quinta-feira, 31 de janeiro de 2019


O Laboratório Químico e as invasões francesas




As invasões francesas foram um factor de grande instabilidade no funcionamento da instituição universitária. Alguns professores da Faculdade de Filosofia prestaram relevantes serviços para a defesa contra os franceses. Em 1808 vários estudantes da Academia de Coimbra alistaram‑se num batalhão que, sob o comando de Tristão Álvares da Costa, major de engenharia e lente de Cálculo, combateu os franceses. Por sua vez, os lentes formaram outra secção, capitaneada por Fernando Fragoso de Vasconcellos, primeiro lente da Faculdade de Cânones. O próprio Vice‑Reitor, Manuel de Aragão Trigoso, tinha sido chamado para ocupar o cargo de Governador-Geral da cidade. No ano lectivo de 1810/1811 a Universidade permaneceu encerrada. Neste período o Laboratório Químico desempenhou um papel fundamental na resistência contra a ocupação francesa. Foi transformado numa verdadeira fábrica de munições de guerra. O seu director, o químico Thomé Rodrigues Sobral, teve um desempenho notável na luta contra os invasores. Sob a sua orientação fabricou‑se uma grande quantidade de pólvora. Ainda hoje existe na Universidade de Coimbra o grande almofariz em pedra utilizado nesta tarefa. Este professor não só dirigia e organizava todo o grupo de trabalho no Laboratório Químico, como preparava com as suas próprias mãos as munições de guerra. Foi neste período que todo o arsenal armazenado no edifício do Laboratório Químico esteve na eminência de explodir. Ao deflagrar um incêndio, com o edifício repleto de barris de pólvora, valeu a serenidade de Rodrigues Sobral, que conseguiu evitar a catástrofe utilizando água de uma cisterna próxima. Em consequência do seu empenhamento na resistência, Sobral viu a sua casa destruída por um incêndio ateado pelos franceses. Neste incêndio ficaram irremediavelmente perdidos os seus preciosos manuscritos, bem como a excelente biblioteca que possuía, reunida ao longo de trinta anos. Entre os manuscritos destruídos perdeu‑se o Compêndio de Química que se preparava para publicar. Quando o exército francês chegou a Coimbra, uma das primeiras preocupações dos comandos militares foi o de saberem onde ficava a casa do mestre da pólvora, nome dado ao professor de Química pelos invasores. O resultado foi o bárbaro incêndio da sua casa na Quinta da Cheira. Mais tarde, reconhecendo o seu elevado empenho na defesa nacional, o governo português, por aviso régio de 1816, mandou reedificar as suas casas.

No Laboratório Químico também foram desenvolvidas acções muito úteis no domínio da saúde pública. Em Agosto de 1809 verificou-se aí intensa actividade para que fosse debelado o surto de peste que então ocorreu. Para o efeito assumiu particular importância a acção de Rodrigues Sobral. Com o objectivo de purificar a atmosfera, erradicando a epidemia, foram fabricados no Laboratório desinfectadores de cloro e ácido muriático oxigenado, que eram distribuídos gratuitamente por casas particulares, hospitais, cadeias e até pelas ruas. Em Outubro de 1813 foi publicado no Jornal de Coimbra um relatório pormenorizado de toda esta actividade.

Outro professor de Química que se distinguiu pelos seus estudos da composição da água foi Manoel José Barjona, na época em que também os britânicos James Watt e Henry Cavendish realizavam as suas primeiras experiências neste domínio. Foi durante as experiências de síntese da água, realizadas no Laboratório Químico, juntamente com Rodrigues Sobral, que Barjona foi vítima de uma violenta explosão do gasómetro, tendo ficado cego de um olho. Contribuindo para desenvolver o ensino das ciências, Barjona foi sempre um activo membro das Congregações da Faculdade. Em 1823 submeteu à aprovação do Conselho da Faculdade as suas Tábuas Mineralógicas, que viria a ter uma segunda edição em 1835. Já havia publicado em 1798 um compêndio intitulado Metallurgica Elementa(Elementos de Metalurgia).

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

UMA UNIVERSIDADE QUE MORA EM APOSENTOS REAIS 


                       
                                                                                             Foto de Vitor Murta

Com pouca e episódica concorrência, a Universidade de Coimbra teve, até às vésperas da Primeira Guerra Mundial, o exclusivo do ensino universitário no país

A história da Universidade de Coimbra (UC) confunde-se não apenas com a da cidade onde foi instalada em 1308 por D. Dinis, e à qual regressou definitivamente com D. João III, mas com a própria História de Portugal. E não apenas por motivos simbólicos, como o de ocupar um edifício, o Paço das Escolas, que viu nascer boa parte dos monarcas portugueses da primeira dinastia, mas porque formou, durante séculos, as elites que foram governando o país.

Não surpreende, portanto, que os momentos de viragem na história da Universidade de Coimbra correspondam, grosso modo, aos períodos de transformação da sociedade portuguesa, da revolução renascentista às décadas de domínio filipino, da reforma pombalina às lutas liberais, da implantação da República à ditadura do Estado Novo e ao atual regime democrático. Já na sua relação com a cidade de Coimbra, talvez o testemunho mais imediato e impressionante da relevância da Universidade seja o da quantidade de edifícios emblemáticos cuja história se cruza, de modo mais ou menos direto, com a da própria instituição, a começar, claro, pelo Paço das Escolas, que, antes de o ser, foi o Paço Real, e ainda antes disso fora uma fortaleza, a alcáçova islâmica de Coimbra, restaurada após a reconquista pelo alvazir moçárabe Sesnando. Esta circunstância de habitar um palácio real é uma das suas maiores singularidades, como é o facto de ter sido, durante largos períodos, a única universidade do país, com o exclusivo de formar especialistas em disciplinas tão cruciais para a governação como o Direito Civil.

A candidatura da universidade a património mundial inventaria nada menos do que 31 edifícios, 21 na Alta Universitária e mais uma dezena na zona da Rua da Sofia, na Baixa, aqui incluindo o Mosteiro de Santa Cruz e os vários colégios crúzios que, na primeira metade do século XVI, constituíram uma espécie de pioneiro campus universitário. Estendendo-se hoje por vários pólos e acolhendo, nas oito faculdades, cerca de 20 mil estudantes, a UC integra o Grupo de Coimbra, ao qual deu o nome, uma associação das mais antigas e prestigiadas universidades europeias, algumas delas de fundação ainda mais recuada do que a portuguesa, como as de Bolonha, Paris, Oxford, Cambridge ou Salamanca.

Entre Lisboa e Coimbra

O nascimento da universidade portuguesa costuma datar-se de 1 de Março de 1290, quando D. Dinis assina o documento Scientiae thesaurus mirabilis (conhecido como "documento precioso"), que cria o Estudo Geral, depois confirmado, em Agosto, pela bula De statu regni Portugaliae, do Papa Nicolau IV, que habilita a nova instituição a conceder graus em Artes, Direito Canónico, Leis e Medicina. Já em Novembro de 1288, um conjunto de altas figuras do clero (incluindo o prior do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra) pedira autorização ao Papa para que parte das rendas de vários mosteiros servisse para financiar um Estudo Geral em Lisboa, sugestão que, faziam saber os signatários, fora anteriormente endereçada a D. Dinis, que a acolhera benignamente.

Mas, seja qual for a data em que queiramos iniciar esta história documental da criação da universidade portuguesa, convém reter que só a posteriori ela diz respeito à Universidade de Coimbra. Até 1537, quando D. João III a instala definitivamente em Coimbra, a universidade estivera radicada bastante mais anos em Lisboa do que junto ao Mondego. Nasceu em 1290 na zona do atual Largo do Carmo, em Lisboa, e só foi transferida para Coimbra em 1308, ainda no reinado de D. Dinis, que lhe oferece um edifício contíguo ao Paço Real, sensivelmente onde hoje se ergue a Biblioteca Geral da UC. Sabe-se pouco desta primeira universidade coimbrã, que teria apenas seis docentes e meia centena de alunos, e que durou trinta anos, até ser de novo transferida para Lisboa em 1338, agora por D. Afonso IV. O rei queria passar mais tempo em Coimbra - devem-se-lhe obras de monta no Paço Real - e precisava que os estudantes desocupassem as casas adjacentes ao palácio para nelas instalar os seus oficiais. Em 1354, a universidade estava de novo em Coimbra, mas de novo por pouco tempo. D. Fernando volta a mudá-la para Lisboa em 1377, e desta vez ali ficará por 160 anos, até D. João III, em 1537, a fixar definitivamente em Coimbra. Se descontarmos a universidade jesuítica que existiu em Évora entre os séculos XVI e XVIII, a UC foi, desde então e até ao início do século XX, a única universidade do país.


                                   

De D. João III a Salazar


A história moderna da UC começa, pois, no reinado de D. João III, num tempo de afirmação do Renascimento português. O monarca distribui os estudos universitários pelo Mosteiro de Santa Cruz e respetivos colégios - confiando-lhe o ensino das Artes, das Humanidades, da Teologia e, mais tarde, também da Medicina - e pelo Estudo Geral, responsável pelas faculdades de Leis e Cânones (Direito Civil e Canónico) e pelas disciplinas de Matemática, Retórica e Música. Para os Estudos Gerais nomeou um reitor, Garcia de Almeida, cujo palácio ainda alojou durante algum tempo as diversas faculdades, até que o monarca as decidiu concentrar no próprio Paço Real. Numa simbólica confirmação da estratégia de recuperar a universidade para a Coroa, esta ia assim ocupar a casa que não apenas vira nascer e morrer os reis da dinastia de Borgonha, como fora cenário das cortes de 1385, onde o talento argumentativo de João das Regras tinha levado à aclamação de D. João I, fundador da dinastia de Avis.

Em 1597, a UC, que até aí pagava renda pela utilização do Paço, comprou o edifício a Filipe II (I de Portugal) e rebaptizou-o Paço das Escolas.

A candidatura da UC a património mundial dá natural destaque a este edifício, verdadeiro coração da universidade, e que inclui, entre outros elementos, a Biblioteca Joanina, possivelmente o mais notável exemplar europeu de uma biblioteca universitária barroca, a Torre da Universidade, a Porta Férrea, a Via Latina, a Escadaria de Minerva ou a capela manuelina de S. Miguel.

Depois da construção dos colégios ligados ao Mosteiro de Santa Cruz, da criação do Colégio das Artes e de outras intervenções lançadas no tempo de D. João III, a grande transformação que se segue, quer ao nível do ensino, quer no que respeita à configuração física da UC, ocorre com a reforma pombalina do século XVIII. A UC é então divida em seis faculdades - Direito Civil, Direito Canónico, Medicina, Matemática, Teologia e Filosofia - e criam-se novos equipamentos, como o Laboratório Químico, o Gabinete de Física Experimental, a Imprensa da Universidade ou o Jardim Botânico. Pombal acaba ainda com a Universidade de Évora, gerida pelos jesuítas.

Após a revolução liberal, são inauguradas em Lisboa e no Porto escolas politécnicas, médico-cirúrgicas e de Farmácia, mas Coimbra só perderá realmente o exclusivo universitário já em plena República, com a criação, em 1911, das universidades de Lisboa e do Porto.

A última grande transformação que as instalações da UC sofreram coincidiu com o Estado Novo, quando foi criada uma nova cidade universitária na Alta, projetada pelo arquitecto Cottinelli Telmo. O primeiro e mais emblemático momento dessa nova arquitectura que o regime Salazarista impôs à UC - e que esta candidatura a património mundial não esquece - é o edifício da Faculdade de Letras, concluído em 1951. Ao longo dos anos 50 e 60, foram construídos vários outros edifícios, como o da Biblioteca Geral, o da Faculdade de Medicina ou o da Secção de Matemática, cuja inauguração se tornaria célebre por ter servido de cenário ao primeiro momento do que veio a ser a crise académica de 1969.

Artigo de Luís Miguel Queirós
(https://www.publico.pt/autor/luis-miguel-queiros)
Jornal Público 


                                                                                               

terça-feira, 22 de janeiro de 2019


     REAL CAPELA DE S. MIGUEL

O edifício da Capela de S. Miguel foi construído provavelmente no século XII e era usado como oratório privativo do antigo Paço Real. A estrutura atual foi o resultado de trabalhos e reforma do Paço Real, dirigidos durante o século XVI por ordem de D. Manuel .

A estrutura arquitetónica de estilo manuelino é visível no portal exterior, nos janelões e no arco cruzeiro.

A decoração interior foi realizada nos séculos XVII e XVIII, transformando este espaço num ambiente sumptuoso e com harmonia, onde se destacam os tetos, o revestimento azulejar, o altar-mor, o Sacrário e o Órgão.

No teto do altar está representada a Divina Sapiência, figura mítica que representa a sabedoria. Destacam-se ainda os emblemas das Faculdades maiores, segundo a antiga organização universitária: Teologia, Cânones, Direito Civil e Medicina.

O grande retábulo, que reveste o altar-mor, data do séc. XVIII e é ornamentado de talha dourada com um grande trono central. Do seu lado esquerdo está representado São Miguel, protetor de D. Afonso Henriques.

Também à esquerda do altar apresenta-se o altar a Nossa Senhora da Luz, padroeira da comunidade, e também, S. José e Sto. Agostinho; do lado direito está o altar de Santa Catarina e os jesuítas Inácio de Loyola e Francisco de Borja; ao lado, encontra-se a Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Universidade.

Os azulejos tipo “tapete”, aplicados no séc. XVII e que revestem grande parte da capela, remetem para o estilo decorativo persa e no teto da nave central encontra-se o brasão real.

Sobressai no conjunto da Capela o Órgão barroco, que data de 1733-1737, decorado com motivos orientais (figuras asiáticas vestidas ao estilo europeu), com mais de 2.000 tubos. Atualmente, ainda é utilizado em missas solenes e noutras ocasiões religiosas.

Por cima do Coro, destinado ao grupo musical de académicos que participam nas celebrações dominicais, está a tribuna real, espaço onde a família real assistia às cerimónias com uma vista privilegiada sobre a Capela.


NOTA
A Capela de S. Miguel continua a ser usada regularmente para o culto – todos os domingos é celebrada missa. É, actualmente, uma das duas únicas capelas reais existentes em Portugal.

É possível a sua utilização para a realização de casamentos e outras cerimónias restritas a membros da comunidade universitária.


OS 4 NÚCLEOS DE COIMBRA PATRIMÓNIO MUNDIAL 


A área património mundial divide-se em quatro grandes núcleos arquitetónicos e históricos que correspondem aos momentos de criação, desenvolvimentos, reestruturação e consolidação da Universidade de Coimbra:

- Colégios da Rua da Sofia, onde a história da Universidade começou

- Pátio das Escolas, o coração da Universidade de Coimbra, com sedimentos moçárabe, memórias da 1ª dinastia portuguesa e uma das bibliotecas mais belas do mundo

- Edifícios da reforma pombalina, marcas da revolução do conhecimento no século XVIII

- Complexo do Estado Novo, face da mudança da Alta de Coimbra

                                                                                 Foto de Gonçalo Saraiva 

Núcleo 1
Foi na Baixa da cidade, na Rua da Sofia. Sofia, claro, de Sabedoria que a história da Universidade de Coimbra se erigiu a partir da transferência definitiva para Coimbra em 1537.

Uma rua que rasgou o medievalismo urbano para se tornar num eixo absolutamente moderno para a sua época. Ao todo, 27 colégios deram vida a esta artéria. Sete deles mantêm-se como testemunhos atuais da história da Universidade.

Esta sábia rua começa na Igreja de Santa Cruz, Panteão Nacional, onde D. Afonso Henriques e D. Sancho I estão sepultados. Aí está também o Café Santa Cruz, café histórico sem paralelo, carismático onde os Crúzios, deliciosos pastéis conventuais, foram reinventados.


                                                                                           Foto de Paulo Almeida

Núcleo 2
No Pátio das Escolas, procuramos descobrir como este local passou de Paço Real, território do poder, a território desse outro poder que é o conhecimento.

Basta passar a porta férrea para um salto no tempo e seguir viagem pelas grandes e pequenas histórias: a da Sala dos Atos – agora também chamada Sala dos Capelos – onde se decidiu a solução para a crise de 1383-85, ou a do pequeno azulejo da Faculdade de Direito onde uma raposa é pontapeada por estudantes que tentam afastar o chumbo nos exames.

Aqui, neste Pátio antigo sobrepõem-se camadas de história – os vestígios romanos e a alcáçova moura, sobre os quais se ergue o edifício onde nasceram quase todos os reis portugueses da primeira dinastia.
Exibe-se também neste pátio a ostentação de riqueza e sabedoria que é a Biblioteca Joanina, considerada por várias publicações internacionais como a mais bela biblioteca universitária do mundo. Paremos aqui por um instante: a Biblioteca é um concentrado de mundo: pintado nos tetos onde se veem os continentes, com as chinoiseries que mostram nas estantes cenas da vida a Oriente, nas madeiras e ouro do Brasil, mas sobretudo nos milhares de volumes, mais de 53 mil, que contam a história do conhecimento nos vários domínios científicos. E que, pasme-se, podem ser consultados. Incluindo um exemplar da 1ª edição d’”Os Lusíadas” e uma preciosa Bíblia hebraica de 1104.


                                                    Foto de Paulo Almeida da exposição FRAGMENTOS

Núcleo 3
Da porta férrea em direção à Rua Larga encontramos evidências físicas da Reforma Pombalina. Mas permanece na Universidade muito mais do que os edifícios facilmente identificáveis pela robustez arquitetónica do século XVIII. Ficam os instrumentos, os livros, as marcas do Iluminismo, a criação de novos cursos, o abandono do ensino escolástico, a vitória da experimentação. Por ali se pode visitar o mais impressionante Gabinete de Física do mundo, que faz parte do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, vencedor de vários prémios internacionais.

Outra obra emblemática do tempo do Marquês de Pombal é o Jardim Botânico com a sua Avenida das Tílias, com as magnólias que explodem em flor em Fevereiro, com a mata tecida de espécies trazidas das várias partes do mundo onde se falava português e não só. 


                                                                                              Foto de Bruno Lisita

Núcleo 4
Resultado de uma grande reforma, que teve lugar nos anos 40 a 60 do século XX e mudou a face da Universidade através de uma operação de total reorganização urbanística da zona, o núcleo do Estado Novo marca a contemporaneidade do Polo I da Universidade de Coimbra.

A Alta, em tempos feita de ruas sinuosas, sofreu uma destruição parcial para dar lugar a um campus universitário modernista. Para a sua concepção, construção e decoração foram chamados os melhores da época: Cottinelli Telmo, Cristino da Silva, Abel Manta, Almada Negreiros.
Aqui se concentrou a Universidade antes de um outro movimento de expansão urbanística para outras zonas da cidade.

A partir desta Universidade, que durante séculos foi a única no mundo português, estudava-se o mundo, por aqui passavam as elites do mundo que fala português, muitos dos que contribuíram para a afirmação da língua: Antero de Quental, Camilo Pessanha, Eugénio de Castro, José Afonso, Eça de Queirós, Alexandre Herculano, Antero de Quental, Manuel Alegre e até o recentemente galardoado Nuno Camarneiro.
Foto de Vitor Murta da exposição A POSTCARD FROM COIMBRA 2018



SALA GRANDE DOS ATOS ou SALA DOS CAPELOS

Este espaço foi antiga Sala do Trono (no atual Paço das Escolas moraram, entre 1143-1383, a maioria dos reis da 1ª dinastia portuguesa) e aqui decorreram episódios importantes da História de Portugal, como a aclamação do rei D. João I em 1385. Com a instalação da universidade no Paço, a Sala dos Capelos tornou-se a principal sala da Universidade de Coimbra, pois é aqui que se realizam as cerimónias mais importantes da vida académica.

A configuração atual desta sala data da renovação realizada em meados do século XVII. As paredes desta sala foram revestidas de azulejos tipo tapete, fabricados em Lisboa, e o teto, de madeira, renovado com 172 painéis que apresentam motivos grotescos (representando monstros marinhos, índios, sereias, plantas).

Nas paredes podem observar-se os retratos de todos os reis portugueses - desde D. Afonso Henriques até D. Manuel II – com a exceção da dinastia Filipina (no período entre 1580 e 1640 Portugal esteve sob domínio espanhol).

À volta da sala encontram-se os bancos doutorais, onde se sentam os Doutores durante as cerimónias académicas. Ao meio e a dominar a sala, está a cadeira reitoral onde o Magnífico Reitor (ou, na sua ausência, um outro Doutor designado) preside aos atos solenes. Os convidados e restante público podem assistir às cerimónias no nível mais baixo da sala.

Originalmente, a prisão académica, instalada na universidade em 1593, funcionou no piso por baixo desta sala (que no final do século XVIII foi transferida para o piso inferior do edifício da Biblioteca Joanina).

Durante uma revolta estudantil no contexto da implantação da República, em 1910, a Sala dos Capelos foi vandalizada: destruída a cátedra e baleados os retratos dos reis D. Carlos e de D. Manuel II, sendo ainda visíveis as marcas das balas.


A PORTA FÉRREA


A entrada, nos Paços Reais de Coimbra, era bem diferente do que hoje vemos. E, certamente por não se coadunar com o edifício: «No Conselho de 13 de Janeiro de 1595 se assentou que por estar indecente a porta primeira do Terreiro da Universidade se mandasse fazer hum portal novo e humas portas novas, como convem a tal lugar.»

Sôbre a porta de entrada do terreiro dos paços, no tempo de D. João III, deve ter havido um relógio, como prescreve a carta de 19 de dezembro de 1539. (Prof Mário Brandão, Documentos, etc, vol I, pág 230).

A obra de engrandecimento dos edifícios da Universidade não é de hoje nem de ontem. Já em 20 de Maio de 1557 D. João III determinava que não se aforassem nem se dessem os chãos em torno aos paços reais de Coimbra e que neles se construissem edificios. Essa visão da cidade universitária, durante muito tempo em pensamento parece que vai entrar em intensa atividade. Uma comissão executiva está em exercício sob a presidência do Vice-Reitor Prof. Doutor Maximino Correia.

Analisando a Porta Férrea notamos as suas colunas de ordem coríntia. êste portal tem duas fases iguais, desde o século XVII, época em que foi construído, substituindo uma antiga porta do Paço medieval, entre cubêlos, sita no Mesmo lugar. «Os cubelos fortificados que a flanqueavam» foram demolidos (Prof. Doutor Vergílio Ferreira, Diário de Coimbra, 6 de dezembro de 1932).
Então, a parede, em que assentava o portal, era baixa, pois desterminava-se no contrato assinado em 1933 que devia subir a igualar com o telhado da capela do Colégio de S. Pedro (Prof. Doutor Vergílio Correia, Obras antigas da universidade, pág 26).
O desenho e traça para as obras dos arcos e portas da Universidade devem-se ao arquiteto António Tavares (pagou-se em 24 de dezembro de 1963, a importância de 8000$00, Obras Antigas da Universidade, pág 31 e 32 do Prof Doutor Vergílio Correia), e a construção ao mesmo mestre empreiteiro Isidro Manuel, em 1634 (data inscrita no pórtico, bem como na grade do portão se lê a de 1640), no reitorado de D. Alvaro da Costa.
Neste portal duplo com colunas «estriadas, assentes em bases de vistoso lavor» vêem-se, em seus nichos, figuras simbólicas do escultor Manuel de Sousa; essas estátuas com insígnias e devisas alusivas às 4 Faculdades maiores da época:
Medicina e Leis no portal com frente para a Rua Larga (antigamente Rua Infante) com as suas insígnias, respectivamente, na primeira, colar ao pescoço, livros na mão esquerda; e, na segunda, espada na mão direita, balança e livros na mão esquerda.
Teologia e Cânones na fachada interior, voltada para o terreiro, respetivamente Cruz e Bíblia (Sagrada Escritura- Evangelhos) na mão esquerda; e, na segunda estátua, teara e chaves na mão esquerda.
Nos nichos do entablamento encontram-se, também estátuas, com coroas, de dois reis portugueses, exterior D. Dinis, fundador dos Estudos Gerais, e do outro, a de D. João ÎII, reformador da Universidade.
(...)
A Porta Férrea está coroada nas duas fachadas por emblemas da Sapiência. Cada uma dessas sabedorias é representada por uma figura feminina, com coronel na cabeça, vestida de túnicas, tendo como atributos: aos pés, o mocho (ave vigilante durante o silêncio da noite, avisando, com o seu pio plangente, de qualquer facto anormal- é pois simbolo de estudo, das vigílias, da meditação) e a joeira ou crivo (utensílio que separa o trigo do joio; simbolo da crítica seleccionada, isto é, separa o verdadeiro do falso); na mão esquerda encontra-se o cetro da soberania, rematado pela esfera armilar (instrumento de estudo, simbólico das chamadas ciências nobres- muito da simpatia de D. Manuel, o rei Venturoso); e na dextra um livro aberto. Ainda nos pés se encontravam livros representando as ciências humanas.
(...)
A Porta Férrea, segundo o Prof. Vergílio Correia, é uma composição interessantíssima de arquitectura civil, de tradição renascentista e a passagem abobadada- o arquo de abobada lavrada e brincada- em pedra de Ançâ, que fica entre esta porta dupla, bem pode considerar-se um verdadeiro arco do triunfo.

De Universidade de Coimbra, Edifícios de Corpo Central e Casa dos Melos, de José Ramos Bandeira, 1943


                                                                                   Foto de Vitor Murta