quinta-feira, 10 de maio de 2018


PRISÃO ACADÉMICA

A Universidade de Coimbra teve durante muito tempo o privilégio excepcional de se reger por legislação própria, chamado de Foro Académico, estando independente de Foro comum. As estruturas atualmente subsistentes do que foi, até 1834, o cárcere académico correspondem a três fases distintas de utilização do mesmo espaço: a primeira ligada às estruturas originais do palácio régio; as restantes no quadro já da ocupação universitária.

 Aquando do início da construção da biblioteca descobriram-se umas ruinas que teriam pertencido a uma antiga prisão. Desta forma decidiram não destruir essas ruinas, adaptando-as ao novo edifício. Desta antiga prisão medieval, ainda resta duas celas estreitas e uma escada em caracol. Assim sendo o cárcere académico de Coimbra guarda uma parte da única cadeia medieval que subsiste em Portugal.
Assim, este piso com o decorrer dos anos teve várias utilizações, servindo, também, de suporte às salas nobres, de depósito e de arrecadação.
                                                                                                    
Quanto ao cárcere académico propriamente dito, a sua existência decorre do foro particular (o foro académico) que protegia as antigas universidades enquanto corporações privilegiadas, preservando lentes, funcionários e (sobretudo) escolares do convívio com criminosos de delito comum, no ato de cumprirem detenções, impostas muitas vezes por razões de índole puramente disciplinar. Reivindicada, por esse facto, pela Universidade junto do Rei, pelo menos desde
1541, após a transferência definitiva para Coimbra, a existência da cadeia seria finalmente consagrada nos Estatutos de 1591, instalando-se em 1593 em dois antigos aposentos existentes sob a Sala dos Capelos. Aí se conservaria até ao século XVIII, a despeito da aquisição do edifício real, por parte da Escola, em 1597 e é só em 1773, no âmbito da reforma pombalina dos estudos e dos trabalhos gerais de dignificação do palácio escolar, que a cadeia se transfere para as subestruturas da Biblioteca, em dependências (parcialmente) nascidas com essa mesma função.
À transferência correspondem obras de adaptação, levadas a cabo em 1782, por forma a acrescentar aos restos subsistentes do cárcere medieval, um reduzido número de celas comuns, sala de visitas, oratório, entre outras, e a melhorar, mesmo que minimamente, a sua comodidade (com a construção de latrinas), bem como a respetiva segurança, operação que obrigaria o cárcere a ocupar parcialmente o piso superior.

Novas melhorias são ainda realizadas (ou apenas projetadas) em
1819, sob a direção de José do Couto, a curtos anos já da extinção do foro e, consequentemente, desse curioso organismo escolar. Posteriormente adaptadas as suas dependências a depósito bibliográfico e disperso, pela maior parte, o seu original equipamento e mobiliário, constitui, ainda assim, um raríssimo testemunho europeu de antiga cadeia privativa.










segunda-feira, 2 de abril de 2018

Segredos da luz e da matéria 

Foi em dezembro de 2006 que o Museu da Ciência abriu as portas ao público. Muito antes de 2015 ser proclamado Ano Internacional da Luz pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a Luz foi o tema encontrado para reunir numa mesma exposição objetos oriundos das diversas coleções científicas da Universidade de Coimbra (UC), de áreas tão diversas como Física, Química, Astronomia, Zoologia, Botânica, Mineralogia. Segredos da Luz e da Matéria fala-nos da luz e da visão, da cor e dos pigmentos, do Sol e da luz solar, da interação da luz com a matéria. Nela encontramos, em diálogo, borboletas de cores vivas, pássaros de plumagem exuberante, pigmentos minerais, um modelo do sistema solar construído por George Adams, um dos mais importantes construtores de instrumentos científicos do Séc. XVIII; um espectroscópio de 1863 semelhante ao que Bunsen e Kirshoff utilizaram ao descobrirem a composição do Sol em 1860; uma radiografia de uma mão que é a primeira experiência com Raios X em Portugal por Henrique Teixeira de Bastos, apenas um mês após o anúncio da descoberta por Röntgen em 5 de janeiro de 1896; algumas das milhares de imagens do Sol recolhidas desde 1926 pelo espectroheliógrafo instalado no Observatório Astronómico da UC por Francisco Costa Lobo; a esfera de madeira que este professor concebeu para a transformação das coordenadas nos cálculos dos fenómenos solares como as manchas solares. Trata-se de uma pequena mas valiosa amostra do espólio científico que a UC tem à sua guarda e cujos primeiros objetos datam do Século das Luzes.

A primeira coleção a chegar terá sido transferida do Colégio dos Nobres em Lisboa, um projeto criado com o objetivo de ensinar ciência a nobres que entretanto falhara. Os instrumentos que tinham sido concebidos com a delicadeza e o encanto adequados a utilizadores de sangue azul acabaram por ser transferidos para Coimbra, dando origem ao magnífico Gabinete de Física Experimental, criado durante a reforma pombalina do Séc. XVIII e nomeado Sítio Histórico Europeu pela Sociedade Europeia de Física em 2014. Também a coleção de Astronomia, associada à atividade científica do Observatório Astronómico fundado no Séc. XVIII e que incidia no estudo da Astronomia e da Matemática para a Geografia e para a navegação recebeu instrumentos vindos do Colégio dos Nobres.

Já o Gabinete de História Natural, iniciado com a incorporação das coleções privadas de Domenico Vandelli e de Rollen Van Deck, foi fortemente enriquecido com as remessas que ao longo de anos foram enviadas do Brasil pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, recolhidas no âmbito da sua Viagem Philosophica (1783-1792) à Amazónia. São muitas as personagens dos Séc. XVIII e XIX que se mostraram fundamentais para a construção e preservação deste tesouro científico e patrimonial. Mas foi preciso chegar ao Século XXI para que um convidado estrangeiro − Robert Bud, do Museu de Ciência de Londres − visitasse os Gabinetes Pombalinos de Coimbra e exclamasse: “Sinto que foi aqui que nasceu o Iluminismo!”, para que compreendêssemos que o Museu da Ciência da UC já tinha nascido no Séc. XVIII, na sequência de uma transformação radical das mentalidades em toda a Europa, abaladas que estavam pelo terrível terramoto de Lisboa e já preparadas para ouvir as palavras revolucionárias de Voltaire. Esta transformação viria a culminar com a revolução francesa poucos anos depois. Coimbra foi atacada e espoliada no início do Séc. XIX, mas, mesmo assim, a coleção continuou vasta e valiosa.

Boa parte da coleção do Século das Luzes conseguiu chegar intacta ao Séc. XXI. O Museu da Ciência é um projeto de grande fôlego da UC, que visa a preservação, a divulgação e o estudo deste valioso património do Iluminismo. Referências: [1] Paulo Gama Mota (coordenação). Museu da Ciência – Luz e Matéria. Catálogo de Exposição. Universidade de Coimbra. Coimbra, 2006. [2] Carlota Simões, Pedro Casaleiro e Paulo Gama Mota, O Museu da Ciência: uma coleção científica do Século das Luzes, História da Ciência na Universidade de Coimbra, 1772-1933, pp. 117-128, editores: Carlos Fiolhais, Carlota Simões e Décio Martins, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2013. 

CARLOTA SIMÕES * Professora Auxiliar do Departamento de Matemática e diretora do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra 

Revista Rua Larga, edição 44



Os 300 anos da Biblioteca Joanina 


A 17 de julho de 1717, pelas seis da tarde, na presença do reitor Nuno da Silva Telles (o segundo deste nome), foi colocada a primeira pedra da Casa da Livraria, a mesma que viria depois a ser conhecida por “Biblioteca Joanina”. Três meses antes, tinham já tido início os difíceis trabalhos de desaterro do local escolhido para implantar o edifício. Seguir-se-ia a construção de um telheiro no pátio da Universidade, para servir de apoio às diferentes fases da obra. Ao pátio haveriam de chegar os carros de bois carregados de pedra e de madeiras, quase todas recolhidas nos arredores de Coimbra. Tudo acontecia na sequência de um pedido do mesmo reitor dirigido ao rei, um ano antes, para que a Universidade fosse dotada de uma biblioteca adequada e digna. Depois de iniciada, a obra decorreu sem interrupções nem percalços de maior. De tal forma que, no início de 1728, o edifício era dado por concluído. A Universidade passava assim a dispor de uma biblioteca esplendorosa, que vinha substituir, com evidente vantagem, as diferentes casas que, em Lisboa e em Coimbra, tinham servido, sempre precariamente, para acomodar os livros usados por mestres e escolares. Ao longo de 300 anos, o edifício em causa viria a ser objeto de pequenas transformações exteriores e interiores que não lhe afetaram a traça nem a função. Em 1962, quando o edifício novo abriu ao público, a Biblioteca Joanina deixou de ser frequentada por leitores regulares. Só em ocasiões especiais se abriam as portas para receber visitantes ilustres como chefes de Estado ou personalidades do mundo da Ciência, das Artes ou da Cultura. Mais recentemente (há cerca de 25 anos), a Biblioteca viria a ser aberta aos turistas. Num primeiro momento, ficou apenas disponível o piso nobre; depois, os visitantes passaram a ter também acesso aos outros dois pisos: o intermédio e o térreo, o mesmo onde, por algum tempo, funcionou o cárcere académico. Hoje são em grande número as pessoas que procuram aquele espaço, integrado no circuito turístico da Universidade. Muitos são estrangeiros e, mesmo quando estão prevenidos para o que vão encontrar, não deixam de se surpreender quando transpõem a pequena porta que dá acesso ao piso principal. Não esperam, de todo, encontrar em Portugal uma celebração tão exaltante do livro e do conhecimento. Ficam particularmente surpreendidos quando lhes dizem que os volumes que se guardam naquele espaço (cerca de 60 mil, todos editados até ao ano de 1800) ainda hoje são objeto de procura regular. A Biblioteca Joanina é da Universidade que a reclamou e a construiu. Mas é também de Coimbra e do país inteiro. Na medida em que enaltece a curiosidade do ser humano, pode dizer-se que é de todos os que nela encontram motivo para fascínio e orgulho. Este ano vão assinalar-se os 300 anos da construção daquele que é um dos mais extraordinários edifícios jamais construí- dos em solo português. Na medida das suas possibilidades, a Biblioteca Geral da Universidade, que integra também o edifício da Joanina, tudo fará para chamar a atenção do país para a importância de que aquele espaço se reveste. Quase não é necessário insistir na beleza e no valor patrimonial daquela que já por várias vezes tem sido apontada por organismos nacionais e internacionais como a “Biblioteca mais bela do mundo”. A importância da velha Casa da Livraria, porém, não reside apenas no seu aparato. A observação atenta dos muitos sinais que nela se encontram patentes, desde as inscrições latinas até à decoração dos tetos, remete-nos para uma conceção de universidade assente numa soma transformada de saberes e não apenas numa adição inorgânica de faculdades. Acima de tudo, as mensagens da Joanina apontam para a importância insubstituível do Livro, enquanto veículo de conhecimento e instrumento central da emancipação humana. Estávamos então no tempo das Bibliotecas, e não admira que várias outras tenham surgido ao mesmo tempo por toda a Europa, ligadas ou não a universidades. Ainda assim, poucas são aquelas que assinalam uma mensagem tão forte e tão clara, fazendo, em simultâneo, a apologia da Beleza e da Razão. 


JOSÉ AUGUSTO CARDOSO BERNARDES , Diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra 

Revista Rua Larga, edição 48

Sala do Exame Privado

Antiga Câmara Real, a Sala do Exame Privado crê-se que é utilizada para o efeito pelo menos desde 1550. Este Exame era essencial para a obtenção do Grau de Doutor (licenciatura), e só foi abolido já na segunda metade do séc. XIX.

Sala onde se constituiu a partir de 1701 a Galeria dos Reitores, um conjunto de 85 retratos, dos quais 38 se encontram nesta sala (do séc. 16 ao séc. 18) e que se estendem hoje pelas Salas Amarela, Azul, do Senado e pela Reitoria. Aliás é desta altura também que data a renovação de D. Nuno da Silva Telles, que deu à sala a sua forma atual.

Foi também nesta sala que o primeiro reitor, D. Garcia de Almeida, se reuniu com os lentes das primeiras faculdades em 1537.


Sala das Armas

A Sala das Armas obtém o seu nome por ser o local onde se guardam as armas (alabardas) da Guarda Real Académica. Podemos observar as alabardas utilizadas pelos Archeiros, as Maças dos Bedéis de cada uma das faculdades e o ceptro do Guarda-Mor. Ainda hoje, as cerimónias oficiais são acompanhadas pelos Archeiros, que organizam uma “guarda de honra”.

Nesta sala destaca-se, ainda, um friso de azulejos do séc. XVIII, com motivos quotidianos de inspiração flamenga, e o teto do séc. XIX, que apresenta as armas portuguesas e também uma representação das ciências, talvez a Matemática e a Química, em cada um dos seus topos.

Contígua a esta sala está a sala Amarela, onde se reunia a Congregação da Faculdade de Medicina, uma sala reformada também durante o séc. XIX e local onde começa o desfile dos Lentes para a cerimónia de Abertura do Ano Letivo. Podem também observar-se os retratos dos Reitores do final do séc. XIX e início do séc. XX. Esta é a primeira de três salas, sendo as outras duas a Sala Azul – representativa das Ciências – e a Sala Vermelha, a atual Sala do Senado, onde os convidados ilustres da Universidade são recebidos pelo Magnífico Reitor e a sua equipa.


As Estantes Biblioteca 

1719 – 1723 Carpintaria - Gaspar Ferreira; 1923 – 1927 pintura - Manuel da Silva

As 72 estantes são dispostas em dois andares, de madeiras douradas e policromadas (de fundo verde e vermelho), cobrem as paredes das três salas da Casa da Livraria. Para além de entalhada apresenta incontáveis motivos vegetalistas (ramos, silveiras, flores). O acesso às estantes superiores é garantido por um varandim e para aceder às prateleiras mais altas, a estante tem duas escadas embutidas, nos frisos laterais das próprias estantes. 





Chinoiserie


Designadas por chinoiseries, pequenas pinturas decorativas feitas em folha de ouro do Brasil, por Manuel da Silva durante 40 meses, cobrem a quase totalidade das estantes, apresentam construções, fauna e flora orientais, ou personagens vestidos de acordo com o costume oriental, e comprovam as relações íntimas de Portugal com a Índia, China (nomeadamente Macau) e Japão. 




Edifícios do Estado Novo 

Face da mudança da Alta de Coimbra- resultou de uma grande reforma, que teve lugar nos anos 40 a 60 do século XX e mudou a face da Universidade através de uma operação de total reorganização urbanística da zona, o núcleo do Estado Novo marca a contemporaneidade do Polo I da Universidade de Coimbra.

A Alta, em tempos feita de ruas sinuosas, sofreu uma destruição parcial para dar lugar a um campus universitário modernista. Para a sua concepção, construção e decoração foram chamados os melhores da época: Cottinelli Telmo, Cristino da Silva, Abel Manta, Almada Negreiros.

Departamento de Matemática, Sala 17


A inauguração do edifício da secção de Matemática ocorreu a 17 de abril de 1969, data que assinala o arranque da crise académica de 1969, movimento público de contestação ao regime salazarista. Decorrendo os discursos da sessão inaugural das novas instalações, Alberto Martins, o presidente da Associação Académica de Coimbra, foi impedido de se manifestar publicamente, ação que levaria ao encerramento antecipado da cerimónia sob uma tremenda ovação de protestos por parte dos estudantes. 

Departamento de Matemática, Sala do Conselho Científico

Desta sala, destaca-se a tapeçaria, da autoria de Rogério Ribeiro, executada na Manufatura de Tapeçarias de Portalegre (1969). O tema é o «Progresso Técnico». Mostra uma arrojada representação cenográfica, inspirada no modelo do homem de Vitrúvio, num discurso plástico abstratizante e que provocou, à altura, alguma polémica. 

Departamento de Matemática, Átrio principal


O átrio de entrada foi decorado nas paredes laterais com dois frescos, um dedicado à “Matemática portuguesa ao serviço da epopeia nacional” e o outro à “Matemática desde os Caldeus e Egípcios até aos nossos dias”, da autoria de Almada Negreiros, segundo o programa iconográfico definido por José Bayolo Pacheco de Amorim. Inicialmente previstos para abarcar uma área de 50m2, e face à dificuldade do pintor em transpor todo o programa, foram ampliados para 70m2. Foram executado por alunos da Escola Brotero, sob as ordens do já idoso pintor. 

Praça D. Dinis

Esta praça é um dos elementos fundamentais da estrutura prevista no plano para a Cidade Universitária. Aqui se ergueu, outrora, o castelo da cidade, arrasado durante as obras promovidas pelo Marquês de Pombal, na década de 70 do século XVIII, para aí se erguer um moderno e ambicioso Observatório Astronómico. Esta construção iniciou-se mas acabou por ser abandonada e o Observatório erguido no topo sul do Paço das Escolas. Na fachada sul do seiscentista Colégio de São Jerónimo é possível ainda observar as marcas de um arco construído para reforçar a fachada da sua igreja, gravemente afetada pelo terramoto de 1755, e que ligava ao castelo e, mais tarde, ao Observatório aí edificado. O arco foi destruído durante as campanhas de construção da Cidade Universitária. Durante as escavações arqueológicas realizadas em 2008 – estudos de arqueologia preventiva para o projeto de parque de estacionamento subterrâneo – foi (re)encontrado o embasamento da torre de menagem do castelo, localizado sensivelmente debaixo da estátua de D. Dinis. 

Faculdade de Medicina

À imagem dos restantes edifícios erguidos na Cidade Universitária, a Faculdade de Medicina integra várias manifestações artísticas. Nos dois portais da fachada principal (sul) do edifício, virada para a Rua Larga, destacam-se os doze bustos de Euclides Vaz representando algumas das personalidades que mais contribuíram para o desenvolvimento da Medicina e da assistência médica portuguesas: D. Mendo Dias, Pedro Hispano, D. Dinis, D. Leonor, Garcia da Orta e D. João III, no da esquerda, Amado Lusitano, S. João de Deus, o Marquês de Pombal, José Correia Picanço, António Augusto da Costa Simões e António Sena, no da direita. Os diversos portões foram igualmente ornamentados com pequenos bronzes alusivos à história da própria faculdade, executados por Vasco Pereira da Conceição, segundo o desenho original de Feliciano Augusto da Cunha Guimarães. No cunhal do lado poente ergue-se o grupo escultórico da autoria de Leopoldo de Almeida, assente em 1956, com a representação da figura alegórica da Medicina, ladeada por Hipócrates e Galeno. Já no interior, encontra-se no átrio poente o baixo-relevo de Vasco Pereira da Conceição alusivo ao tratamento dos doentes, enquanto no nascente se pode ver o fresco de Portela Júnior dedicado à história da Medicina, e onde figuram algumas das principais personalidades de Coimbra. 

Faculdade de Letras, Sala dos Conselhos

A tapeçaria da Sala do Conselho é da autoria de Guilherme Camarinha (1955) e foi executada na Manufatura de Tapeçarias de Portalegre.

Faculdade de Letras, Teatro Paulo Quintela

Integrado no edifício da Faculdade de Letras, o teatro constitui um volume construído que ocupa parcialmente o pátio interior. A sala tem capacidade aproximada de 260 lugares. Paulo Quintela foi o primeiro director do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), tendo assumido essa função durante 30 anos. 

Autores dos projetos de arquitetura e data de início da construção


– Arquivo da Universidade: Alberto José Pessoa, 1943
– Faculdade de Letras: Alberto José Pessoa , 1945
– Faculdade de Medicina: Lucínio Guia da Cruz, 1951
– Associação Académica de Coimbra: Alberto José Pessoa e João Abel Manta, 1954
– Biblioteca Geral: Alberto José Pessoa, 1956
– Departamento de Matemática: Lucínio Guia da Cruz, 1964
– Departamentos de Química e Física: Lucínio Guia da Cruz, 1966




O Jardim Botânico da Universidade de Coimbra



Visitar um jardim botânico é como viajar pelo planeta sem sair da cidade. As coleções de plantas que preenchem cada espaço transportam-nos para diferentes latitudes e regiões do mundo, transformando o Jardim num verdadeiro museu vivo.

O Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, localizado no coração da cidade de Coimbra desde 1772, por iniciativa do Marquês de Pombal, estende-se por mais de 13 ha em terrenos que na sua maior parte foram doados pelos frades Beneditinos.

Os jardins botânicos surgem na Europa como consequência da expansão europeia do século XV. O contacto com plantas e animais exóticos despertou o interesse pelo seu estudo. Exemplo disso foi o português Garcia da Orta que no séc.XVI viajou para a Índia e se dedicou ao estudo das propriedades terapêuticas das plantas, publicando dois importantes ensaios.

O século XVIII é marcado por uma revolução de mentalidades e por grandes avanços na ciência, nomeadamente no campo da Medicina. Assim, o Jardim Botânico de Coimbra foi criado com o objetivo de complementar o estudo da História Natural e da Medicina. Tendo tido como primeiro responsável Domingos Vandelli destaca-se, a partir de 1791, o papel desempenhado pelo naturalista e botânico Avelar Brotero com várias publicações científicas, entre as quais a primeira Flora Lusitana (1804). Este investigador português deu início à primeira escola prática de Botânica.

A publicação do Index Seminum (catálogo de sementes) desde 1868 e até hoje anualmente atualizado, incluiu variedades exóticas e portuguesas muito diversificadas. Atualmente, o Index Seminum está suspenso para reformulação e ativação de um banco de sementes e germoplasma. Estas novas valências permitir-nos-ão continuar a salvaguardar espécies que se encontram em risco de extinção no seu habitat natural. O jardim cumpre assim a suas funções no âmbito da conservação da natureza.

in https://www.uc.pt/jardimbotanico/O_Jardim_Botanico_da_UC



Perspetiva histórica da República de Coimbra


Artur Ribeiro *


A “República de Coimbra” é, talvez, a mais antiga e genuína das instituições universitárias portuguesas, reportando-se as suas raízes à época medieval e ao ato de estabelecimento de “Estudo Geral” em Coimbra.

Do diploma régio de 15 de Fevereiro de 1309, inspirado na “Charta Magna Privilegiorum” que consagra os vastos privilégios e regalias concedidos aos escolares, ressalta a sentida preocupação de D. Dinis em prover ao alojamento e ao abastecimento em víveres dos estudantes e mestres da Universidade. Em Coimbra, como em grande parte dos centros universitários da Europa Medieval, à escassez de casas para arrendar acrescia a relutância dos proprietários em arrendá-las aos estudantes por uma “renda justa”.

A solicitude dos monarcas para obviar a tais carências está bem patente nos muitos diplomas e cartas régios que ao assunto se referem. O próprio D. Dinis, por diploma de 1309, promove a construção de casas na zona de Almedina destinadas a serem arrendadas a estudantes e, de igual modo, incentiva os proprietários de casas a arrendá-las e a reconstruírem ou repararem as que estão ruinosas, com o mesmo fim.

Ora, face a tal insuficiência de alojamento e, também, face à proverbial magra bolsa do estudante, mandam a lógica e a razão, admitir que tais casas, uma vez dadas de renda, seriam partilhadas, todas e cada uma, por vários escolares. Por outro lado, se, de acordo com o estabelecido pelos diplomas régios, os estudantes tinham acesso privilegiado à aquisição de mantimentos — carne, pescado, pão e outros bens de primeira necessidade — acreditamos que aproveitariam bem tais privilégios. E, se partilhavam uma mesma morada com outros condiscípulos, mais fácil e menos oneroso seria partilharem também as refeições confecionadas com os mantimentos adquiridos individual ou coletivamente.

Se tais aspetos de ordem económica são fundamentais na génese incipiente destas pequenas células comunitárias de estudantes, não o serão menos os aspetos de ordem psicológica, cultural, social e moral. Desenraizados do ambiente familiar e do seu meio social de origem, os escolares de Coimbra pensariam na melhor fórmula para minorar tais inconvenientes e, de acordo com a lógica, terão aderido de forma espontânea ao viver comunitário, compensatório a todos os níveis. A vida em comum atenua a situação de desenraizamento, torna-se mais agradável pelo convívio que possibilita, cria laços de solidariedade e interdependência que conduzem à defesa de direitos e da integridade física e moral, contra intrusões externas e adversas e, ainda, permite a troca de conhecimentos e experiências entre os membros da comunidade. É esta a nossa perspetiva acerca da génese das “Repúblicas”. E, se é verdade que o apelativo “República” é recente, remontando aos primórdios do Século XIX, não é menos verdade que esta singular maneira de viver comunitária, com toda a evolução de séculos, chegou, desde o tempo do primitivo “Estudo Geral”, aos nossos dias.


Quando D. João III assumiu o propósito de estabelecer definitivamente a Universidade em Coimbra, tomou, também ele, todas as providências no sentido de que fossem dados aos escolares a necessária morada e os mantimentos bastantes, para que a sua vida em Coimbra, sem outras preocupações, pudesse ser votada aos estudos e à reflexão. Acerca das medidas tomadas com tal propósito, são bem elucidativos os alvarás régios de 12 de Julho, de 25 de Outubro, de 8 de Novembro de 1537 e de 18 de Julho de 1541.


O monarca não só incentiva a construção de casas concedendo largas isenções de foros, taxas e tributos, mas, ele próprio tomou a iniciativa de mandar construir doze moradas naquela que viria a ser a rua nova de S. Sebastião. Ora, a arquitetura de tais casas, com onze divisões (incluindo uma sala comum) distribuídas por dois pisos, possuindo um pequeno quintal com cisterna, em anexo, evidencia a preocupação de providenciar moradas do tipo comunitário, onde seria possível alojar de oito a dez estudantes. E não foi esquecida a sala para usos comunitários como as refeições e o convívio dos inquilinos, aquela que ainda hoje é a parte mais importante da casa, nas atuais “Repúblicas”.


Se a fase embrionária das “Repúblicas” remonta aos tempos dionísios, é D. João III quem, de alguma forma, com estas edificações, vai instituir as “primeiras repúblicas”, isto é, comunidades de estudantes que partilham a mesma casa, fruindo de igualdade de condições e comungando, eventualmente, de uma mesma refeição. É, também, com D. João III, que surgem em Coimbra novas possibilidades de alojamento e de vida comunitária. Falamos dos colégios que, sempre acompanhados da solicitude régia, começam a proliferar na cidade, nesta época. Se, na generalidade, eram propriedade de Ordens Religiosas, para que os seus membros viessem estudar na Universidade, havia também os Colégios das Ordens Militares e os Colégios para clérigos pobres e para seculares. Os colégios absorveram, para além dos seus próprios membros, muitos outros estudantes que, em boa parte, não tinham recursos bastantes para estudar.

Se a tradição é construída por usos e costumes que se enraízam ao longo dos tempos e se o uso e o costume radicam na repetição de certas ações, foi com o advento dos colégios que nasceram muitas das práticas da administração de uma “República”.

Desde os tempos dionísios que alguns estudantes exerciam a atividade de taxadores de moradas que visavam a renda justa. Ora, muitos estudantes com parcos recursos foram admitidos nos colégios para prestar serviços à comunidade colegial onde eram designados por familiares. Viviam, regra geral, nos piores alojamentos e desempenhariam múltiplas tarefas, em regime de rotatividade e a par de outros escolares mais novos, como servir à mesa, arrumar a louça, acender as velas, fazer camas, varrer a casa, arrumar quartos, cozer pão, etc.. Possivelmente geririam também a dispensa, as compras, o refeitório, a cozinha, etc., como auxiliares dos colegiais.

Todas estas incumbências e atribuições terão influenciado, em muito, o modo de organizar, gerir, distribuir tarefas e fazer funcionar as comunidades de estudantes autogeridas.

Acerca deste assunto, e avançando no tempo, Ribeiro Sanches, em 1763, traça-nos o seguinte quadro: “Cada dois ou três estudantes têm uma ama, um e, às vezes, três criados;(…)”. Este autor estará a referir-se a pequenas comunidades de escolares com certo poder económico porque, outras comunidades haveria em que o número de estudantes seria bem superior. Uma análise cuidada dos registos de matrículas dá-nos, para esta época, um número médio de cinco residentes, nos casos de habitação partilhada. Todavia, Ribeiro Sanches introduz um novo elemento, a figura da “ama” que estará muito próxima da serviçal ou “servente” das “Repúblicas” do Século XX

São vários os autores que apontam o surgimento das “Repúblicas Coimbrãs” para o início do Século XIX; entre eles estão Teófilo Braga, Borges de Figueiredo e Amílcar Ferreira de Castro. Ora, efetivamente, se pensarmos apenas no apelativo “República”, ele terá surgido naquela época, remontando à revolução vintista e, mais particularmente, à implementação do Decreto de 28 de Maio de 1834, de Joaquim de António de Aguiar.

Na verdade, com a extinção dos colégios universitários e outras instituições de inspiração religiosa, foi vibrado um rude golpe no alojamento académico, reduzindo-se significativamente a oferta de morada para estudantes e professores, pois o decreto de extinção não foi acompanhado de qualquer política de realojamento ou oferta de alternativas. Deste modo, cresceu exponencialmente o número de estudantes à procura de alojamento e cresceu também, com isso, não só o número de casas arrendadas a estudantes, e, muito particularmente, o número de escolares por casa. Algumas destas comunidades integraram de oito a onze elementos.

Não é pois de admirar que seja esta a época sobre a qual mais se debruçam os investigadores que apontam este período como o do nascimento das “Repúblicas”, para minorar a crise de alojamento. Todavia, manda o bom-senso pensar que estas comunidades de estudantes não podem ter sido geradas espontaneamente numa dada época e pelo motivo específico que a marcou. Toda a organização interna de uma “República”, o espírito de grupo, o tipo de economia doméstica comunitária e todas as outras especificidades inerentes às “Repúblicas” não surgem por geração espontânea mas pelo acumular de experiências alicerçadas no uso, no costume e na tradição construídos ao longo de séculos. O que se disse dos tempos de D. Dinis e seus sucessores, da época de D. João III, etc., é fundamental para compreender toda a evolução que se verificou até ao Século XIX, no âmbito destas células familiares estudantis. Digamos que esta época tem a marcá-la alguns novos elementos na evolução das “Repúblicas”: Com a diminuição da oferta de alojamento, aumenta o número de comunidades de escolares a residir em casas arrendadas; o número de elementos de cada comunidade tem também um aumento tendencial; a organização interna, sofre alguns reajustamentos derivados dos novos tempos; surge o nome de “República”, muito apropriado também à época, e que deverá provir do facto de estas comunidades familiares terem um governo semelhante ao dos estados republicanos.
Nos seus aspetos essenciais pode dizer-se, que apesar de toda a evolução da sociedade portuguesa e, concomitantemente, da sociedade tradicional académica de Coimbra, as “Repúblicas Coimbrãs” mantiveram as características que presidiram às suas origens e, pelos séculos fora, outras adquiriram, frutos do uso, do costume e da tradição, constituindo, no seu todo, um edifício assente na organização, no funcionamento, na particularidade e na pluralidade. É toda esta ambiência de “Vida em República” que vimos encontrar já no Século XX e que vem ser perturbada na sua existência em finais da década de quarenta. Um novo e rude golpe se abate sobre o alojamento estudantil nesta época. A demolição de grande parte da “Alta” para construção dos novos edifícios da “Cidade Universitária” transformou-se numa situação tão grave que, em Fevereiro de 1948, foi mandada suspender a ordem que determinava o despejo urgente de todas as casas da “Alta” onde residiam estudantes. É que, sem alternativas imediatas, como poderiam os estudantes, em meio do ano, encontrar novas casas para onde pudessem transferir-se. Já o mesmo acontecera com o Decreto de Joaquim António de Aguiar. O parque habitacional não primava pelo excesso. Pelo contrário, as carências eram bem visíveis. Foi neste contexto e face aos graves problemas com que os estudantes se depararam que nasceu o “Conselho das Repúblicas”, um organismo, não de tutela, mas de aglutinação em torno do “Ideal Repúblico”, o qual procuraria responder às dificuldades das “Repúblicas”, no seu conjunto. Mas, do camartelo da “Alta” e de alguma dispersão por ele provocada, o ideal repúblico prevaleceu e, quase direi, reforçou-se. Depois de passada a tormenta, novas “Repúblicas” vieram a ser fundadas, ou não fosse este o mais tradicional modo da vida académica e o mais seguro baluarte das suas tradições.

Atualmente são cerca de trinta as “Repúblicas” existentes em Coimbra. E, se os tempos mudaram e a sociedade portuguesa sofreu grandes transformações, estas comunidades académicas, evoluindo embora, mantiveram-se idênticas a si mesmas, constituindo uma espécie de classe dentro da classe académica, com os seus problemas próprios, o seu espírito próprio e os seus interesses específicos.


* Museu Académico
Revista Rua Larga, edição nº19

quarta-feira, 21 de março de 2018


Via Latina


A Via Latina é a arcada que liga exteriormente a Reitoria, a Sala Grande dos Atos e os Gerais - seria inicialmente um eirado que permitia o acesso à antiga Sala do Trono pelo exterior. Foi adaptado já no séc. XVIII a acesso “comum”, uma forma inteligente de ligar estes três espaços. A sua forma atual chega-nos da reforma pombalina da Universidade, a partir de 1772: no centro encontramos uma alegoria a D. José I, original de Claude de Laprade no início do séc. XVIII, ladeada por duas figuras escultóricas mais antigas: Fortaleza e Justiça.

O nome Via Latina deve-se à Reforma de 1772. O Latim era a língua “oficial” da Universidade obrigatoriamente falado debaixo daquela arcada. A partir desta altura passou a ser o Português, que se mantém até à atualidade.


Porta Férrea

A Porta Férrea localiza-se ainda no local original de entrada da fortaleza muçulmana de Almançor. Manteve a sua forma quase inalterada até ao séc. XVI, quando foi ligeiramente modificada pelo Rei D. Manuel I.

A sua forma atual é dada por duas grandes intervenções durante o séc. XVII: a primeira com início em 1634 e a segunda em finais do séc. XVII.

A primeira reforma da Porta Férrea tem como objetivo a glorificação da história da Universidade. Estruturada como um arco triunfal, simétrico de ambos os lados, tem na fachada exterior a representação do Rei D. Dinis, o fundador do Estudo Geral em 1290, encimado pela figura da Sapiência – desde a sua origem a insígnia da Universidade. Abaixo e laterais à porta, as representações das Faculdades de Leis (esquerda) e Medicina (direita); na fachada interior, a coroar a porta, novamente, a Sapiência e abaixo o Rei D. João III – que transfere a Universidade em definitivo para Coimbra. Nas laterais, à esquerda encontramos uma representação da Faculdade de Teologia e à direita a Faculdade de Cânones.

Em finais do séc. XVII, com a grande reforma de D. Nuno da Silva Teles, o Colégio de São Pedro é ligado à Reitoria, estrutura que vai conferir o aspeto atual à Porta, visível o corredor que faz esta ligação.


terça-feira, 20 de março de 2018



Torre da Universidade

Esta ocupa o ângulo Noroeste do Pátio e foi construída entre 1728 e 1733, substituindo uma já existente erigida em 1561. Foi desenhada pelo arquitecto italiano António Canevari a trabalhar em Portugal ao serviço de D. João V.

Com 34 metros de altura e 184 degraus, trata-se de uma das melhores obras barrocas em Portugal, que fora criada para organizar a vida escolar num edifício nascido com outra vocação de carácter civil. Aloja os sinos e os relógios que durante séculos e ainda hoje ecoam na cidade de Coimbra e nas memórias dos estudantes, ex-estudantes e também habitantes.

In DIAS, Pedro; “O Património artístico da Universidade de Coimbra”. Ed.1990; Universidade de Coimbra





Sala dos Grande Atos | Sala dos Capelos

A principal e mais importante sala da Universidade de Coimbra, pois nesta são realizadas todas as cerimónias académicas solenes tais como os doutoramentos solenes ou Honoris Causa, a investidura do reitor e as sessões de abertura solene das aulas. Mas antes da instalação definitiva da Universidade no antigo Paço Real e da sua transformação em Paço das Escolas, esta fora a Sala do Trono e só em 1537 passou a ser usada para as mais importantes cerimónias da vida académica.
Nesta mesma sala se realizaram as famosas Cortes de Coimbra de 1385 onde se elegeu João, Mestre de Avis como João I Rei de Portugal, dando inicio à segunda dinastia, a dinastia de Avis.
A Sala dos Capelos passou por duas remodelações, uma primeira executada em 1639, por Marco Pires na altura em que D. Manuel Saldanha era reitor quando também fora realizado o tecto da sala pelo pintor portuense Jacinto da Costa, um especialista em grotescos já no ano de 1655, tecto de impressionantes dimensões; uma segunda durante as Reformas Pombalinas de 1773 durante o reitorado de D. Francisco de Lemos.
Esta sala é composta por uma excelente galeria de retratos a óleo dos reis de Portugal intercalados entre as janelas. Os dezoito quadros que representam os reis que antecedem D. João IV foram pintados por Carlos Falch. Os retratos de D. João IV, D. Pedro IV, D. Maria II e D. Pedro V, foram pintados por João Baptista Ribeiro (1790-1868). O retrato de D. Luís I de Portugal, pintado em 1862, foi executado por José Rodrigues, enquanto o retrato de D. Carlos I de Portugal, pintado em 1899, foi feito por Leopoldo Battistini, assim como em 1908 o do último monarca retratado, D. Manuel II de Portugal. Não estão na galeria os reis espanhóis. 




Carlos Seixas

José António Carlos de Seixas nasceu em Coimbra a 11 de Junho de 1704. Iniciou os estudos musicais com seu pai Francisco Vaz, tendo adquirido desde muito novo uma apreciável destreza no órgão.
Aos 14 anos substitui o pai, nas funções de organista da Sé de Coimbra e, dois anos mais tarde parte para Lisboa onde chega já com grande fama.       
Ao contrário dos seus contemporâneos, Seixas parece nunca ter saído de Portugal, tendo-se formado muito provavelmente na escola de seu pai, herdeira da tradição organística ibérica do século XVII.
Morreu com apenas 38 anos, (a 25 de agosto de 1742, de febre reumática) e se bem que uma grande parte da sua música tenha desaparecido aquando do terramoto de 1755, o pouco que nos chegou, apresenta-o como um compositor cheio de génio, digno representante da escola portuguesa.
Precedido de uma sólida reputação, foi admitido como organista na Santa Basílica Patriarcal de Lisboa e na Capela Real. Para além destas funções, compunha e ensinava cravo nas casas da corte.
Na mesma altura, D. João V contrata Scarlatti (cravista italiano para professor da sua filha D. Maria Bárbara e seu tio, o infante D. António) que ficou impressionado com o talento do músico português, quando o ouviu tocar.
Reza a história que, tendo o Infante D. António sugerido que Seixas tivesse lições com Scarlatti, este tenha respondido que deveria ser o músico português a dar-lhe lições a ele.
As sonatas de Carlos Seixas reflectem a ambiguidade estilística do período de transição das épocas Barroca e Clássica. Possuindo uma elegância e inspiração melódica, o seu fraseado é de carácter irregular e assimétrico e a sua linguagem é simples. As sua obras podem encontrar-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, Biblioteca do Palácio Nacional da Ajuda e na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.