sexta-feira, 24 de maio de 2019



Gabinete de Física 



O gabinete da física experimental foi mandado construir por D. José I “para depósito de Machinas e Instrumentos, os quaes são necessários para que as liçoens da Fysica que se dão no curso Filosófico se façam com aproveitamento dos estudantes; os quaes não somente devem ver e executar as experiências com que se demonstram as verdades ate o prezente conhecidas nas fysica; mas também adquirir o habito de as fazer com a sagacidade, e destreza, que se requer nos Exploradores da natureza”. Assim refere o documento intitulado “A Relação Geral do estado da Universidade”, que fora preparado em 1777 por D. Francisco de Lemos para ser apresentado à Rainha D. Maria I. Para a localização do gabinete, o Marquês tinha destinado uma parte do “Collegio que fora dos Jezuitas”. 

Nas duas salas do Gabinete de Física podemos encontrar expostos os instrumentos que, durante os séculos XVIII e XIX, foram usados no ensino da Física Experimental. O Gabinete de Física foi equipado com seis centenas de máquinas. Cada uma delas tinha uma conceção que a tornava adequada a um dos capítulos do programa descrito no curso redigido por Dalla Bella. O Gabinete de Física de Coimbra mostra bem a profunda influência que as ideias e os instrumentos provenientes de outros lados da Europa tiveram em Portugal no século das luzes. 



Antes de 1772, ano da publicação dos “Estatutos Novos” da Universidade de Coimbra (considerados como a maior reforma no ensino universitário português), pode dizer-se que o ensino experimental era inexistente em Portugal. 

A tentativa de introdução, nesta instituição de ensino secundário, da Física Experimental não foi, no entanto, bem-sucedida. A fundação do Gabinete de Física Experimental na Universidade de Coimbra envolveu a transferência, em 1773, das “máquinas” de Lisboa para Coimbra. A aquisição, ao longo do tempo, de outros instrumentos científicos veio a dar origem à vasta coleção que hoje podemos visitar em duas salas, uma contendo os instrumentos do século XVIII, outra contendo os do século XIX. 

O cenário com que nos depararíamos se, no primeiro andar do Colégio de Jesus, tivéssemos uma máquina que nos permitisse viajar no tempo, recuando dois séculos, não seria muito diferente do que vemos hoje quando visitamos o Gabinete de Física. É nas salas que lhe foram destinadas no final do século XVIII, e no mobiliário original, que podemos encontrar instrumentos usados ao longo dos séculos XVIII e XIX para ensinar Física Experimental na Universidade de Coimbra. O primeiro laboratório de Física a funcionar no nosso país não corresponde, no entanto, à primeira tentativa de implementação desta ciência experimental em Portugal – esta ocorreu na década anterior, em Lisboa. Os rapazes que frequentavam o Colégio dos Nobres, instituição pré-universitária sediada na capital, foram os primeiros destinatários de parte destas máquinas. A sua falta de interesse e preparação para as lições de Física Experimental ditou o insucesso desta iniciativa e a consequente transferência da coleção para Coimbra. O acervo atual corresponde a esta “coleção fundadora” mais os instrumentos adquiridos ao longo das décadas seguintes.

O Colégio das Artes foi a “sala de espera” das máquinas chegadas a Coimbra numa manhã de 1773 – até poderem ser albergadas nas salas onde, segundo os estatutos de 1772, deveriam ser mantidas e as lições ministradas[1]. Nos estatutos encontramos uma menção à organização dos instrumentos: devem ser dispostos de forma a acompanhar a sequência dos temas abordados nas lições (esta sequência de objetos é conseguida pelas letras no topo dos armários; note-se a ausência das letras J e U). As máquinas pequenas, guardadas em armários, encontravam-se numa sala e, na outra, as máquinas grandes, que não cabiam em armários. Hoje encontramos os instrumentos do século XVIII numa e, na outra, os do século XIX.


Sala do Século XVIII

Giovanni Antonio Dalla Bella (1730-1823) foi diretor do Gabinete de Física desde a sua fundação até 1790. Este professor italiano havia já sido o responsável pelo fracassado gabinete do Colégio dos Nobres. A sala com o seu nome alberga os exemplares mais antigos da coleção, muitos deles provenientes do referido colégio. O mais antigo de todos não faz, porém, parte deste grupo, nem foi construído no século XVIII. Trata-se de um autómato em forma de centauro, contruído na Alemanha em 1595-1600 e adquirido em 1779 pela Universidade, como parte integrante da coleção particular de Domingos Vandelli (primeiro diretor do Laboratório Chimico e do Gabinete de História Natural).

Dada a sua “origem nobre”, podemos apreciar os detalhes estéticos/artísticos dos instrumentos que aqui se encontram (para além das luxuosas peças de mobiliário Chippendale). Exemplos disso são o conjunto para estudo da porosidade, com duas figuras femininas aladas em bronze dourado que, sendo o elemento visual proeminente deste conjunto, não têm qualquer função prática. Pode referir-se ainda o equilibrista (usado para demonstrar a importância da posição do centro de massa para o equilíbrio de um corpo), que representa uma figura masculina, trajada à época, repleta de detalhes que em nada contribuem para a demonstração pretendida.



Sala do Século XIX

A primeira sala do Gabinete de Física é nomeada em homenagem a José Homem de Figueiredo Freire (1786-1837), o seu terceiro diretor. Aqui, onde inicialmente se guardavam as máquinas grandes, podemos ver instrumentos do século XIX, ainda que alguns correspondam a invenções de séculos anteriores. É o caso das Garrafas de Leiden – os primeiros condensadores (instrumentos que permitem “armazenar” cargas elétricas) –, que têm o nome da cidade Holandesa onde foram inventados no século XVIII. Os hemisférios de Magdeburgo (cidade natal de Otto von Guericke, cientista alemão que, no século XVII, estabelece a Física do Vácuo) ou a bomba de incêndio de Nollet (físico experimental francês, séc. XVIII) são também exemplos disso.


Exemplos de tecnologia desenvolvida no século XIX são os telégrafos e o conjunto para daguerreotipia. Os primeiros são representados por dois modelos: o telégrafo de Morse e o (talvez) menos conhecido telégrafo de Breguet. Este, inventado em França, e posterior ao de Morse, pode ser encarado como um alargamento do acesso à utilização desta tecnologia: permite o uso da telegrafia elétrica sem a necessidade de aprender um novo código; apontando para uma letra no emissor, vemos o recetor fazer o mesmo movimento e assim passamos mensagens letra a letra. O conjunto para daguerreotipia (outra invenção francesa), adquirido em 1842, está exposto juntamente com a cópia de uma fotografia do Paço das Escolas, tirada usando este mesmo conjunto.

terça-feira, 21 de maio de 2019

A PRISÃO ACADÉMICA




As estruturas atualmente existentes reportam do que foi, até 1834, o cárcere académico (quando, por virtude da revolução liberal, se extingue a jurisdição do conservador da Universidade sobre professores, estudantes e familiares). Correspondem a três fases distintas, de utilização do espaço: a primeira ligada às estruturas originais do palácio régio e, as restantes, já da ocupação universitária.

Quanto ao cárcere académico propriamente dito, a sua existência decorre do foro privativo, que protegia as antigas universidades enquanto corporações, preservando professores, funcionários e (sobretudo) escolares do convívio com criminosos de delito comum. Não raro, as punições deviam-se sobretudo a razões de índole puramente disciplinar.

Reivindicada, por esse facto, pela Universidade junto do Rei desde 1541, a existência da cadeia seria finalmente reconhecida nos Estatutos de 1591, instalando-se, em 1593, em dois antigos aposentos existentes sob a Sala dos Capelos. Aí se conservaria até ao século XVIII. Só em 1773, no âmbito da reforma pombalina dos estudos e dos trabalhos gerais de dignificação do palácio escolar, a cadeia viria a ser transferida para os pisos inferiores da Biblioteca Joanina, em dependências construídas para essa função.

Durante a sua transferência foram realizadas obras de adaptação, levadas a cabo em 1782, por forma a acrescentar aos restos ainda existentes do cárcere medieval (fundamentalmente os segredos e o pequeno corredor adjacente) um reduzido número de celas comuns, sala de visitas, oratório, etc. Foram também tidas em consideração questões de conforto (construção de latrinas) e de segurança. Esta operação obrigaria a que o cárcere passasse a ocupar parte do piso intermédio.

Embora parte das suas dependências tenham sido adaptadas a depósito bibliográfico e muito do seu recheio e equipamento se tenha perdido, a Cadeia Académica constitui um raríssimo testemunho europeu de uma antiga cadeia privativa.