terça-feira, 5 de maio de 2020


Uma Viagem (concisa) pela Língua Portuguesa 



Dez anos depois de a Comunidade de Países de Língua Portuguesa ter assinalado o dia 5 de maio como o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLP, a UNESCO veio oficializar esta data como o Dia Mundial da Língua Portuguesa, a primeira língua não-oficial desta organização a receber tal consagração. 

O português é o quinto idioma mais falado no mundo – usado por mais de 265 milhões de pessoas – e é a língua oficial de nove países, distribuídos por quatro continentes[i]. Se compreender a origem de uma língua significa abarcar os factos linguísticos, históricos, políticos, sociais e culturais (Faraco, 2019)[ii], então, a história da língua permite versar acerca do passado - e do presente - que une países fisicamente tão distantes. 

A língua portuguesa – tal como a galega – deriva do latim que se estabeleceu como o principal idioma na Península Ibérica durante a presença romana. Com o recuo da influência romana e a constituição dos reinos germânicos, em confluência com a presença muçulmana, diferentes grupos da língua latina ganharão maior expressão. 

No século XII, o rei D. Dinis determinará o português como língua oficial da documentação do reino (Filho, 2005: 24)[iii], em substituição do latim jurídico (Mattos e Silva, 2006)[iv], e empregará o galego-português no cancioneiro nacional pois “[este] gozava de prestígio e era considerado adequado para desempenhar as funções que, em outras regiões da Europa, foram exercidas pelo provençal.” (Ilari et Basso, 2007:22)[v]. O Galego-português vinha, assim, assumir-se como língua aristocrática dos grandes grupos senhoriais. 

No século XIV, a vitória militar de Aljubarrota (1385) aumentaria a confiança nacional e as áreas de Coimbra para sul viriam marcar o futuro da nação. “Começava [a] História do Esquecimento da Galiza que duraria até hoje”. (Venâncio 2019: 108-109)[vi]. Será no decorrer do século XV - numa conjuntura histórica que gozou de estabilidade política, da maturidade da Ínclita Geração e do início dos Descobrimentos - que nasce uma língua composta de norma-padrão afastando-se definitivamente do galego, mas apoiando-se cada vez mais no espanhol. 

Ao longo do século XVI e XVII a língua portuguesa viajará para pontos distantes do globo. Primeiro para África, logo em 1415, seguindo-se da Ásia onde se estabelece como língua de contacto (Cardoso, 2016)[vii] e posteriormente a América[viii]. Destes pontos distantes incorporará palavras, expressões e usos linguísticos que enriquecerão o falar, a literatura, a ciência e as artes. 

A Universidade de Coimbra e os Colégios que aqui existiam desempenharam um papel influente na difusão da língua portuguesa. Era aqui que se formavam a maioria dos intelectuais que desenharam a história dos falantes deste idioma. 

Ao longo do século XVIII o francês, o inglês e o italiano influenciariam o português europeu, e será com a criação do Diretório do Marquês de Pombal (1755) - ao proibir a utilização de línguas indígenas – que se abrirá o caminho para o português (e a seu tempo brasileiro) como língua formal (Guimarães, 2005)[ix]

Já no século XX, o português será apresentado como língua oficial em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, bem como, em Macau. 

Hoje, dia 5 de maio de 2020, consagra-se a primeira celebração universal da Língua Portuguesa. Este dia passa, assim, a fazer parte do calendário oficial das Nações Unidas, assumindo claramente a sua importância à escala mundial: uma língua que ao viajar pelo tempo viajou pelo mundo e, hoje,  apresenta-se como a mais falada no hemisfério sul. 



Redigido por Germana Torres 


[i] UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization) (2019). Proclamation Of A World Portuguese Language Day. Paris: General Conference 40th Session. Disponível em <https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000371438> 
[ii] FARACO, C. (2019). História do Português. São Paulo. Parábola Editorial. 
[iii] FILHO, F. (2005). O Reino Lusitano com D. Afono III e D. Dinis e a Regulamentação Político-Legislativo-Administrativa. História Revista. 10. (I). 19-35. doi: https://doi.org/10.5216/hr.v10i1.10087 
[iv] MATTOS E SILVA, R. (2006). O português arcaico (fonologia, morfologia e sintaxe). São Paulo. Editora Contexto. 
[v] ILARI, R. et BASSO, R. (2007). O português da gente: a língua que estudamos a língua que falamos. São Paulo. Editora Contexto. 
[vi] VENÂNCIO, F. (2019). Assim nasceu uma Língua: sobre as origens do português. Lisboa. Guerra & Paz Editores. 
[vii] CARDOSO, H. (2016). O português em contacto na Ásia e no Pacífico. Manual de Linguística Portuguesa. Berlim. Mouton de Gruyter: 68-97 
[viii] CASTILHO, A. (1962). A Língua Portuguesa no Brasil (1). Disponível em < https://www.researchgate.net/publication/267553935_A_LINGUA_PORTUGUESA_NO_BRASIL_1>
[ix] GUIMARÃES, E. (2005). A Língua Portuguesa no Brasil. Ciência e Cultura. (57) 2 Disponível em < http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252005000200015>