terça-feira, 24 de março de 2020

Coronavírus: os dois lados da moeda 



2020 prometia ser um ano próspero. Com um número redondo e o século a deixar os anos de teenager para trás, foram muitas as expetativas criadas em torno de um futuro promissor. Não, o ano ainda não acabou e nem sequer vai a meio, à data a que este artigo é escrito, mas o mundo foi invadido por uma catástrofe que alguns já tinham previsto, mas ninguém sabia de que forma lidar com a situação. Eventos à escala continental/global (como feiras de Turismo, o Festival Eurovisão da Canção, o Campeonato Europeu de Futebol e, possivelmente, os Jogo
s Olímpicos), outros nacionais (concertos de música no Altice Arena, a exposição de Harry Potter em Lisboa), e ainda locais (a Queima das Fitas de Coimbra) são alguns dos exemplos de cancelamentos ou adiamentos, nestes últimos casos numa tentativa de dar esperança de que este período duro irá passar, como se de uma nuvem negra a cruzar os céus se tratasse. 

Naturalmente, e como já foi mencionado acima, o turismo não foge à regra na medida em que se insere numa das atividades atingidas, sendo, aliás, uma das que mais sofre com a pandemia que se alastra, gradualmente, pelo mundo inteiro. Em Portugal, os museus encerraram, diversas exposições ficaram sem efeito e, com isso, as receitas económicas provenientes da compra de bilhetes estagnou. O ex-libris da cidade de Coimbra, a sua Universidade, é um dos pontos que consta dessa lista. 

. Mesmo havendo museus que encerrem uma vez por semana, a UC nunca optou por fazê-lo. Seria como dar “um tiro no pé”, face à vasta quantidade de visitantes diários que recebe, pelo que se contam pelos dedos de uma mão o número de dias por ano em que a Porta Férrea, de facto, “tira folga”. É de senso comum que não estamos, de todo, sozinhos neste barco, mas tendo em conta que é uma situação deveras inédita, há que refletir sobre as consequências daí derivadas: reservas canceladas para os próximos meses, o Pátio das Escolas vazio em pleno mês de março e funcionários a trabalhar a partir de casa parecem ser as premissas que governam a nossa atualidade. Sabe-se que é um mal necessário para que os aglomerados turísticos possam retornar, num futuro que desejamos que seja próximo. 

Até lá, podemos também concentrar-nos nos pontos positivos, não? Primeiro que tudo, proteger a nossa saúde! Ao impedir o contato próximo entre funcionários e visitantes, diminuímos drasticamente as oportunidades para o coronavírus se rir das (e nas…) nossas caras. Em segundo lugar, permite à Biblioteca Joanina respirar, finalmente, em condições, contribuindo para a conservação mais eficaz dos seus livros. E, em terceiro, auxilia na diminuição da poluição sonora dentro do pátio, dando a D. João III um pouco de sossego em tempos tão complicados. Ah, de dizer também que os animais do Museu da Ciência estão, com certeza, a fazer festas zoológicas diárias entre eles, sem a presença constante de humanos. 

“Até quando?” é a pergunta que cada um de nós anseia por responder. A primeira previsão apontava para duas semanas… agora, é um mistério por resolver. Acredito na expressão “cada coisa a seu tempo” e que, por vezes, estas paragens, ainda que forçadas, sejam necessárias. Pelo bem de TODOS! Há que limar arestas e preparar um regresso em grande. Juntos somos mais fortes. “Vai tudo ficar bem”. J #stayhome 

José Miguel Sá

A UC Explica 06 - As edições xilográficas chinesas

segunda-feira, 23 de março de 2020

O assassinato dos lentes


Num período de agitação social devido às disputas entre liberais e absolutistas, dá-se um episódio que marcou profundamente a história da Universidade de Coimbra. A 18 de Março de 1828, perto de Condeixa-a-Nova, uma comitiva composta por membros da universidade e do clero que seguia de Coimbra para Lisboa com o objetivo de prestar homenagem a D. Miguel, foi intercetada por um grupo de jovens liberais pertencentes a uma associação secreta de estudantes designada “Divodignos”. Este ato resultou na morte de dois professores (então chamados de “lentes”) e, posteriormente ao acontecimento, nove estudantes da universidade foram presos, julgados e condenados à morte por enforcamento em menos de três meses. A sentença foi aplicada a 20 de Junho de 1828. 

“… sejão conduzidos pelas ruas publicas desta Capital [Lisboa], ao lugar da Forca, aonde morrerão morte natural para sempre; pela mesma Ordem com que vão nomeados no final desta Sentença, sendo depois decepadas as cabeças, e mãos aos Réos (…) que se prova terem tomado parte mais activa, e cruel na agressão, assassinios, e ferimentos;” 

Apesar de trágico, o episódio tornou-se um símbolo de luta pela liberdade. 


Fábio Monteiro


Fonte da citação: 

- Sentença proferida em Relação contra os estudantes de Coimbra que commetteraõ o horroroso attentado, de assassinarem os lentes da mesma universidade, proximo de Condeixa. Lisboa, Tipografia Patriótica,1828. - www.europeana.eu/pt/item/10501/bib_rnod_255722. 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

A Confraria de Nossa Senhora da Luz, 
a Real Capela e a Universidade de Coimbra



Breve apontamento

Começa em Lisboa, no século XV, a história da Confraria da Nossa Senhora da Luz, dos lentes e estudantes da Universidade. O responsável pela instituição da Confraria da Nossa Senhora da Luz é o Infante D. Henrique.

Com a transferência definitiva da Universidade para Coimbra, em 1537, e a decisão de que a Real Capela do Paço, sem perder nenhum dos seus privilégios reais, passe a desempenhar também o papel de Capela da Universidade, também a Confraria de Nossa Senhora da Luz é incorporada, como podemos ver nos estatutos universitários de 1559 e seguintes, nos quais se desenvolvem em pormenor as várias questões relacionadas com a Capela universitária, incluindo o regime da Confraria da Nossa Senhora da Luz.

Naqueles que são conhecidos como estatutos de D. Manuel I, podemos ler a dado momento: “Item ordenamos que todollos lentes & scolares mantenham a antiga confraria …”, para, nos Estatutos de 1591 clarificar: “Na Vniversidade auerá a confraria que sempre ouue dos lentes & estudantes, instituída pelo Iffante dõ Henrique mestre da ord~e & milícia de nosso senhor Iesu Christo, quãdodo os estudos estauão em Lisboa …“ [transcrição livre: “Ordenamos que todos os lentes e escolares mantenham a antiga confraria…” | “Na Universidade haverá a Confraria que sempre houve dos lentes e estudantes, instituída pelo Infante Dom Henrique, Mestre da Ordem e milícia de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando os estudos estavam em Lisboa e será governada e servida por Mordomos e Escrivães…”]
A sua importância é tão significativa que, “em 1610 se obtém de Roma, entre outras graças espirituais, que o altar de Nossa Senhora da Luz, na Real Capela, fosse privilegiado, facto esse que atraiu muitos sacerdotes de fora, que nele desejavam celebrar” (Rodrigues, 1993: 153).
A Confraria da Nossa Senhora da Luz da Universidade tinha um regime muito particular e distinto das restantes confrarias medievais portuguesas: com os estatutos legalmente aprovados e incorporados nos Estatutos da Universidade, era tutelada por um conselho de deputados e conselheiros universitários, presidido pelo Reitor.
Constituía a Confraria um conjunto de quatro categorias de membros: Professores, Graduados, Estudantes e Empregados da Universidade, facto muito curioso, uma vez que desde época medieval se reúnem nesta Confraria, todos os elementos que compõem a comunidade universitária, incluindo os estudantes graduados.
De entre as suas funções, e para além de grande parte do serviço litúrgico, eram função da Confraria o auxílio na doença dos estudantes pobres, e o acompanhamento fúnebre de professores, estudantes e funcionários.

O modo de funcionamento e recolha de esmolas para apoiar o serviço prestado pela confraria aos seus confrades tem particularidades muito interessantes.
A Confraria manteve o seu pleno funcionamento até 1910, ao momento da implantação da República. Em 1934 retoma a Confraria de Nossa Senhora da Luz a sua atividade, na Capela da Universidade, sob forte impulso do Dr. António de Vasconcelos.
Novamente interrompida algum tempo depois, é por resolução do Senado Universitário, em novembro de 1960 (integrada nas comemorações do Infante D. Henrique) restaurada a Confraria de Nossa Senhora da Luz.

Curiosamente, na intervenção de reabilitação e restauro da Capela de São Miguel ocorrida em 2015, foi possível identificar nos trabalhos arqueológicos, um expressivo conjunto de candeias de cerâmica, ou luminárias, muitas delas inteiras, algumas mesmo sem marcas de uso, que são testemunho material desses momentos passados em que esta Real Capela e este Real Paço eram justamente iluminadas por candeias de cerâmica, câmaras de combustão cheias de azeite, incluindo um pavio ou torcida, (que eram incumbência da Confraria adquirir, como nos mostra a a relação de despesas da Confraria que se mantem no Arquivo da Universidade de Coimbra). É precisamente uma dessas candeias que hoje ilumina o altar de Nossa Senhora da Luz.
Compreende-se assim, talvez com maior clareza, o destaque dado a um dos altares laterais da Capela Real da Universidade, dedicado a Nossa Senhora da Luz, assinalado por uma belíssima escultura desta invocação, que foi custeada pela sobredita Confraria. Ainda hoje, séculos passados e a memória da Confraria dos Lentes e Estudantes por ventura um pouco desvanecida, a imagem se posiciona no mesmo local que ocupa desde finais do século XVI.
Muito apropriadamente o calendário litúrgico assinala a cada dia 2 de Fevereiro a invocação a Nossa Senhora da Luz ou Nossa Senhora das Candeias ou Candelária.
Muito apropriadamente a comunidade académica reunida na Real Capela da Universidade de Coimbra recorda e presta homenagem a este culto, que cumpriu ao longo de séculos tantas e
tão importantes funções de apoio e auxílio aos estudantes, professores e funcionários que em Coimbra estudaram, protegidos pelo manto e pela luz de Nossa Senhora.

Sónia Filipe | Dia de Nossa Senhora das Candeias de fevereiro de 2020

Bibliografia Consultada:
ESTATUTOS da Universidade de Coimbra (1653). Ed. fac-similada. Coimbra, 1985.
FILIPE, Sónia; ALMEIDA, Sara (2018) Relatório Final. Acompanhamento arqueológico da intervenção de Reabilitação da Cobertura e Altar-Mor da Capela de São Miguel. Reitoria da Universidade de Coimbra. Documento interno.
MESQUITA, Isabel (2008) (coordenação de Ana Maria Leitão Bandeira), Confraria de Nossa Senhora da Luz. Arquivo da Universidade de Coimbra. Acedido em: https://www.uc.pt/auc/fundos/ficheiros/UC_ConfrariaNossaSenhoraDaLuz
RODRIGUES, Manuel Augusto (1993), “A vida Religiosa na Universidade de Coimbra”, Revista da História das Ideias 15: Rituais e cerimónias, Instituto de História e Teoria das Ideias da FLUC. Pp. 147-160.
VASCONCELOS; António (1990), Real Capela da Universidade (alguns apontamentos e notas para a sua história), Arquivo da Universidade de Coimbra. Livraria Minerva.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019



Repúblicas, espaços míticos que despertam muitas curiosidades...



As suas origens remontam ao século XIV, quando D. Dinis, por diploma régio de 1309, promovia a construção de casas na zona de Almedina e que deveriam ser habitadas por estudantes, mediante pagamento de um aluguer, cujo montante seria fixado por uma comissão, expressamente nomeada pelo Rei, constituída por estudantes e por "homens bons" da cidade. É assim que a partir de um tipo de alojamento comum, permitindo minimizar os encargos financeiros, viriam a surgir, por evolução, as actuais Repúblicas. Ainda hoje as "casas" caracterizam-se pela exaltação de valores universais que unem o passado ao presente: a vida em comunidade, a soberania e a democraticidade. As decisões são geralmente tomadas por unanimidade e todos os membros responsabilizados na gestão da "casa".

“(…) a ‘república’ era como que um verdadeiro cortiço, onde viviam (…) rapazes das mais variadas Faculdades, das terras mais diversas, com os temperamentos mais diferentes e com os hábitos e psicologias mais antagónicas, mas vivendo como a mais exemplar das famílias. Desde os ‘cábulas’ impenitentes aos ‘ursos’ conceituados (…); desde o poeta de fama ao prosaico batoteiro e glutão que nunca se deitava sem ceia; desde o monárquico fiel até ao anarquista revolucionário; (…) desde o católico fervoroso (…) ao livre pensador (…)”. in “O Romance de Coimbra”, de Fernando Correia, 1932. 



Nas Repúblicas de Coimbra respira-se um ambiente único de originalidade e irreverência. Vivem debaixo do mesmo teto pessoas com divergências ideológicas por vezes bastante acentuadas, o que origina acesos debates. A ceia proporciona momentos de rara eloquência onde temas tão diversos como a política e a religião são debatidos.  As decisões são tomadas unanimemente e todos os membros responsabilizados na gestão da sua casa.

A imagem das Repúblicas esteve constantemente aliada à irreverência e à contestação do poder, sempre que isso significasse a defesa dos interesses da Academia. Assim foi, na década de 60, contestado o regime salazarista. 
A Crise Académica de 69 constituiu um retrato fiel da coragem e do espírito reivindicativo aí existentes; uma lista apoiada pelo Conselho das Repúblicas venceu, por esmagadora maioria, as eleições para a A.A.C. 
No início da década de 70, com a queda do salazarismo, importantes movimentos sociais intervieram na vida académica. 


Nota:
"Em 11 de Dezembro de 1948 cria-se o Conselho das Repúblicas, formado pelos KÁGADOS, BACO, RÁS-TE-PARTA, PAGODE CHINÊS, PALÁCIO DA LOUCURA, JÁSTÁ, tendo como principal objetivo aumentar o número destas e garantir a sua subsistência por tempo indefinido."

“Casas fruídas por Repúblicas de estudantes de Coimbra são consideradas associações sem personalidade jurídica” – Diário de República, Lei n° 2/82 de 15 de Janeiro 

“As Repúblicas e os Solares de Coimbra, admitidos como tal pelo Conselho de Repúblicas, bem como as cooperativas de estudantes são reconhecidos como pólos autónomos dinamizadores de cultura e de vivência comunitária e académica.” – Estatutos da Universidade de Coimbra, artigo 21°



Repúblicas de Coimbra:

Paços da República dos Kágados   Fundada em 1933
Real República Baco   Fundada em 1933
Real República Rás-Te-Parta   Fundada em 1943
República dos Galifões   Fundada em 1947
Real República Palácio da Loucura   Fundada em 1947
Real República do Bota-Abaixo   Fundada em 1949
República Ninho dos Matulões   Fundada em 1950
Real República do Prá-Kys-Tão   Fundada em 1951
Real República Spreit-Ó-Furo   Fundada em 1951
Real República Ay-Ó-Linda   Fundada em 1951
República dos Inkas   Fundada em 1954
Real República Boa-Bay-Ela   Fundada em 1956
Real República Rápo-Táxo   Fundada em 1956
Real República Corsários das Ilhas   Fundada em 1958
Solar dos Kapangas   Fundada em 1958
Real República Trunfé-Kopos   Fundada em 1960
República Kimbo dos Sobas   Fundada em 1963
República Farol das Ilhas   Fundada em 1962
Solar Residência dos Estudantes Açoreanos   Fundada em 1962
República 5 de Outubro   Fundada em 1967
República dos Fantasmas   Fundada em 1969
República Rosa Luxemburgo   Fundada em 1972
Solar do 44   Fundada em 1983
República da Praça   Fundada em 1989
Solar Marias do Loureiro   Fundada em 1993

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

CAPA e BATINA E A IGREJA??!!  Será que existe uma relação? 



O Traje académico, também conhecido por Capa e Batina, foi objecto de significativas transformações, no talhe e no aspecto, ao longo dos anos e tem a sua génese nas próprias vestes eclesiásticas.
A influência da Igreja no ensino, e, consequentemente, nos próprios estudantes, é um factor importante para explicar algumas particularidades que ainda hoje vigoram entre nós.
Realmente, tendo sido responsável pelo ensino superior até ao séc.XVIII, a Igreja, pelo estreito contacto que mantinha com o meio estudantil, veio a influenciar este com algumas características.
A mais vistosa é o próprio traje (como já atrás foi referido), no entanto, outras particularidades se podem salientar.

É de Praxe ter os botões do traje em número ímpar, os furos dos sapatos em número ímpar, os emblemas na capa em número ímpar, em suma, esta fixação pelo número ímpar vai ao ponto de não se dizer números pares e, em vez deles, dizer o número ímpar anterior mais 1. É uma particularidade, ou melhor, uma tradição, que encontra a sua melhor explicação nessa mesma influência que a Igreja teve na Universidade.

Este facto encontra fácil explicação na simbologia que os números pares e ímpares tinham para a Igreja Católica.

De facto, os números ímpares sempre foram os que mais significado tiveram para a Igreja Católica, salientando-se a simbologia do:
1: Deus;
3: Número da unidade e da Trindade. É usado para reforçar ou dar ênfase a uma expressão. Assim, quando se quer dizer que Deus é Santo, repete-se três vezes: «Deus é Santo, Santo, Santo». Deus abençoa três vezes. Três são os mensageiros que anunciam o nascimento de Isaac. É o número da plenitude e da santidade.
7: É a soma de 4 + 3. Por isso é o número perfeito, indica o máximo da perfeição; grande quantidade; totalidade; O sábado é o sétimo dia; Deus fez a Criação em 7 dias;a festa de Pentecostes acontece 7 vezes 7 dias depois da Páscoa; Cada sétimo ano é sabático (descanso para a terra e libertação dos oprimidos) e depois de 7 vezes 7 anos vem o Jubileu. Não se deve perdoar 7 vezes, mas 70 vezes 7, etc…

Por mera curiosidade, o número 4 significa os 4 elementos do universo, os 4 evangelhos, 4 cantos da terra, por isso associado ao 3 dá 7 que é o número perfeito.

Esta foi uma breve explicação do importante simbolismo que os números ímpares têm para a Igreja, que explica a sua adopção por esta como números favoráveis e, consequentemente, passaram para a Universidade.


Não esquecer que a maior parte dos números pares têm simbolismo feminino e os números ímpares têm simbolismo masculino, o que, também explica a preferência da Igreja pelos ímpares. Isto aliado ao facto do número par 6 ser o número imperfeito, sendo o 666 o número da besta (do diabo, satanás, demo, belzebu) conotado com o azar, má sorte, maldade, completa na perfeição a explicação da preferência pelos números ímpares.


sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Preso só na UC. Foi D. Dinis que cria um estatuto jurídico especial 

      Documento da criação foro académico


A 15 de fevereiro de 1309, outorgou-lhe D. Dinis a «Carta magna privilegiorium», na qual a isenção do foro comum foi consideravelmente ampliada.

... 1.º Proíbe ao alcaide Coimbra e aos seus oficiais que, em qualquer ocasião e seja por que motivo for, obrigarem os estudantes a comparecer perante os tribunais seculares;

2.º Permite-lhes apenas que os prendam em delito de homicídio, ferimento, furto ou roubo, rapto de mulher, ou fabricação de moeda falsa; com a condição porém de, o mais breve possível e sem dificuldades, independentemente de qualquer requisição, fazerem entrega deles à autoridade eclesiástica para esta os julgar.

E assim ficaram as coisas nos primeiros tempos da Universidade em Coimbra. As pessoas universitárias eram isentas da jurisdição das autoridades comuns, tanto nas causas crimes como nas cíveis, e sujeitas à jurisdição de um Juiz próprio, que, por escolha e determinação del-Rei, era a autoridade eclesiástica.

Neste mesmo diploma é criado na Universidade... o novo oficio... da Conservatória do Estudo.
Manteve-se o foro privativo da Universidade, até ao advento do regime constitucional, implantado em Coimbra a 8 de maio de 1834.

A jurisdição deste foro privativo residia, como vimos, na Conservatória judicial da Universidade. Havia nesta, além do magistrado judicial, que era o Conservador, o pessoal seu subordinado: 2 almotacés, 1 meirinho de vara branca, 2 escrivães, e outros oficiais. Tinha o meirinho às suas ordens 10 homens armados com «suas chuças ou partezanas» (as atuais alabardas), homens que vulgarmente se chamavam «verdiais» (os archeiros de hoje) por serem de cor verde as casacas dos seus uniformes. O Conservador erguia a sua vara banca de um magistrado judicial, não só nos edifícios das Escolas, mas em toda a cidade de Coimbra; e casos havia em que lhe era licito alçar a vara «em todas as partes do Reino, onde a Universidade tem suas rendas ed dividas».


Fonte: Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 297-299, 302-304, do Vol. I