e outros oficiais. Tinha o meirinho às suas ordens 10 homens armados com «suas chuças ou partezanas» (as atuais alabardas), homens que vulgarmente se chamavam «verdiais» (os archeiros de hoje) por serem de cor verde as casacas dos seus uniformes. O Conservador erguia a sua vara banca de um magistrado judicial, não só nos edifícios das Escolas, mas em toda a cidade de Coimbra; e casos havia em que lhe era licito alçar a vara «em todas as partes do Reino, onde a Universidade tem suas rendas ed dividas».


Fonte: Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 297-299, 302-304, do Vol. I



quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Breve história sobre o início da Imprensa da Universidade de Coimbra


Em 1542, João da Barreira e João Álvares instalaram em Coimbra a sua imprensa, saindo logo nesse ano dos seus prelos a obra jurídica de Martín de Azpilcueta. 
O Reitor da Universidade estabelece com eles contrato para serem impressores da Universidade recebendo os ditos impressores doze mil reis anuais. Os mesmos impressores são comissionados para ir a Lisboa em 1546 recolher todo o material da Imprensa com que D. João III dotara a Universidade.

Na oficina da Universidade continuou António da Barreira a atividade de seu pai João da Barreira, após o falecimento deste em 1590. Da sua mão saíram os Estatutos da Universidade publicados em 1593, cuja aprovação se dera já em 1591.

Nos Estatutos de 1559 surgem já referências a impressões da Universidade, ficando os assuntos com ela relacionados a cargo do guarda do cartório.

Inicialmente a Universidade não possuía oficina própria; tinha por isso necessidade de recorrer ao serviço de impressores com casa montada que se tornavam, deste modo, oficiais privilegiados da Universidade.


                        Estatutos da Universidade publicados em 1593



                                 Estatutos da Universidade publicados em 1653

Os estatutos de 1653, ao referirem estes privilegiados registam a existência de “duas Impressões” privilegiadas, a par da existência de “quatro tendes de Livreiros”. O cuidado na impressão ficava confiado do “corretor da impressão”.



Fonte: Arquivo da Universidade de Coimbra. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol XI e XII.1989/1992. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 147-149

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Sabia que a Universidade de Coimbra tem um hino?


Existe sim um hino, chamado de Hymno Académico, foi oferecido à Academia de Coimbra, em Outubro de 1853, pelos estudantes José Augusto Sanches da Gama (letra) e José Cristiano O’Neill de Medeiros (música). (art.)

Em determinadas cerimónias oficiais ainda continua a ser tocado.



Poderá consultar mais informações em link



Hymno Académico [de Coimbra]


Do trabalho, na lide affanosa,
Doce esp’rança nos vem affagar:
Somos jovens, sentimos no peito
Santo amor da sciencia brotar.

O que valem riquezas da terra
Sem sciencia, no mundo, o que são?
Trabalhae que seus dons nos offerta
O trabalho com provida mão.

CORO
E se a Patria, seus ferros quebrando,
Quer seus filhos á guerra chamar,
Vamos todos, no campo, da gloria,
Nossas vidas á Patria votar.

Recordemos os sabios famosos,
Que a sciencia nos vem apontar;
Que souberam, dos sec’los zombando,
Aos vindoiros seus nomes legar.

E attendamos que a terra orgulhosa,
A quem damos o nome de mãe,
Em seus filhos, que a vida lhe devem,
As mais caras esp’ranças detem.

CORO
E se a Patria, seus ferros quebrando,
Quer seus filhos á guerra chamar,
Vamos todos, no campo, da gloria,
Nossas vidas á Patria votar.

Aurea estrella, de luz refulgente,
Aqui vem, no horisonte, luzir,
N’esta senda espinhosa da vida,
A mostrar—nos risonho porvir.

E seus brilhos á gloria nos chama,
Alto imperio, soberba, aqui tem:
E a sciencia, que a todos iliustra.
Sua luz diffundir em nós vem.

CORO
E se a Patria, seus ferros quebrando,
Quer seus filhos á guerra chamar,
Vamos todos, no campo, da gloria,
Nossas vidas á Patria votar.

Os alentos que n’alma refervem,
Pela terra da Patria serão:
Ou da paz, no suave descanço,
Ou na guerra ao troar do canhão.

E da gloria, por fim, nós iremos
Doces risos, fagueiros, gosar:
Adornados co’as palmas virentes,
Que Minerva nos quiz dispensar.

CORO
E se a Patria, seus ferros quebrando,
Quer seus filhos á guerra chamar,
Vamos todos, no campo, da gloria,
Nossas vidas á Patria votar.





segunda-feira, 12 de agosto de 2019

AS ESCULTURAS DE LAPRADE


No Paço das Escolas existem algumas esculturas de Claude Laprade, sendo a maior a que se encontra na Via Latina, onde foi colocada uma composição escultórica, executada em 1700-1701.

Composta de dois atlantes que suportam o frontão curvo, enquadrando um moldura oval com a escultura do rei D. José I em meio corpo, completada por duas figuras femininas sentadas, a Fortaleza e a Justiça.

Os frontões das portas dos "Gerais" foram também executados por Laprade, onde estão representadas as primeiras faculdades e outras referências de Coimbra.


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

UMA RAPOSA NA UC


Dos Gerais da Faculdade de Direito ao corredor de acesso à Via Latina, encontra-se um dos azulejos mais famosos e mais sacrificados da UC, a famosa “Raposa”, que os estudantes chutavam para a afastar o chumbo (rapozos = chumbos), tornando-se esta uma das mais famosas lendas da universidade.

Atualmente a raposa está protegida por um vidro, dado a sua grande deterioração.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Quando os sinos se calam...


Desde o século XIX, que os sinos marcam a vida dos estudantes, mas também de toda a cidade. 

Apesar dos sinos terem toques/funções diferentes, o sino das 18h é conhecido como a cabra, onde a academia é avisada que no dia seguinte devem vir às aulas e o das 7h30 da manhã, esse com um nome bastante mais forte é o cabrão porque tinha como função despertar os estudantes.” 

E a verdade é que algumas vezes, na história da academia os sinos se calaram. 

Em 1910, com a Implantação da República e com a suspensão das cerimónias académicas, bem como das praxes, o silêncio na torre imperou. Tendo sido interrompido em 1918, mas outras vezes houve, em que quer a cabra, quer o cabrão por motivos mais ou menos nobres também se calaram. 

No ano de 1863, quando foi chumbado um aluno de direito, nessa mesma noite houve um pequeno incêndio na casa do professor que tinha chumbado esse dito aluno. Ele foi levado a tribunal e no dia da audiência os colegas quiseram ir assistir julgamento. Estava-se a viver numa época em que as aulas eram obrigatórias e pediram ao reitor que lhes concedesse permissão para fazerem ponte nesse dia e o reitor negou-lhes essa prerrogativa. Nessa mesma noite, estudantes subiram à torre e silenciaram os sinos. Não tocando o sino pela manhã, não há aulas. 

60 Anos depois… Houve em Portugal uma grave epidemia de gripe que matou muita gente. O ministério, dada a violência da gripe, mandou encerrar todos os estabelecimentos de ensino… com a exceção da universidade. Alguns estudantes terão pensado, então quer dizer, nós não somos gente?! Subiram à torre e de novo, roubaram o badalo.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

O PAÇO DAS ESCOLAS NO SÉC XVIII


O Paço das Escolas, no decorrer do século XVIII verá grandes modificações, que lhe darão um aspeto muito próximo daquilo que encontramos hoje. 
As obras mais importantes foram a Via Latina, a construção da Biblioteca, a nova torre da universidade e inseridas na Reforma Pombalina, a remodelação dos Gerais do alçado norte do terreiro.

O frontispício da Via Latina, com a composição escultórica de Laprade é construído em 1700/01, garantindo um corpo central com dignidade aquela fachada. A construção da Biblioteca, entre 1716 e 1728, juntamente com as Escadas de Minerva, constituem uma significativa adição pela sua envergadura, fechando o conjunto edificado da ala poente. A sumptuosidade da decoração barroca no interior da biblioteca, contrasta com a simplicidade do seu exterior. Substitui-se a antiga torre de Ruão, por uma desenhada pelo arquiteto italiano António de Canevari, com cerca de 34 metros de altura. A torre sineira, de linhas severas quebradas apenas pelo delicado frontão, teve um raro acabamento em terraço, a fim de nele instalar um observatório, projeto que acabou por não se concretizar. 

O plano de intervenção da Reforma Pombalina, fez-se sentir em obras como o Laboratório Chímico, Colégio de Jesus ou Jardim Botânico, ou a construção do Observatório, no topo sul do Pátio  das Escolas, concluído em 1799.

terça-feira, 23 de julho de 2019

A ESCULTURA DE D. JOÃO III



Foi já no século XX, em 1944, que se deu o contrato entre a Comissão Administrativa do Plano de Obras da Cidade Universitária de Coimbra (CAPOCUC) e o escultor Francisco Franco, para a realização da escultura de D. João III. A representação do rei virada para o paço, uma vez que fora ele que cedera o espaço, em 1537 para acolher os estudos.

Francisco Franco coloca D. João III sobre um pedestal, encostando o Rei ao volume que se adensa e sobe, por detrás até à cintura. Esta opção formal definiu uma personagem mais descontraída, como se tivesse sido esculpida no momento em que se encostava a um qualquer objeto a olhar para a sua obra.

D. João III no meio da Pátio das Escolas, o que na realidade transmite é que cumpriu o que tinha destinado, mesmo a partir de Lisboa, transferindo para Coimbra a Universidade que nunca mais de cá saiu.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

A REFORMA MANUELINA DO PAÇO



Reconstrução volumétrica do projeto manuelino do Paço Real da Alcáçova (desenho de José Luís Madeira) do livro "A Morada da Sabedoria", de António Filipe Pimentel

Com a deslocação do centro de decisão para sul, no reinado de D. Dinis. o Paço Real é progressivamente abandonado, até ao século XVI quado D. Manuel decide fazer nele uma grande reforma e em 1517 contrata Marcos Pires, mestre da Batalha para fazer a obra.

Uma parte importante da imagem atual do Paço das Escolas nasce das obras de arquitetura da reforma manuelina. A acentuada inclinação dos telhados, sobretudo no corpo central (norte) salientando a grande sala de atos, a forte presença dos cubelos na fachada norte, construídos sobre as fundações dos cubelos da fortificação original, o edifício da capela e o seu portal virado para o terreiro, com inspiração naturalista que prolonga os colunelos da ombrira sobre as portas, envolve 6 símbolos importantes da icnografia nacional daquele período. Compõe o portal as cinco Chagas de Cristo, sobre a coroa de espinhos e os cravos, noutro plano a Esfera Armilar, a Cruz de Cristo e ao centro o escudo de Portugal.

O plano de obra tinha um programa ambicioso, mas ficou incompleto pela morte de D. Manuel em 1521, e do construtor, Marcos Pires em 1522. 

Na realidade a capela de S. Miguel é o único edifício do Paço Manuelino que se encontra de acordo com o traçado original. 

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Santo António do Oratório do Cárcere Académico da UC


                        Oficina desconhecida || calcário de Ançã || século XVII (1ª metade)

« (...) Como qualquer outro espaço vivencial, também o oratório do cárcere possuía um conjunto de móveis, alfaias e paramentos indispesáveis às funções celebrativas que aí decorriam nos Domingos e principais dias festivos do Calendário da Igreja. Os mesmos capelães deveriam ainda auxiliar no apoio espiritual daqueles que procuravam a redenção pelos actos imprudentes praticados.
Mas é somente a partir do inventário dos Trastes, Moveis e Alfaias da Capela da Cadêa da Universidade, executado por José Joaquim de Faria (?), no dia 15 de Novembro de 179969, que ficamos a conhecer o orago a que havia sido dedicado o espaço cultual da cadeia académica: Santo António de Lisboa (c. 1191‑5| 1231).
Foi durante as nossas investigações que viemos a localizar nos anexos da capela de São Miguel da Universidade de Coimbra, nas áreas do antigo Museu de Arte Sacra, aquela que acreditamos ser a imagem devocional primitiva existente no oratório do cárcere académico, uma escultura “representando Santo António com o Menino (com respectivos resplendores de prata)”. Contudo, a peça localizada foi executada calcário de Ançã, e não em “barro” ou “pao” como os inventariantes, contraditoriamente, descreveram nos arrolamentos.
NOTA:
Apesar das obras hagiográficas tradicionais não o identificarem como padroeiro dos prisioneiros
é possível que a escolha de Santo António para o orago da capela da cadeia esteja relacionado
com o episódio em que o santo, através do dom da ubiquidade, apareceu em Lisboa para livrar o pai
da acusação por homicídio. De igual modo, é ainda muito sugestiva a estrofe de um responsório
popular que invoca a intercessão do santo junto dos condenados:
"Meu Santo António
Das prisões quebra as correntes."
(...)

Texto retirado do trabalho de "De corpo e alma: O oratório do Cárcere Académico da Universidade de Coimbra.
Primeiras linhas de investigação" de MILTON PEDRO DIAS PACHECO

Doutorando na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Bolseiro pela Fundação para a Ciência e Tecnologia
Centro de História de Além‑Mar
(CHAM) da Universidade Nova de Lisboa/
Universidade dos Açores
Centro Interdisciplinar de Estudos Camonianos (CIEC) da Universidade de Coimbra

sexta-feira, 24 de maio de 2019



Gabinete de Física 



O gabinete da física experimental foi mandado construir por D. José I “para depósito de Machinas e Instrumentos, os quaes são necessários para que as liçoens da Fysica que se dão no curso Filosófico se façam com aproveitamento dos estudantes; os quaes não somente devem ver e executar as experiências com que se demonstram as verdades ate o prezente conhecidas nas fysica; mas também adquirir o habito de as fazer com a sagacidade, e destreza, que se requer nos Exploradores da natureza”. Assim refere o documento intitulado “A Relação Geral do estado da Universidade”, que fora preparado em 1777 por D. Francisco de Lemos para ser apresentado à Rainha D. Maria I. Para a localização do gabinete, o Marquês tinha destinado uma parte do “Collegio que fora dos Jezuitas”. 

Nas duas salas do Gabinete de Física podemos encontrar expostos os instrumentos que, durante os séculos XVIII e XIX, foram usados no ensino da Física Experimental. O Gabinete de Física foi equipado com seis centenas de máquinas. Cada uma delas tinha uma conceção que a tornava adequada a um dos capítulos do programa descrito no curso redigido por Dalla Bella. O Gabinete de Física de Coimbra mostra bem a profunda influência que as ideias e os instrumentos provenientes de outros lados da Europa tiveram em Portugal no século das luzes. 



Antes de 1772, ano da publicação dos “Estatutos Novos” da Universidade de Coimbra (considerados como a maior reforma no ensino universitário português), pode dizer-se que o ensino experimental era inexistente em Portugal. 

A tentativa de introdução, nesta instituição de ensino secundário, da Física Experimental não foi, no entanto, bem-sucedida. A fundação do Gabinete de Física Experimental na Universidade de Coimbra envolveu a transferência, em 1773, das “máquinas” de Lisboa para Coimbra. A aquisição, ao longo do tempo, de outros instrumentos científicos veio a dar origem à vasta coleção que hoje podemos visitar em duas salas, uma contendo os instrumentos do século XVIII, outra contendo os do século XIX. 

O cenário com que nos depararíamos se, no primeiro andar do Colégio de Jesus, tivéssemos uma máquina que nos permitisse viajar no tempo, recuando dois séculos, não seria muito diferente do que vemos hoje quando visitamos o Gabinete de Física. É nas salas que lhe foram destinadas no final do século XVIII, e no mobiliário original, que podemos encontrar instrumentos usados ao longo dos séculos XVIII e XIX para ensinar Física Experimental na Universidade de Coimbra. O primeiro laboratório de Física a funcionar no nosso país não corresponde, no entanto, à primeira tentativa de implementação desta ciência experimental em Portugal – esta ocorreu na década anterior, em Lisboa. Os rapazes que frequentavam o Colégio dos Nobres, instituição pré-universitária sediada na capital, foram os primeiros destinatários de parte destas máquinas. A sua falta de interesse e preparação para as lições de Física Experimental ditou o insucesso desta iniciativa e a consequente transferência da coleção para Coimbra. O acervo atual corresponde a esta “coleção fundadora” mais os instrumentos adquiridos ao longo das décadas seguintes.

O Colégio das Artes foi a “sala de espera” das máquinas chegadas a Coimbra numa manhã de 1773 – até poderem ser albergadas nas salas onde, segundo os estatutos de 1772, deveriam ser mantidas e as lições ministradas[1]. Nos estatutos encontramos uma menção à organização dos instrumentos: devem ser dispostos de forma a acompanhar a sequência dos temas abordados nas lições (esta sequência de objetos é conseguida pelas letras no topo dos armários; note-se a ausência das letras J e U). As máquinas pequenas, guardadas em armários, encontravam-se numa sala e, na outra, as máquinas grandes, que não cabiam em armários. Hoje encontramos os instrumentos do século XVIII numa e, na outra, os do século XIX.


Sala do Século XVIII

Giovanni Antonio Dalla Bella (1730-1823) foi diretor do Gabinete de Física desde a sua fundação até 1790. Este professor italiano havia já sido o responsável pelo fracassado gabinete do Colégio dos Nobres. A sala com o seu nome alberga os exemplares mais antigos da coleção, muitos deles provenientes do referido colégio. O mais antigo de todos não faz, porém, parte deste grupo, nem foi construído no século XVIII. Trata-se de um autómato em forma de centauro, contruído na Alemanha em 1595-1600 e adquirido em 1779 pela Universidade, como parte integrante da coleção particular de Domingos Vandelli (primeiro diretor do Laboratório Chimico e do Gabinete de História Natural).

Dada a sua “origem nobre”, podemos apreciar os detalhes estéticos/artísticos dos instrumentos que aqui se encontram (para além das luxuosas peças de mobiliário Chippendale). Exemplos disso são o conjunto para estudo da porosidade, com duas figuras femininas aladas em bronze dourado que, sendo o elemento visual proeminente deste conjunto, não têm qualquer função prática. Pode referir-se ainda o equilibrista (usado para demonstrar a importância da posição do centro de massa para o equilíbrio de um corpo), que representa uma figura masculina, trajada à época, repleta de detalhes que em nada contribuem para a demonstração pretendida.



Sala do Século XIX

A primeira sala do Gabinete de Física é nomeada em homenagem a José Homem de Figueiredo Freire (1786-1837), o seu terceiro diretor. Aqui, onde inicialmente se guardavam as máquinas grandes, podemos ver instrumentos do século XIX, ainda que alguns correspondam a invenções de séculos anteriores. É o caso das Garrafas de Leiden – os primeiros condensadores (instrumentos que permitem “armazenar” cargas elétricas) –, que têm o nome da cidade Holandesa onde foram inventados no século XVIII. Os hemisférios de Magdeburgo (cidade natal de Otto von Guericke, cientista alemão que, no século XVII, estabelece a Física do Vácuo) ou a bomba de incêndio de Nollet (físico experimental francês, séc. XVIII) são também exemplos disso.


Exemplos de tecnologia desenvolvida no século XIX são os telégrafos e o conjunto para daguerreotipia. Os primeiros são representados por dois modelos: o telégrafo de Morse e o (talvez) menos conhecido telégrafo de Breguet. Este, inventado em França, e posterior ao de Morse, pode ser encarado como um alargamento do acesso à utilização desta tecnologia: permite o uso da telegrafia elétrica sem a necessidade de aprender um novo código; apontando para uma letra no emissor, vemos o recetor fazer o mesmo movimento e assim passamos mensagens letra a letra. O conjunto para daguerreotipia (outra invenção francesa), adquirido em 1842, está exposto juntamente com a cópia de uma fotografia do Paço das Escolas, tirada usando este mesmo conjunto.

terça-feira, 21 de maio de 2019

A PRISÃO ACADÉMICA




As estruturas atualmente existentes reportam do que foi, até 1834, o cárcere académico (quando, por virtude da revolução liberal, se extingue a jurisdição do conservador da Universidade sobre professores, estudantes e familiares). Correspondem a três fases distintas, de utilização do espaço: a primeira ligada às estruturas originais do palácio régio e, as restantes, já da ocupação universitária.

Quanto ao cárcere académico propriamente dito, a sua existência decorre do foro privativo, que protegia as antigas universidades enquanto corporações, preservando professores, funcionários e (sobretudo) escolares do convívio com criminosos de delito comum. Não raro, as punições deviam-se sobretudo a razões de índole puramente disciplinar.

Reivindicada, por esse facto, pela Universidade junto do Rei desde 1541, a existência da cadeia seria finalmente reconhecida nos Estatutos de 1591, instalando-se, em 1593, em dois antigos aposentos existentes sob a Sala dos Capelos. Aí se conservaria até ao século XVIII. Só em 1773, no âmbito da reforma pombalina dos estudos e dos trabalhos gerais de dignificação do palácio escolar, a cadeia viria a ser transferida para os pisos inferiores da Biblioteca Joanina, em dependências construídas para essa função.

Durante a sua transferência foram realizadas obras de adaptação, levadas a cabo em 1782, por forma a acrescentar aos restos ainda existentes do cárcere medieval (fundamentalmente os segredos e o pequeno corredor adjacente) um reduzido número de celas comuns, sala de visitas, oratório, etc. Foram também tidas em consideração questões de conforto (construção de latrinas) e de segurança. Esta operação obrigaria a que o cárcere passasse a ocupar parte do piso intermédio.

Embora parte das suas dependências tenham sido adaptadas a depósito bibliográfico e muito do seu recheio e equipamento se tenha perdido, a Cadeia Académica constitui um raríssimo testemunho europeu de uma antiga cadeia privativa.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Os Guardiões da Joanina


A Biblioteca Joanina, exemplo de uma perfeita harmonia entre a arte e a cultura. No seu interior, revestido de belas estantes e varandas, cobertas de ricas talhas e pinturas a ouro, sobre fundos azuis e vermelhos, ornamentados com motivos orientais (Chinoiserie), podemos encontrar valiosíssimas coleções de obras publicadas por toda a Europa, até ao ano de 1800, com especial incidência nas áreas que serviram de base à constituição da própria Universidade: Direito (Civil e Canónico), Medicina e Teologia.

Todo o edifício foi idealizado com vista à preservação natural dos seus livros, através da concretização de uma climatização natural, proporcionada quer pela própria orientação da Biblioteca, bem como da espessura das suas paredes (211 cm), as quais proporcionam as conduções necessárias à conservação natural dos livros.

Contudo, o mais extraordinário facto ambiental da Biblioteca Joanina, e aquele que junto do grande público suscita grande admiração é a permanência, no seu interior de alguns dos seus principais guardiões: os morcegos da Joanina.



Tornados famosos pelo próprio escritor italiano Umberto Eco, a propósito de uma visita à Biblioteca Joanina em 1966, estes pequenos mamíferos vivem numa pequena colónia, no interior da própria Biblioteca, na qual encontram abrigo no cimo das altas estantes. Aqueles que hoje habitam a Biblioteca ainda são os descendentes daqueles há quase trezentos anos ali se introduziram, quando o edifício foi guarnecido de livros pela primeira vez.

Em troco do abrigo proporcionado pela Biblioteca, estes animais da noite retribuem através da proteção dada aos livros nela contidos, através da caça de insetos bibliófagos, a presença dos quais poderia danificar os livros, quer o papel das suas páginas, que as próprias capas de couro.

Devido à sua capacidade de fácil deteção de insetos, voadores e/ou rastejantes, os morcegos facilmente os alcançam, alimentando-se deles, numa perfeita relação simbiótica: a Biblioteca oferece o abrigo e, em troca, o morcego protege os livros. O único efeito secundário perigoso desta relação é o excremento do morcego que, tendo propriedades ácidas, poderia danificar as mesas da Bibliotecas, também elas parte do seu valiosíssimo espólio. Por essa mesma razão, ao fim do dia, tais mesas são cobertas, para sua proteção.

Para dissabor daqueles que visitam a Biblioteca Joanina, os morcegos raramente aparecem durante o dia. No entanto, aquando da realização de espetáculos no Piso Nobre, estes guardiões da noite têm sido vistos, como que atraídos pelos sons do piano, a sobrevoar os seus ouvintes, proporcionando, assim, um espetáculo adicional e único para todos os presentes.

Ao fim do dia, é comum poder-se observar o seu voo em torno da Torre da Universidade, num claro sinal de que a sua vigília se iniciou.

Gustavo Gonçalves



quarta-feira, 3 de abril de 2019

Jardim Botânico da Universidade de Coimbra


A ideia da criação de um Jardim Botânico surge no seio da Reforma Iluminista, que o Marquês de Pombal levou a cabo na Universidade de Coimbra. O intuito desta reforma era modernizar o ensino e abrir portas a novas perspetivas para o ensino superior, centrando-se numa preocupação racionalista e experimentalista dos métodos, dando primazia ao conhecimento empírico.

É com a criação da Faculdade de Filosofia que vemos surgir um jardim, que possibilitará o desenvolvimento científico dos estudos da área Botânica, mas tal só seria possível com a construção de novos espaços adequados ao propósito. Já havia sido apontada essa necessidade de estabelecer um Horto Botânico em Coimbra, com o efémero projeto elaborado por Jacob de Castro Sarmento, em 1731.

De modo a concretizar essa necessidade, o Marquês manda, sobre o patrocínio do reitor D. Francisco Lemos, construir um jardim inspirado em outros já existentes nas grandes cidades universitárias da europa, nomeadamente de Pádua. Surge, então, ligado à fundação do Museu de História Natural, por decreto, em 1772, o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. Os seus trabalhos só foram iniciados em 1774, ocupando os terrenos onde estava a Quinta do Colégio de S. Bento.

Os seus primeiros diretores foram Domingos Vandelli, e a partir de 1791, Avelar Brotero. O último foi Luís Wittnich Carisso, entre 1918-1937.

Teve vários botânicos encarregues da sua direção, possui exemplares de plantas exóticas de vários sítios de Portugal continental, Açores, Europa, Austrália, Oceânia, Angola, Brasil, etc…, que foram sendo implementados ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX, transformando este jardim não só num polo do conhecimento botânico, mas também numa das grandes maravilhas de Portugal e da Europa.

O jardim possui uma biblioteca com mais de 125 000 volumes, um herbário com cerca de 1 milhão de espécies originárias de todos os cantos do planeta. Possuí, inclusive, uma das maiores e mais completas coleções de Eucaliptos, com cerca de 51 espécies diferentes.

A dimensão do jardim é de 13,5 hectares, constituídos por dois núcleos primordiais: o núcleo do quadrado central, desenhado à moda italiana com arbustos pequenos e sempre muito bem aparados, envolvido com árvores e plantas raras (ou ainda as estufas), de modo a recriar um jardim interior intimista resguardado por vegetação de médio-grande porte; e a Mata que se vai espalhando como se se disseminasse por toda a restante encosta do monte.

Os laboratórios criados em torno do Jardim ainda hoje proporcionam e impulsionam boas condições para o desenvolvimento de atividades de investigação científica na Botânica.


João Archer de Carvalho


terça-feira, 2 de abril de 2019

O desejo marcado no livro 

Ao longo dos séculos da sua existência a Biblioteca Joanina recebeu doações que alargaram o seu acervo de livros. Nessas coleções, além do conhecimento e dos sinais do tempo, existem também algumas marcas provocadas de forma intencional sinalizando e demonstrando práticas e costumes sociais de uma época. Exemplo dessas marcas intencionais pode ser observado na coleção Histoire Naturelle de Buffon, anteriormente pertencente ao Colégio dos Militares de Lisboa, e hoje presente na estante 25 do piso intermédio da Biblioteca Joanina. Essa coleção, composta por 13 volumes, em relativo bom estado de conservação, além do típico desgaste traz também marcas realizadas de forma intencional. O volume IV, diferente dos demais, possui a lombada de numeração raspada, quase apagada, diferente dos outros volumes ainda legíveis. Essa marca denuncia uma sinalização deliberada e o motivo pode ser percebido no interior do livro.

Neste volume Buffon trata, entre outros temas, sobre as forças da natureza que produzem os denominados “prodígios” como gêmeos siameses, o vitiligo e o albinismo. Ilustrando essas patologias presentes na natureza, a obra traz como exemplo vários desenhos de mulheres nuas. Evidentemente no século XVIII e XIX a nudez era um tabu, sendo muitas vezes censurada e vedada aos jovens estudantes. Se tratando de um Colégio Militar, provavelmente a marca foi feita pelos professores que, certamente, não recomendavam a obra… ou mesmo pelos próprios alunos desejosos de saciar sua curiosidade sobre o corpo feminino.

                                                                                                              de Gustavo Oliveira Ferreira 






segunda-feira, 1 de abril de 2019

Os reis ausentes na Sala dos Capelos

1640, o ano no qual os “Quarenta Conjurados” planearam e consumaram a conspiração que, a 1 de dezembro, restaurou a independência de Portugal sob a égide de D. João IV, o duque de Bragança. Durante as três décadas seguintes foram travados uma série de confrontos armados entre o reino de Portugal e a Coroa de Castela, os quais culminaram com a vitória decisiva de Portugal e à obrigação, por parte do seu vizinho ibérico, ao reconhecimento oficial da soberania portuguesa, a par das suas possessões coloniais. Durante todo o processo restaurador, a causa portuguesa contou com apoios vindos não só do estrangeiro, mas também de todos os estratos da própria sociedade portuguesa. Entre as diversas personalidades que deram voz a esta causa, destacamos a figura de D. Manuel de Saldanha o qual, a par de ter exercido as funções de reitor da Universidade de Coimbra (1639-1659), comandou, enquanto general, as forças académicas nos teatros de guerra ibéricos. 

A D. Manuel de Saldanha se ficou, de igual forma, a dever a remodelação da antiga sala do trono do palácio real, a atual Sala dos Capelos. Guiado por um ideal de afirmação e consolidação da identidade nacional o novo reitor procurou alcançar tal fim através do recurso a elementos ornamentais elucidativos do período anterior à perda da soberania. Exemplo disso é a aplicação de um cordão em talha dourada, que delimita cada um dos caixotões  presentes no teto da sala, bem como a própria pintura destes que denota características que procuravam ir contra a estética real filipina. 



No entanto, no conjunto decorativo da Sala dos Capelos, os elementos que mais se destacam são os retratos dos trinta e um monarcas portugueses. De Afonso Henriques a D. João IV, todos os retratos são da autoria do dinamarquês Carlos Falch. Daí em diante, até D. Manuel II, os retratos foram pintados à medida que os monarcas se iam sucedendo. 

Fruto do acérrimo patriotismo de D. Manuel de Saldanha, aos Filipes de Espanha, que governaram Portugal entre 1580 e 1640, não foi concedida a mesma honra, uma vez que estes não eram vistos como monarcas legítimos, mas sim como usurpadores do poder real. Assim se explica a sua ausência do rol de retratos daqueles que, por 767 anos, governaram Portugal. 


De Gustavo Gonçalves
01 de Abril, 2019


quinta-feira, 7 de março de 2019


A CAPELA REAL DE S. MIGUEL 



Remonta aos inícios da nacionalidade portuguesa a fundação da capela real de S. Miguel nos paços da Alcaçova em Coimbra. Assentando nesta cidade a sua residência habitual, el-rei D. Afonso Henriques erigiu no seu próprio palácio uma capela, onde quotidianamente se celebrasse o sacrifício eucarístico, e se recitassem privadamente as horas canónicas, para satisfação da piedade de el-rei e da régia família. (...)

Grande era a devoção que o fundador da monarquia portuguesa tributava ao arcangélico príncipe da milícia celeste, em cuja proteção muito confiava.
Edificando a igreja do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a ele fez consagrar a primeira das capelas laterais da nave da Epístola; em sua honra também erigiu capelas na igreja da Alcáçova de Santarém, e em Santa Maria de Alcobaça; fundou finalmente a notável ordem militar de S. Miguel da Ala, que em breve desapareceu, e cuja memória escassa ficou envolvida em denso nevoeiro de lendas.
Desde então os nossos reis e o povo português ficaram considerando o arcanjo S. Miguel como espírito tutelar, que vigia, protege e defende esta nação. (...)




Durante os primeiros reinados conservou-se em Coimbra a sede habitual da corte, e na capela real de S. Miguel manteve-se regularmente o culto.
Era nela que os nossos reis, e as pessoas das suas famílias, satisfaziam os seus deveres religiosos; a ela iam frequentemente implorar do céu a proteção e auxílio para as suas empresas e cometimentos bélicos. (...) 
Capela frequentada pela austera, adorável, virtuosíssima e muito popular esposa de D. Dinis, a rainha Santa Isabel, que nela recebia a sagrada comunhão das mãos do seu capelão Mestre Gonçalo, e assiduamente aqui viria suplicar graças e agradecer favores, cobrar alentos e desabafar mágoas, solicitar caritativamente perdões divinos e formar devotamente propósitos santos, pondo toda feuza em nosso Senhor Jesu Christo, & na Virgem Santa Maria sa Madre, & na Corte Celestial (declaração feita pela rainha Santa Isabel a 8 de Janeiro era 1363, logo depois da morte de D. Dinis) particularmente no príncipe da milícia angélica, em cuja honra se erguera este santuário!
Que variedade de impressionantes recordações que nos traz à imaginação esta antiga e nobre capela real de S. Miguel do paço dos nossos primeiros reis!
(...)

do livro Real Capela da Universidade, de Dr. António de Vanconcelos

sexta-feira, 1 de março de 2019

1 de Março de 1290. 729 ANOS de HISTÓRIA 

                                           "Documento Precioso" de fundação da Universidade


É este o documento mais antigo que atesta a existência da Universidade. Foi trazido para o Arquivo da Universidade em 1912, quando então se encontrava no arquivo do cabido da Sé de Viseu, por iniciativa do seu Diretor, o Doutor António de Vasconcelos que o designou "Documento precioso".
É hoje um dos mais preciosos tesouros que se conserva no Arquivo da Universidade de Coimbra.

O Estudo Geral do Reino ou Universidade Portuguesa fundada por D. Dinis, em Lisboa, a 1 de Março de 1290, mas só a 9 de Agosto o Papa Nicolau IV assinou a bula de confirmação: De statu regni Portugalise (Livro Verde da Universidade de Coimbra), criando o estudo sobre o Direito Canónico, Direito Civil, Medicina, Gramática e Dialética- as duas últimas constituíam as Artes. 

A 26 de Fevereiro de 1308, por bula do Papa Clemente V- Profectibus publicis- foi autorizada a transferência da Universidade para Coimbra. 
D. Afonso IV, transfere novamente a Universidade para Lisboa em 1338 e em 1354 volta de novo a Coimbra por determinação do mesmo rei. Em 1377, volta a Lisboa com o rei D. Fernando e só em 1537, a Universidade, o Colégio Real ou antes, as Escolas Gerais fixam-se definitivamente em Coimbra. 

Com Sete séculos e vinte e nove anos, a Universidade de Coimbra conta com um património material e imaterial único, peça fundamental na história da cultura científica europeia e mundial. Estudar e investigar na Universidade de Coimbra é dar continuidade à história da matriz intelectual do país, que já formou as mais destacadas personalidades da cultura, da ciência e da política nacional.


                                                                     Tradução portuguesa




                                                                     Transcrição latina



Fonte Arquivo da Universidade de Coimbra

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Sabia que em Coimbra existiu um Castelo? 


                                                                                            Figura 1-Castelo de Coimbra


O sítio que hoje conhecemos como Largo de D. Dinis esteve ocupado, em tempos, pelo Castelo de Coimbra (vejam-se as figuras 1 e 2) (Alarcão, 2008). Não se sabe, ao certo, a data da sua fundação, mas a construção da torre de menagem é do reinado de D. Afonso Henriques e a da torre quinária ou de Hércules do tempo de D. Sancho I (1198) (Filipe & Teixeira, 2013). 
O castelo teve reformas nos reinados de D. Sancho I, D. Dinis e D. Fernando (Duarte, 2005) (Filipe & Teixeira, 2013). 
A Torre de menagem tinha cerca de 22 metros de altura e a torre quinária devia ter 26,5 metros (Alarcão, 2008). 
O seu desaparecimento deveu-se, em primeiro lugar, às demolições do século XVIII, para se construir um observatório astronómico (obra que não foi terminada) (Filipe & Teixeira, 2013) e, em segundo lugar, às obras do estado novo que destruíram o que restava do castelo (Duarte, 2005). Coimbra tinha, igualmente, uma muralha e um conjunto de 15 torres (Duarte, 2005). Juntamente com os castelos de Penela, Montemor-o-Velho, Soure ou Miranda do Corvo, o castelo de Coimbra pertencia á linha de defesa do Mondego, apresentando, assim uma relevante importância militar e política (Filipe & Teixeira, 2013) . 


                                                                 Figura 2- Localização do Castelo de Coimbra



                                                                                                                   Figura 3-Planta do Castelo



Miriam Rocha
Fevereiro de 2019




Referências Bibliográficas:
Alarcão, J. d. (2008). Coimbra: a montagem do cenário urbano. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.
Duarte, B. (2005). Coimbra,cidade muralhada. Arquivo Coimbrão.Boletim da Biblioteca Municipal, 38, 93-108.
Filipe, S., & Teixeira, R. (2013). A intervenção arqueológica no largo do castelo de coimbra: Vestigios da Torre de Menagem.Abordagem preliminar dos resultados. Em I. Fernandes, Fortificações e Território na Peninsula Ibérica e no Magreb (Séculos VI a XVI)-Volume I (pp. 445-456). Lisboa: Edições Colibri& Campo arqueológico de Mértola.



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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

NASCERAM REIS NO PAÇO REAL DE COIMBRA


No Paço Real da Alcáçova, foi o local onde nasceram e viveram alguns dos Reis de Portugal durante a primeira Dinastia. E foi na Sala Grande dos Actos que ocorreram importantes episódios da vida da nação portuguesa, não fosse esta a Sala do Trono do Paço Real da Alcáçova, onde foi a aclamação de D. João I, Rei de Portugal.
Primeira Dinastia de 1143-1383.

Fotos dos quadros da Sala Grande dos Actos (Sala dos Capelos).


D. Sancho I “O Povoador” – 1185-1211

                                    

Nasceu em Coimbra, em 1154. filho de D. Afonso Henriques e de D. Mafalda de Sabóia. Casou com D. Dulce de Aragão, filha do conde de Barcelona. Herdeiro das virtudes militares de seu pai, continuou a luta encetada contra os mouros. D. Sancho I teve o cognome de “O Povoador”por ter mandado povoar as terras conquistadas. Faleceu em 1211, em Santarém. Sepultado no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, com seu pai D. Afonso Henriques.


D. Afonso II “O Gordo” – 1211-1223

                               

Nasceu em Coimbra, em 1185. Filho de D. Sancho I e de D. Dulce de Aragão, foi o sucessor de seu pai. Casou com D. Urraca, filha de Afonso VIII de Castela. D. Afonso II foi cognominado de “O Gordo” por ser muito gordo. A principal preocupação de D. Afonso II foi a administração do reino e convocou as primeiras Cortes portuguesas em 1211, em Coimbra. Prosseguiu, também, o alargamento do território. D. Afonso II faleceu em Santarém, em 1223. Jaz no Mosteiro de Alcobaça.


D. Sancho II “O Capelo” – 1223-1248



Nasceu em Coimbra, em 1209. Filho de D. Afonso II e de D. Urraca de Castela. Casou com D. Mécia Lopes de Haro, de Leão. D. Sancho II subiu ao trono aos 13 anos e foi cognominado de “O Capelo” por, em criança, ter usado o hábito de frade franciscano. Mostrou-se rijo na arte da guerra, como seu bisavô D. Afonso Henriques, mas foi um fraco administrador. Destituído de rei pelo Papa, em 1245, D. Sancho II exila-se em Castela. Morre em Toledo, em 1248, onde foi sepultado.


D. Afonso III “O Bolonhês” – 1248-1279



Nasceu em Coimbra, em 1210. Era irmão de D. Sancho II, a quem sucedeu. Casou com D. Matilde, condessa de Bolonha, e mais tarde casou com D. Beatriz de Guilhen. D. Afonso III foi cognominado de “O Bolonhês”por, ter casado com a condessa de Bolonha. Assumiu a Regência do Reino em 1245. Depois da morte de seu irmão, D. Sancho II, em 1248, foi proclamado rei. Protegeu a agricultura e desenvolveu o comércio e a indústria. Criou concelhos e concedeu muitos forais. D. Afonso III faleceu em 1279. Jaz no Mosteiro de Alcobaça.



D. Pedro I “O Justiceiro” – 1357-1367


Nasceu em Coimbra, em 1320. Era filho de D. Afonso IV, a quem sucedeu, e de D. Beatriz. Casou com D. Constança, de Castela. D. Pedro I foi cognominado de “O Justiceiro”, "Cruel" por ter aplicado uma justiça rigorosa e severa, igual para todos. Faleceu em Estremoz, em 1367 mas os seus restos mortais e de D. Inês de Castro encontram-se no Mosteiro de Alcobaça.


D. Fernando “O Formoso” – 1367-1383




Nasceu em Coimbra, em 1345. Era filho de D. Pedro I, a quem sucedeu, e de D. Constança. O seu casamento com D. Leonor de Teles, não foi bem recebido pelo povo, tendo até de sair de Lisboa para se poder casar sem tumultos. D. Fernando foi cognominado de “O Formoso”pela sua beleza e distinta figura. Morreu em 1383, deixando uma única filha, D. Beatriz, casada com D. João I, rei de Castela. Terminou, assim, a primeira dinastia, conhecida por “Afonsina” ou “de Borgonha”.




terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

«Basta de tanto sofrer!» uma história do Aqueduto de São Sebastião


O Aqueduto de São Sebastião, popularmente conhecido como os Arcos do Jardim, localiza-se na calçada Martim de Freitas, em frente ao Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, e remonta a um primitivo aqueduto romano, que abastecia a parte alta da povoação.

O atual aqueduto é obra do final do século XVI, sob o reinado de Sebastião de Portugal, com traça do arquiteto italiano Filipe Terzio. Aproveitando o percurso e possivelmente os restos do antigo aqueduto, ligava os morros onde se situavam o mosteiro de Santana e o Castelo de Coimbra, vencendo uma depressão em vinte e um arcos.
O Arco de Honra é de cantaria de pedra, e no seu topo destaca-se um conjunto de duas esculturas representando, do lado Norte São Roque, e do lado Sul São Sebastião.

Foram muito faladas algumas aventuras académicas nos arcos, sendo a mais conhecida a 1859-1860 um grupo de estudantes treparam ao alto do arco nobre em cima do qual se vê ainda hoje o baldaquino que cobre S. Sebastião e S. Roque e arrancaram as setas cravadas no mártir e deixaram um cartaz dizendo «Basta de tanto sofrer!»

Fonte: Trindade Coelho no seu livro “In Ill Tempore: Estudantes, lentes e futricas” (1902:346) 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019


O MOSAICO ROMANO



Na entrada principal da Reitoria, no Paço Real encontra-se uma vitrina com um fragmento de mosaico romano, o que provoca a curiosidade de muitos os que por ali passam.

 



O fragmento foi encontrado durante as escavações arqueológicas no pátio, em 2001 e terá segundo os arqueólogos pertencido à sala de uma casa senhorial romana. Este achado mostra a ocupação do espaço da universidade desde o século I / II.
A residência romana seria uma das construções da antiga cidade romana de Aeminium. O mosaico, que é um dos raros exemplos em espaços urbanos, mostra o mesmo tipo de motivos geométricos que eram comuns na região, provavelmente produto de uma oficina local.



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Amor a Coimbra

Um raio de luar 
Noite calma e bela
Um estudante a cantar
Sob uma janela
Te canto Coimbra
Com notas sem fim
Grandes como o amor
Grandes como o amor que eu tenho por ti

Tens a luz mais linda
Deste Portugal
Recantos de amor
A Lapa e o Choupal

A Rainha Santa 
Te abençou
Todo o que é poeta 
Todo o que é poema,sempre te cantou

Um raio de luar
Noite calma e bela
Um estudante a cantar
Sob uma janela
Te canto Coimbra
Com notas sem fim
Grandes como o amor
Grandes como o amor, que eu tenho por ti

Lindo é o Mondego
Que ouve a nossa voz
E vai em sossego
Lá longe para a foz
Nas águas vão notas
De um fado sofrido
Cada coração
Cada coração, canta o seu destino

Um raio de luar
Noite calma e bela
Um estudante a cantar
Sob uma janela
Te canto Coimbra
Com notas sem fim
Grandes como o amor
Grandes como o amor, que tenho por ti

Um raio de luar
Noite calma e bela
Um estudante a cantar
Sob uma janela
Te canto Coimbra
Com notas sem fim
Grandes como o amor
Grandes como o amor, que tenho por ti

Um raio de luar...