segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Capela de São Miguel - O Retábulo do Altar Mor


A Capela de São Miguel, outrora Capela Real, foi reconstruída, substituindo um pequeno oratório, no século XVI. No seu interior encontramos uma fusão de estilos arquitetónicos, que resultaram das várias intervenções realizadas. 

Destacamos, neste breve apontamento, o imponente retábulo que reveste a totalidade do topo da capela-mor e que é considerado uma obra-prima do maneirismo português, datando do princípio do século XVII. 

Todo o retábulo é ornamentado em talha dourada, apresentando um grande trono central e pinturas sobre a vida de Cristo. 

O projeto do retábulo principal pertence a Bernardo Coelho, artista de Lisboa. A obra foi realizada pelo escultor Simão da Mota entre 1611 e 1613. 






Em 1613 Simão Rodrigues e Domingos Vieira pintaram os 5 painéis maneiristas sobre vida de Cristo que se encontram no retábulo: os painéis superiores representam o nascimento de Jesus e a Adoração dos Reis Magos; os painéis da parte inferior representam a Ressurreição e o aparecimento de Cristo à Virgem. Em baixo, ocupando aparte central, está representada a Última Ceia. Estão, também, representados nas laterais os bustos de São Pedro e São Paulo – dois dos principais discípulos. 

As pinturas do retábulo são um dos mais importantes conjuntos da pintura maneirista portuguesa, mostrando o que o estilo alcançava no final do século XVI e no inico do século XVII.

Diana Ferreira

Fonte  Dias P. & Gonçalves A.N. (sd) O património Artístico da Universidade de Coimbra 2ª Edição G.C – Gráfica de Coimbra, Lda.



terça-feira, 5 de maio de 2020


Uma Viagem (concisa) pela Língua Portuguesa 



Dez anos depois de a Comunidade de Países de Língua Portuguesa ter assinalado o dia 5 de maio como o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLP, a UNESCO veio oficializar esta data como o Dia Mundial da Língua Portuguesa, a primeira língua não-oficial desta organização a receber tal consagração. 

O português é o quinto idioma mais falado no mundo – usado por mais de 265 milhões de pessoas – e é a língua oficial de nove países, distribuídos por quatro continentes[i]. Se compreender a origem de uma língua significa abarcar os factos linguísticos, históricos, políticos, sociais e culturais (Faraco, 2019)[ii], então, a história da língua permite versar acerca do passado - e do presente - que une países fisicamente tão distantes. 

A língua portuguesa – tal como a galega – deriva do latim que se estabeleceu como o principal idioma na Península Ibérica durante a presença romana. Com o recuo da influência romana e a constituição dos reinos germânicos, em confluência com a presença muçulmana, diferentes grupos da língua latina ganharão maior expressão. 

No século XII, o rei D. Dinis determinará o português como língua oficial da documentação do reino (Filho, 2005: 24)[iii], em substituição do latim jurídico (Mattos e Silva, 2006)[iv], e empregará o galego-português no cancioneiro nacional pois “[este] gozava de prestígio e era considerado adequado para desempenhar as funções que, em outras regiões da Europa, foram exercidas pelo provençal.” (Ilari et Basso, 2007:22)[v]. O Galego-português vinha, assim, assumir-se como língua aristocrática dos grandes grupos senhoriais. 

No século XIV, a vitória militar de Aljubarrota (1385) aumentaria a confiança nacional e as áreas de Coimbra para sul viriam marcar o futuro da nação. “Começava [a] História do Esquecimento da Galiza que duraria até hoje”. (Venâncio 2019: 108-109)[vi]. Será no decorrer do século XV - numa conjuntura histórica que gozou de estabilidade política, da maturidade da Ínclita Geração e do início dos Descobrimentos - que nasce uma língua composta de norma-padrão afastando-se definitivamente do galego, mas apoiando-se cada vez mais no espanhol. 

Ao longo do século XVI e XVII a língua portuguesa viajará para pontos distantes do globo. Primeiro para África, logo em 1415, seguindo-se da Ásia onde se estabelece como língua de contacto (Cardoso, 2016)[vii] e posteriormente a América[viii]. Destes pontos distantes incorporará palavras, expressões e usos linguísticos que enriquecerão o falar, a literatura, a ciência e as artes. 

A Universidade de Coimbra e os Colégios que aqui existiam desempenharam um papel influente na difusão da língua portuguesa. Era aqui que se formavam a maioria dos intelectuais que desenharam a história dos falantes deste idioma. 

Ao longo do século XVIII o francês, o inglês e o italiano influenciariam o português europeu, e será com a criação do Diretório do Marquês de Pombal (1755) - ao proibir a utilização de línguas indígenas – que se abrirá o caminho para o português (e a seu tempo brasileiro) como língua formal (Guimarães, 2005)[ix]

Já no século XX, o português será apresentado como língua oficial em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, bem como, em Macau. 

Hoje, dia 5 de maio de 2020, consagra-se a primeira celebração universal da Língua Portuguesa. Este dia passa, assim, a fazer parte do calendário oficial das Nações Unidas, assumindo claramente a sua importância à escala mundial: uma língua que ao viajar pelo tempo viajou pelo mundo e, hoje,  apresenta-se como a mais falada no hemisfério sul. 



Redigido por Germana Torres 


[i] UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization) (2019). Proclamation Of A World Portuguese Language Day. Paris: General Conference 40th Session. Disponível em <https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000371438> 
[ii] FARACO, C. (2019). História do Português. São Paulo. Parábola Editorial. 
[iii] FILHO, F. (2005). O Reino Lusitano com D. Afono III e D. Dinis e a Regulamentação Político-Legislativo-Administrativa. História Revista. 10. (I). 19-35. doi: https://doi.org/10.5216/hr.v10i1.10087 
[iv] MATTOS E SILVA, R. (2006). O português arcaico (fonologia, morfologia e sintaxe). São Paulo. Editora Contexto. 
[v] ILARI, R. et BASSO, R. (2007). O português da gente: a língua que estudamos a língua que falamos. São Paulo. Editora Contexto. 
[vi] VENÂNCIO, F. (2019). Assim nasceu uma Língua: sobre as origens do português. Lisboa. Guerra & Paz Editores. 
[vii] CARDOSO, H. (2016). O português em contacto na Ásia e no Pacífico. Manual de Linguística Portuguesa. Berlim. Mouton de Gruyter: 68-97 
[viii] CASTILHO, A. (1962). A Língua Portuguesa no Brasil (1). Disponível em < https://www.researchgate.net/publication/267553935_A_LINGUA_PORTUGUESA_NO_BRASIL_1>
[ix] GUIMARÃES, E. (2005). A Língua Portuguesa no Brasil. Ciência e Cultura. (57) 2 Disponível em < http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252005000200015>

sexta-feira, 10 de abril de 2020


Domitila Hormizinda Miranda de Carvalho nasceu a 10 de abril de 1871, em de Travanca da Feira, Aveiro. Ao ingressar, nos finais do século XIX, como estudante da Universidade de Coimbra viria a distinguir-se não só como a primeira estudante universitária em Portugal, mas também pelas suas ações em prol da criação do primeiro Liceu feminino, pela participação em iniciativas de cariz feminista, assim como, pelo seu percurso político: uma das três primeiras mulheres deputadas do Estado Novo.




Após prestar provas finais do curso dos liceus, com excelentes resultados, os seus professores e a sua mãe insistiram que se candidatasse ao ensino superior. Viria a ingressar na Universidade de Coimbra, em outubro de 1891, como a primeira mulher que assistia regularmente às aulas. Porém, para que pudesse inscrever-se o Reitor da altura, Dr. António dos Santos Viegas (1890-92), enviaria um ofício ao Ministro da Instrução Pública e Belas Artes requerendo não só a permissão de matrícula, mas também a dispensa do uso de traje académico argumentando que “Não encontro na legislação académica disposição alguma que obste à matrícula de alunos do sexo feminino, a não ser para a Faculdade de Teologia (…) tanto os Estatutos como a legislação são omissos a tal respeito, certamente por se não ter previsto a possibilidade de uma rapariga se habilitar para seguir as carreiras científicas[i].
Enquanto aguardava autorização de matrícula pode assistir às aulas como ouvinte de modo a não perder as primeiras lições e durante cinco anos foi a única mulher a frequentar esta instituição. Enquanto aluna ficaria hospedada no Largo de São João (que hoje não subsiste), depois numa casa no Marco da Feira, mais tarde numa das casas do Arco dos Jardins e finalmente na Rua da Trindade (atual Rua José Falcão).
Entre 1891 e 1904, formou-se em três cursos superiores: Matemática (1894), Filosofia (1895) e Medicina (1904). Recebeu honras a quase todas as cadeiras, foi aluna distinta a cadeiras como Botânica, Física, Zoologia, Matemática ou Química Orgânica e foi galardoada com o Prémio Barão de Castelo de Paiva (1899 - 1900) e o Prémio Alvarenga (1901- 1902).
Foi uma mulher de grande sensibilidade humana, artística e pedagógica. Em 1904, seria convidada, pela rainha D. Amélia, a trabalhar para a recém-criada na Associação Nacional de Tuberculose. Exerceu a prática clínica no Centro Materno-Infantil e compreendendo que muitos problemas de saúde das crianças resultavam de parcas ou inexistentes cuidados maternos irá proferir conferências alertando para a necessidade de educar as mulheres uma vez que “estas são elas são as primeiras educadoras e as melhores agentes de mudança.[ii]
Viria a lutar pela criação do primeiro liceu feminino em Portugal – o Liceu D. Maria Pia (1906) – onde não só foi a primeira professora de Matemática em Portugal, como também a primeira Reitora (Diretora) no país. Como pedagoga acreditava que o acesso das mulheres ao ensino permitia-lhes transformar a sociedade atenuando as diferenças que separavam os homens das mulheres.
Em 1934, integraria a Assembleia Nacional na I e II Legislaturas (de 1935 a 1942) onde lutaria, entre outros assuntos, por incorporar no currículo liceal a disciplina de Higiene e Puericultura e cujo Governo, no ano seguinte,“Institue cursos de higiene geral em todos os liceus e de puericultura, para as alunas, nos liceus femininos ou mixtos e demais escolas secundárias onde houver turmas exclusivamente femininas.”[iii]
Aos 95 anos de idade viria a falecer, em Lisboa,deixando como legado uma importante carreira médica, pedagógica, política, humanista, feminista, de escritora e de poeta:
Coimbra – Terra de Amores[iv]
Catedral dos meus sonhos, casto bem
Que sorris ao meu gosto alvoraçado
Com ternura boa em si tem
Toda a côr dum vitral iluminado!

Terra de amores! Assim te chama alguém,
E céu de tanto afecto enamorado,
Sempre nova e florida, como quem
Torna ao presente as horas do passado…

És sonho piedoso de quimera.
Junto de ti há sempre primavera,
Aligeira-se a dor quando aqui passa.

Em ti há sempre luz e riso e côr
Pois quando a sombra desce inda é maior
Mais luminoso o sol da tua graça.



de Germana Torres 



[i] GOMES, J.F. Estudos para a História da Universidade de Coimbra. Coimbra. 1991: 41 – 43. A fonte original encontra-se no AUC Reitoria da Universidade. Correspondência. Ofícios (1890-1892). fls. 131v. – 132v.
[ii] MONTEIRO, N. (2009, fevereiro 10). A Associação de Propaganda Feminista e a primeira eleitora portuguesa. Ecos da Marofa, 6
[iii] Lei n. 1916 de 25 de maio de 1935. Diário do Governo n.º 119/1935 - I Série I. Lisboa: Ministério da Instrução Pública
[iv] CARVALHO, D. 1924. Terra de Amores. Coimbra: Coimbra Editora, Lda. 71 - 72

terça-feira, 24 de março de 2020

Coronavírus: os dois lados da moeda 



2020 prometia ser um ano próspero. Com um número redondo e o século a deixar os anos de teenager para trás, foram muitas as expetativas criadas em torno de um futuro promissor. Não, o ano ainda não acabou e nem sequer vai a meio, à data a que este artigo é escrito, mas o mundo foi invadido por uma catástrofe que alguns já tinham previsto, mas ninguém sabia de que forma lidar com a situação. Eventos à escala continental/global (como feiras de Turismo, o Festival Eurovisão da Canção, o Campeonato Europeu de Futebol e, possivelmente, os Jogo
s Olímpicos), outros nacionais (concertos de música no Altice Arena, a exposição de Harry Potter em Lisboa), e ainda locais (a Queima das Fitas de Coimbra) são alguns dos exemplos de cancelamentos ou adiamentos, nestes últimos casos numa tentativa de dar esperança de que este período duro irá passar, como se de uma nuvem negra a cruzar os céus se tratasse. 

Naturalmente, e como já foi mencionado acima, o turismo não foge à regra na medida em que se insere numa das atividades atingidas, sendo, aliás, uma das que mais sofre com a pandemia que se alastra, gradualmente, pelo mundo inteiro. Em Portugal, os museus encerraram, diversas exposições ficaram sem efeito e, com isso, as receitas económicas provenientes da compra de bilhetes estagnou. O ex-libris da cidade de Coimbra, a sua Universidade, é um dos pontos que consta dessa lista. 

. Mesmo havendo museus que encerrem uma vez por semana, a UC nunca optou por fazê-lo. Seria como dar “um tiro no pé”, face à vasta quantidade de visitantes diários que recebe, pelo que se contam pelos dedos de uma mão o número de dias por ano em que a Porta Férrea, de facto, “tira folga”. É de senso comum que não estamos, de todo, sozinhos neste barco, mas tendo em conta que é uma situação deveras inédita, há que refletir sobre as consequências daí derivadas: reservas canceladas para os próximos meses, o Pátio das Escolas vazio em pleno mês de março e funcionários a trabalhar a partir de casa parecem ser as premissas que governam a nossa atualidade. Sabe-se que é um mal necessário para que os aglomerados turísticos possam retornar, num futuro que desejamos que seja próximo. 

Até lá, podemos também concentrar-nos nos pontos positivos, não? Primeiro que tudo, proteger a nossa saúde! Ao impedir o contato próximo entre funcionários e visitantes, diminuímos drasticamente as oportunidades para o coronavírus se rir das (e nas…) nossas caras. Em segundo lugar, permite à Biblioteca Joanina respirar, finalmente, em condições, contribuindo para a conservação mais eficaz dos seus livros. E, em terceiro, auxilia na diminuição da poluição sonora dentro do pátio, dando a D. João III um pouco de sossego em tempos tão complicados. Ah, de dizer também que os animais do Museu da Ciência estão, com certeza, a fazer festas zoológicas diárias entre eles, sem a presença constante de humanos. 

“Até quando?” é a pergunta que cada um de nós anseia por responder. A primeira previsão apontava para duas semanas… agora, é um mistério por resolver. Acredito na expressão “cada coisa a seu tempo” e que, por vezes, estas paragens, ainda que forçadas, sejam necessárias. Pelo bem de TODOS! Há que limar arestas e preparar um regresso em grande. Juntos somos mais fortes. “Vai tudo ficar bem”. J #stayhome 

José Miguel Sá

A UC Explica 06 - As edições xilográficas chinesas