segunda-feira, 30 de setembro de 2019



Repúblicas, espaços míticos que despertam muitas curiosidades...



As suas origens remontam ao século XIV, quando D. Dinis, por diploma régio de 1309, promovia a construção de casas na zona de Almedina e que deveriam ser habitadas por estudantes, mediante pagamento de um aluguer, cujo montante seria fixado por uma comissão, expressamente nomeada pelo Rei, constituída por estudantes e por "homens bons" da cidade. É assim que a partir de um tipo de alojamento comum, permitindo minimizar os encargos financeiros, viriam a surgir, por evolução, as actuais Repúblicas. Ainda hoje as "casas" caracterizam-se pela exaltação de valores universais que unem o passado ao presente: a vida em comunidade, a soberania e a democraticidade. As decisões são geralmente tomadas por unanimidade e todos os membros responsabilizados na gestão da "casa".

“(…) a ‘república’ era como que um verdadeiro cortiço, onde viviam (…) rapazes das mais variadas Faculdades, das terras mais diversas, com os temperamentos mais diferentes e com os hábitos e psicologias mais antagónicas, mas vivendo como a mais exemplar das famílias. Desde os ‘cábulas’ impenitentes aos ‘ursos’ conceituados (…); desde o poeta de fama ao prosaico batoteiro e glutão que nunca se deitava sem ceia; desde o monárquico fiel até ao anarquista revolucionário; (…) desde o católico fervoroso (…) ao livre pensador (…)”. in “O Romance de Coimbra”, de Fernando Correia, 1932. 



Nas Repúblicas de Coimbra respira-se um ambiente único de originalidade e irreverência. Vivem debaixo do mesmo teto pessoas com divergências ideológicas por vezes bastante acentuadas, o que origina acesos debates. A ceia proporciona momentos de rara eloquência onde temas tão diversos como a política e a religião são debatidos.  As decisões são tomadas unanimemente e todos os membros responsabilizados na gestão da sua casa.

A imagem das Repúblicas esteve constantemente aliada à irreverência e à contestação do poder, sempre que isso significasse a defesa dos interesses da Academia. Assim foi, na década de 60, contestado o regime salazarista. 
A Crise Académica de 69 constituiu um retrato fiel da coragem e do espírito reivindicativo aí existentes; uma lista apoiada pelo Conselho das Repúblicas venceu, por esmagadora maioria, as eleições para a A.A.C. 
No início da década de 70, com a queda do salazarismo, importantes movimentos sociais intervieram na vida académica. 


Nota:
"Em 11 de Dezembro de 1948 cria-se o Conselho das Repúblicas, formado pelos KÁGADOS, BACO, RÁS-TE-PARTA, PAGODE CHINÊS, PALÁCIO DA LOUCURA, JÁSTÁ, tendo como principal objetivo aumentar o número destas e garantir a sua subsistência por tempo indefinido."

“Casas fruídas por Repúblicas de estudantes de Coimbra são consideradas associações sem personalidade jurídica” – Diário de República, Lei n° 2/82 de 15 de Janeiro 

“As Repúblicas e os Solares de Coimbra, admitidos como tal pelo Conselho de Repúblicas, bem como as cooperativas de estudantes são reconhecidos como pólos autónomos dinamizadores de cultura e de vivência comunitária e académica.” – Estatutos da Universidade de Coimbra, artigo 21°



Repúblicas de Coimbra:

Paços da República dos Kágados   Fundada em 1933
Real República Baco   Fundada em 1933
Real República Rás-Te-Parta   Fundada em 1943
República dos Galifões   Fundada em 1947
Real República Palácio da Loucura   Fundada em 1947
Real República do Bota-Abaixo   Fundada em 1949
República Ninho dos Matulões   Fundada em 1950
Real República do Prá-Kys-Tão   Fundada em 1951
Real República Spreit-Ó-Furo   Fundada em 1951
Real República Ay-Ó-Linda   Fundada em 1951
República dos Inkas   Fundada em 1954
Real República Boa-Bay-Ela   Fundada em 1956
Real República Rápo-Táxo   Fundada em 1956
Real República Corsários das Ilhas   Fundada em 1958
Solar dos Kapangas   Fundada em 1958
Real República Trunfé-Kopos   Fundada em 1960
República Kimbo dos Sobas   Fundada em 1963
República Farol das Ilhas   Fundada em 1962
Solar Residência dos Estudantes Açoreanos   Fundada em 1962
República 5 de Outubro   Fundada em 1967
República dos Fantasmas   Fundada em 1969
República Rosa Luxemburgo   Fundada em 1972
Solar do 44   Fundada em 1983
República da Praça   Fundada em 1989
Solar Marias do Loureiro   Fundada em 1993