segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Sabia que em Coimbra existiu um Castelo? 


                                                                                            Figura 1-Castelo de Coimbra


O sítio que hoje conhecemos como Largo de D. Dinis esteve ocupado, em tempos, pelo Castelo de Coimbra (vejam-se as figuras 1 e 2) (Alarcão, 2008). Não se sabe, ao certo, a data da sua fundação, mas a construção da torre de menagem é do reinado de D. Afonso Henriques e a da torre quinária ou de Hércules do tempo de D. Sancho I (1198) (Filipe & Teixeira, 2013). 
O castelo teve reformas nos reinados de D. Sancho I, D. Dinis e D. Fernando (Duarte, 2005) (Filipe & Teixeira, 2013). 
A Torre de menagem tinha cerca de 22 metros de altura e a torre quinária devia ter 26,5 metros (Alarcão, 2008). 
O seu desaparecimento deveu-se, em primeiro lugar, às demolições do século XVIII, para se construir um observatório astronómico (obra que não foi terminada) (Filipe & Teixeira, 2013) e, em segundo lugar, às obras do estado novo que destruíram o que restava do castelo (Duarte, 2005). Coimbra tinha, igualmente, uma muralha e um conjunto de 15 torres (Duarte, 2005). Juntamente com os castelos de Penela, Montemor-o-Velho, Soure ou Miranda do Corvo, o castelo de Coimbra pertencia á linha de defesa do Mondego, apresentando, assim uma relevante importância militar e política (Filipe & Teixeira, 2013) . 


                                                                 Figura 2- Localização do Castelo de Coimbra



                                                                                                                   Figura 3-Planta do Castelo



Miriam Rocha
Fevereiro de 2019




Referências Bibliográficas:
Alarcão, J. d. (2008). Coimbra: a montagem do cenário urbano. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.
Duarte, B. (2005). Coimbra,cidade muralhada. Arquivo Coimbrão.Boletim da Biblioteca Municipal, 38, 93-108.
Filipe, S., & Teixeira, R. (2013). A intervenção arqueológica no largo do castelo de coimbra: Vestigios da Torre de Menagem.Abordagem preliminar dos resultados. Em I. Fernandes, Fortificações e Território na Peninsula Ibérica e no Magreb (Séculos VI a XVI)-Volume I (pp. 445-456). Lisboa: Edições Colibri& Campo arqueológico de Mértola.



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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

NASCERAM REIS NO PAÇO REAL DE COIMBRA


No Paço Real da Alcáçova, foi o local onde nasceram e viveram alguns dos Reis de Portugal durante a primeira Dinastia. E foi na Sala Grande dos Actos que ocorreram importantes episódios da vida da nação portuguesa, não fosse esta a Sala do Trono do Paço Real da Alcáçova, onde foi a aclamação de D. João I, Rei de Portugal.
Primeira Dinastia de 1143-1383.

Fotos dos quadros da Sala Grande dos Actos (Sala dos Capelos).


D. Sancho I “O Povoador” – 1185-1211

                                    

Nasceu em Coimbra, em 1154. filho de D. Afonso Henriques e de D. Mafalda de Sabóia. Casou com D. Dulce de Aragão, filha do conde de Barcelona. Herdeiro das virtudes militares de seu pai, continuou a luta encetada contra os mouros. D. Sancho I teve o cognome de “O Povoador”por ter mandado povoar as terras conquistadas. Faleceu em 1211, em Santarém. Sepultado no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, com seu pai D. Afonso Henriques.


D. Afonso II “O Gordo” – 1211-1223

                               

Nasceu em Coimbra, em 1185. Filho de D. Sancho I e de D. Dulce de Aragão, foi o sucessor de seu pai. Casou com D. Urraca, filha de Afonso VIII de Castela. D. Afonso II foi cognominado de “O Gordo” por ser muito gordo. A principal preocupação de D. Afonso II foi a administração do reino e convocou as primeiras Cortes portuguesas em 1211, em Coimbra. Prosseguiu, também, o alargamento do território. D. Afonso II faleceu em Santarém, em 1223. Jaz no Mosteiro de Alcobaça.


D. Sancho II “O Capelo” – 1223-1248



Nasceu em Coimbra, em 1209. Filho de D. Afonso II e de D. Urraca de Castela. Casou com D. Mécia Lopes de Haro, de Leão. D. Sancho II subiu ao trono aos 13 anos e foi cognominado de “O Capelo” por, em criança, ter usado o hábito de frade franciscano. Mostrou-se rijo na arte da guerra, como seu bisavô D. Afonso Henriques, mas foi um fraco administrador. Destituído de rei pelo Papa, em 1245, D. Sancho II exila-se em Castela. Morre em Toledo, em 1248, onde foi sepultado.


D. Afonso III “O Bolonhês” – 1248-1279



Nasceu em Coimbra, em 1210. Era irmão de D. Sancho II, a quem sucedeu. Casou com D. Matilde, condessa de Bolonha, e mais tarde casou com D. Beatriz de Guilhen. D. Afonso III foi cognominado de “O Bolonhês”por, ter casado com a condessa de Bolonha. Assumiu a Regência do Reino em 1245. Depois da morte de seu irmão, D. Sancho II, em 1248, foi proclamado rei. Protegeu a agricultura e desenvolveu o comércio e a indústria. Criou concelhos e concedeu muitos forais. D. Afonso III faleceu em 1279. Jaz no Mosteiro de Alcobaça.



D. Pedro I “O Justiceiro” – 1357-1367


Nasceu em Coimbra, em 1320. Era filho de D. Afonso IV, a quem sucedeu, e de D. Beatriz. Casou com D. Constança, de Castela. D. Pedro I foi cognominado de “O Justiceiro”, "Cruel" por ter aplicado uma justiça rigorosa e severa, igual para todos. Faleceu em Estremoz, em 1367 mas os seus restos mortais e de D. Inês de Castro encontram-se no Mosteiro de Alcobaça.


D. Fernando “O Formoso” – 1367-1383




Nasceu em Coimbra, em 1345. Era filho de D. Pedro I, a quem sucedeu, e de D. Constança. O seu casamento com D. Leonor de Teles, não foi bem recebido pelo povo, tendo até de sair de Lisboa para se poder casar sem tumultos. D. Fernando foi cognominado de “O Formoso”pela sua beleza e distinta figura. Morreu em 1383, deixando uma única filha, D. Beatriz, casada com D. João I, rei de Castela. Terminou, assim, a primeira dinastia, conhecida por “Afonsina” ou “de Borgonha”.




terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

«Basta de tanto sofrer!» uma história do Aqueduto de São Sebastião


O Aqueduto de São Sebastião, popularmente conhecido como os Arcos do Jardim, localiza-se na calçada Martim de Freitas, em frente ao Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, e remonta a um primitivo aqueduto romano, que abastecia a parte alta da povoação.

O atual aqueduto é obra do final do século XVI, sob o reinado de Sebastião de Portugal, com traça do arquiteto italiano Filipe Terzio. Aproveitando o percurso e possivelmente os restos do antigo aqueduto, ligava os morros onde se situavam o mosteiro de Santana e o Castelo de Coimbra, vencendo uma depressão em vinte e um arcos.
O Arco de Honra é de cantaria de pedra, e no seu topo destaca-se um conjunto de duas esculturas representando, do lado Norte São Roque, e do lado Sul São Sebastião.

Foram muito faladas algumas aventuras académicas nos arcos, sendo a mais conhecida a 1859-1860 um grupo de estudantes treparam ao alto do arco nobre em cima do qual se vê ainda hoje o baldaquino que cobre S. Sebastião e S. Roque e arrancaram as setas cravadas no mártir e deixaram um cartaz dizendo «Basta de tanto sofrer!»

Fonte: Trindade Coelho no seu livro “In Ill Tempore: Estudantes, lentes e futricas” (1902:346) 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019


O MOSAICO ROMANO



Na entrada principal da Reitoria, no Paço Real encontra-se uma vitrina com um fragmento de mosaico romano, o que provoca a curiosidade de muitos os que por ali passam.

 



O fragmento foi encontrado durante as escavações arqueológicas no pátio, em 2001 e terá segundo os arqueólogos pertencido à sala de uma casa senhorial romana. Este achado mostra a ocupação do espaço da universidade desde o século I / II.
A residência romana seria uma das construções da antiga cidade romana de Aeminium. O mosaico, que é um dos raros exemplos em espaços urbanos, mostra o mesmo tipo de motivos geométricos que eram comuns na região, provavelmente produto de uma oficina local.



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Amor a Coimbra

Um raio de luar 
Noite calma e bela
Um estudante a cantar
Sob uma janela
Te canto Coimbra
Com notas sem fim
Grandes como o amor
Grandes como o amor que eu tenho por ti

Tens a luz mais linda
Deste Portugal
Recantos de amor
A Lapa e o Choupal

A Rainha Santa 
Te abençou
Todo o que é poeta 
Todo o que é poema,sempre te cantou

Um raio de luar
Noite calma e bela
Um estudante a cantar
Sob uma janela
Te canto Coimbra
Com notas sem fim
Grandes como o amor
Grandes como o amor, que eu tenho por ti

Lindo é o Mondego
Que ouve a nossa voz
E vai em sossego
Lá longe para a foz
Nas águas vão notas
De um fado sofrido
Cada coração
Cada coração, canta o seu destino

Um raio de luar
Noite calma e bela
Um estudante a cantar
Sob uma janela
Te canto Coimbra
Com notas sem fim
Grandes como o amor
Grandes como o amor, que tenho por ti

Um raio de luar
Noite calma e bela
Um estudante a cantar
Sob uma janela
Te canto Coimbra
Com notas sem fim
Grandes como o amor
Grandes como o amor, que tenho por ti

Um raio de luar...




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O RASGANÇO

Tradição académica que tem lugar normalmente lugar no largo da Porta Férrea e acontece quando o estudante faz o ultimo exame ou sai a última nota. Vêm com os amigos e companheiros celebrar o fim dos estudos e estes rasgam-lhe completamente as vestes estudantis, calças, batina e camisa, ao ponto de apenas restar no corpo do recém -licenciado o colarinho da camisa e a capa, esta acompanha o estudante até à morte. Podem  facilmente encontrar-se pedaços pretos e brancos do traje académico na Porta Férrea e estátuas.












segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019


FADO de COIMBRA


Alguns chamam-lhe “Fado de Coimbra”, outros “Canção de Coimbra”, “ Serenata Coimbrã”, “Balada de Coimbra”, “Fado-canção”, etc . Mas que género musical será este? 

Nas palavras de Francisco Faria é uma “canção terna, docemente saudosista, mas jovem no seu vigor, no idealismo das atitudes, na esperança de um amor realizável que se oferece, ao mesmo tempo espontâneo e elaborado, de melodia bem contornada e, simultaneamente, um pouco rebuscada e, por vezes, patente”[1]. Esta caracteriza-se por um “estilo vocal próprio: sério, elegíaco, lírico, docemente apaixonado sem objeto...”[2] e tem a sua expressão máxima nas serenatas, quer sejam realizadas por estudantes ou por “futricas” ( população conimbricense que não era estudante). No final do século XIX e início do século XX aparecem muitas notícias na imprensa que dão conta de “serenatas fluviais” organizadas pela população de Coimbra[3]. 

No que diz respeito às origens sabe-se que os estudantes sempre tiveram gosto de cantar durante a noite nas ruas. Em 1537, após a transferência definitiva da Universidade para Coimbra, os cantares noturnos dos estudantes foram alvo de algumas providências repressivas por parte de D. João III[4]. Existe uma carta de 1539 enviada pelo monarca ao reitor, na qual constam as regras que o meirinho devia seguir para acabar com alguns comportamentos menos próprios dos estudantes, tais como cantar de noite pelas ruas da cidade[5]. Mas não só os estudantes tinham hábitos musicais na cidade de Coimbra. Os habitantes da Urbe tinham as suas canções e festividades próprias, entre as quais se destacam as relacionadas com os santos populares, Santo António, São João e São Pedro, e com a padroeira da cidade, a Rainha Santa Isabel. Nestas festas, os estudantes participavam juntamente com a população. Eram muito apreciadas as famosas fogueiras de São João, encontrando-se diversas notícias a seu respeito durante o século XIX[6][7]. 

Para Luís Pedro Castela ( 2012) é da confluência da cultura musical da Academia com a cultura musical tradicional dos habitantes de Coimbra que surge o que chamamos agora de “Fado de Coimbra” ou “Canção de Coimbra”. 

As serenatas mais típicas são as de rua e têm como objetivo cortejar uma rapariga. Outro local privilegiado para serenatas é a Sé Velha. Considerada a «catedral do canto coimbrão», recebe as celebrações dos grandes acontecimentos da vida académica, no seu portal realizam-se as serenatas monumentais[8]. Antes do aparecimento de «escolas» de ensino da guitarra e do fado de Coimbra, predominava o autodidatismo e a aprendizagem através da transmissão familiar. 

Com o advento da rádio, em 1947, foi transmitida a primeira serenata em direto, pelo emissor regional de Coimbra. Em 1957 a televisão aparece em Portugal e, no mesmo ano, a RTP transmite em direto uma serenata de Coimbra, realizada nos estúdios do Lumiar[9].

Miriam Rocha 
Fevereiro de 2019 



Referências Bibliográficas

Borges, Nelson Correia ( 1987). Coimbra e Região. Lisboa: Editorial Presença.
Castela, Luís Pedro Ribeiro(2011). A guitarra portuguesa e a canção de Coimbra. Subsídios para o seu estudo e a sua contextualização.( Dissertação de Mestrado). Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal.
Faria, Francisco (1980).Fado de Coimbra ou serenata coimbrã? . Coimbra: Comissão Municipal de Turismo.
Rocha, Miriam (2012) O Museu Municipal de Coimbra. Contributo para o programa museológico do núcleo da Guitarra e do Fado de Coimbra. ( Relatório de Estágio, não publicado , para obter o grau de Mestre).Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal.
Vouga, Vera Lúcia( 1991). Na galáxia sonora: sobre o fado de Coimbra. Revista da Faculdade de Letras: Línguas e Literaturas, Série II, 8,47-62.



[1] Faria, Francisco (1980).Fado de Coimbra ou serenata coimbrã? . Coimbra: Comissão Municipal de Turismo.
[2] Vouga, Vera Lúcia( 1991). Na galáxia sonora: sobre o fado de Coimbra. Revista da Faculdade de Letras: Línguas e Literaturas, Série II, 8,47-62.
[3] Rocha, Miriam (2012) O Museu Municipal de Coimbra. Contributo para o programa museológico do núcleo da Guitarra e do Fado de Coimbra. ( Relatório de Estágio, não publicado , para obter o grau de Mestre).Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal.
[4] Borges, Nelson Correia ( 1987). Coimbra e Região. Lisboa: Editorial Presença.
[5] Castela, Luís Pedro Ribeiro(2011). A guitarra portuguesa e a canção de Coimbra. Subsídios para o seu estudo e a sua contextualização.( Dissertação de Mestrado). Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal.
[6] Castela, Luís Pedro Ribeiro(2011). A guitarra portuguesa e a canção de Coimbra. Subsídios para o seu estudo e a sua contextualização.( Dissertação de Mestrado). Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal.
[7] Rocha, Miriam (2012) O Museu Municipal de Coimbra. Contributo para o programa museológico do núcleo da Guitarra e do Fado de Coimbra. ( Relatório de Estágio, não publicado , para obter o grau de Mestre).Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal.
[8] Rocha, Miriam (2012) O Museu Municipal de Coimbra. Contributo para o programa museológico do núcleo da Guitarra e do Fado de Coimbra. ( Relatório de Estágio, não publicado , para obter o grau de Mestre).Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal.
[9] Niza, José ( 1999) Fado de Coimbra II. Amadora: Ediclube.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

AS ESTANTES VAZIAS NA BIBLIOTECA JOANINA



Quem visita a Biblioteca Joanina depara-se com estantes sem livros o que numa biblioteca não faz sentido, contudo a razão deste vazio é a deslocação dos mesmos durante uns tempos para a prisão.
Confuso, nem por isso... Encontra-se instalada na Prisão Académica (numa zona de acesso restrito) uma câmara de anoxia de seis metros cúbicos de capacidade que vai servir para a desinfestação do acervo bibliográfico que se conserva no edifício.

Entre muitas outras vantagens, a entrada em funcionamento destes dispositivos permite evitar o recurso a métodos químicos de expurgo, muito utilizados no passado. Os livros são colocados na câmara durante 21 dias onde é extraído todo o oxigénio, este processo mata todos os fungos e ovos que possam estar presentes nos livros. Após a saída da câmara todos os livros são cuidadosamente limpos (folha a folha) e só depois regressam ao seu lugar na estante.

Nos três pisos da Biblioteca guardam-se atualmente cerca de 60 mil volumes, compreendendo diversas matérias, todos editados até ao final do século XVIII. 
Esta nova câmara junta-se a uma outra, que ficou instalada no edifício principal da Biblioteca Geral (BGUC). Para além de livros, as câmaras podem ainda ser utilizadas no tratamento de outros objetos de valor patrimonial que se encontram à guarda das diferentes bibliotecas e museus da Universidade.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019



Aristides de Sousa Mendes na Universidade de Coimbra



Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nasceu no dia 19 de Julho de 1885, em Cabanas de Viriato, nas imediações de Viseu. Filho de Maria Angelina Ribeiro de Abranches e do juiz José de Sousa Mendes, entrou na Universidade de Coimbra em 1902, para estudar Direito, com o seu irmão gémeo César, aos 22 anos de idade. Foi um dos seis melhores estudantes do seu curso.
A Universidade de Coimbra era, no dealbar do séc. XX, palco de vibrante oposição entre absolutistas e republicanos. Tradicionalmente, a Universidade de Coimbra assumiu-se como um local de contestação contra o poder instituído.

Aristides de Sousa Mendes estudou em Coimbra de 1902 a 1907 e , a 5 de Outubro de 1910, a República foi implantada em Portugal. Foi, precisamente, em 1910, nos primórdios da República, que Aristides de Sousa Mendes se especializou em Diplomacia, juntamente com o seu irmão gémeo César.

Era, sem dúvida, a mais prestigiada Faculdade de Direito do país e, simultaneamente, um local de liberdade de expressão e de pensamento, onde os estudantes podiam esgrimir as suas opiniões acerca de política e ideologia. A Universidade – segundo Bernardino Machado (antigo Presidente da República Portuguesa), contemporâneo de Aristides de Sousa Mendes, que também se formou na Universidade de Coimbra – “era, sobretudo, uma escola de liberdade.”

Era este o espírito generalizado de abertura que se podia sentir na Universidade de Coimbra à época e que decerto influenciou Aristides de Sousa Mendes na sua vida, mais tarde.

Aristides de Sousa Mendes viveu em Coimbra de 1902 a 1904 na Rua Sobre Ripas. Após licenciar-se em Direito, em 1907, foi estagiário de Direiro, defendendo diversas causas no início da sua carreira de advogado.

Créditos fotográficos: Universidade de Coimbra

AUC Processos de carta de curso (SR) – (Direito, 1909 )- cota AUC-IV-2.ªD-13-4-14





Aristides de Sousa Mendes: o cônsul insubordinado


Um coração generoso que salvou 30.000 vidas do horror do Holocausto: Aristides de Sousa Mendes (1885-1954). 

“Aquele que salva uma vida está a salvar toda a Humanidade.”

Aristides de Sousa Mendes
Aristides de Sousa Mendes (18 de Julho de 1885 – 3 de Abril de 1954) foi um prestigiado diplomata português que salvou 30.000 vidas do Holocausto, emitindo-lhes, freneticamente, vistos que se destinavam quer a indivíduos, quer a famílias. De 16 a 23 de Junho de 1940, Aristides de Sousa Mendes desobedeceu às ordens impostas pelo ditador Salazar, guiando-se pelos ditames da sua consciência moral interior. Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nasceu no dia 19 de Julho de 1885 em Cabanas de Viriato, nas imediações de Viseu. Filho de Maria Angelina Ribeiro de Abranches e do juiz José de Sousa Mendes, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra ao lado do seu irmão gémeo César, quando tinha 22 anos de idade. Em 1908 casa-se com a sua prima Angelina, com quem viria a ter 14 filhos. Começou a sua carreira diplomática muito jovem e em 1910 tornou-se cônsul de Demerara na Guiana britânica. Trabalhou como cônsul na Guiana Britânica, em Zanzibar, no Brasil (Curitiba e Porto Alegre), nos Estados Unidos (São Francisco e Boston), em Espanha (Vigo), no Luxemburgo, na Bélgica e, por último, em França (Bordéus). Era um homem de família e um patriarca que jamais se separou da sua mulher e filhos, proporcionando-lhes educação académica, assim como aulas de pintura, de desenho e de música. Um dos seus filhos afirmou um dia: “Tínhamos uma verdadeira orquestra de câmara em nossa casa e convidávamos pessoas, com regularidade, para assistir aos nossos concertos. Tocávamos Chopin, Mozart, Bach, Beethoven, entre outros.”

Segunda Guerra Mundial
Durante a Segunda Grande Guerra, sob a ditadura de Salazar, Portugal era uma nação alegadamente “neutra”, ainda que de forma bem evidente e não oficial, fosse pró-Hitler. O governo português emitiu a perversa “Circular 14” a todos os seus diplomatas, negando refúgio seguro aos refugiados, incluindo explicitamente Judeus, Russos e apátridas. Mas houve um homem que desafiou estas ordens terríficas e que ergueu a voz da sua consciência, salvando 30.000 pessoas de uma morte certa. Aristides Sousa Mendes foi severamente castigado por Salazar que lhe retirou o seu cargo e lhe negou qualquer forma de garantir um sustento, o que se revelou trágico, uma vez que Sousa Mendes tinha 15 filhos, que foram colocados numa lista negra e que foram impedidos pelo regime de ingressar no ensino universitário. À medida que recrudescia a ameaça nazi e a perseguição de milhares de Judeus por toda a Europa se intensificava, assumindo contornos cada vez mais assustadores, milhares de refugiados judeus, em Bordéus, reuniam-se em frente aos consulados de Portugal e de Espanha, em busca de vistos para escapar a uma morte certa. Espanha negou os vistos aos refugiados judeus e a única esperança residia no consulado português. A 16 de Junho de 1940, o cônsul português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, encontra-se com o rabino Kruger que escapara a uma Polónia ocupada. Promete-lhe fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para persuadir o governo de Lisboa, liderado por Salazar. Nessa noite, acolhe o rabino Kruger em sua casa. Na manhã do dia 17 de Junho de 1940, Lisboa nega os vistos aos refugiados judeus, mas de forma inesperada, Aristides de Sousa Mendes informa o rabino que irá emitir os vistos, pois sabia que os refugiados estavam condenados a morrer nos terríficos campos de concentração nazis. A casa da família – Casa do Passal, situada em Cabanas de Viriato, Viseu – foi devolvida ao banco e eventualmente vendida como forma de saldar dívidas. A Associação Judaica de Lisboa foi a única a ajudar a família Sousa Mendes, providenciando alimentação e assistência médica. Aristides de Sousa Mendes morreu no dia 3 de Abril de 1954, mas lutou pela justeza dos seus feitos até ao seu último suspiro.

O cônsul insubordinado
De 17 a 19 de Junho, o cônsul português trabalha incessantemente na emissão de vistos, juntamente com dois dos seus filhos, sem parar sequer para comer. Nesses três dias, foram emitidos 30.000 vistos, contrariando as ordens expressas do ditador António de Oliveira Salazar. Por sua vez, os consulados portugueses de Bayonne e Hendaye haviam obedecido a Salazar, mas Aristides de Sousa Mendes dirige-se pessoalmente a essas cidades e são emitidos mais vistos. Estava consciente das consequências dos seus feitos, mas havia seguido os ditames da sua consciência moral. A 24 de Junho de 1940, Aristides de Sousa Mendes recebe um telegrama de Salazar, ordenando-lhe que se apresentasse em Lisboa para explicar o seu acto de desobediência. Não só Aristides de Sousa Mendes foi despedido, como também lhe foi negada qualquer reforma, após 30 anos de carreira diplomática. Os seus filhos foram proibido de ingressar no ensino universitário e a família Sousa Mendes rapidamente perderia a Casa do Passal. A Comunidade Judaica de Lisboa providencia à família abrigo e alimentação, ajudando alguns dos seus filhos a mudar-se para os Estados Unidos ou para o Canadá. Morre a 3 de Abril de 1954 na miséria.

A memória de Aristides de Sousa Mendes
O primeiro reconhecimento veio em 1966 de Israel que declarou Aristides de Sousa Mendes “Justo entre as Nações”. Em 1986, o Congresso dos Estados Unidos emitiu uma proclamação em honra do seu acto heróico. Mais tarde foi finalmente reconhecido por Portugal, tendo o Presidente da República de então, Mário Soares, apresentado desculpas à família Sousa Mendes e o Parlamento português promoveu-o postumamente à categoria de embaixador. O rosto de Sousa Mendes apareceu impresso em selos em vários países.

“Que mundo é este em que é preciso ser louco para fazer o que é certo?”, Aristides de Sousa Mendes





quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019


Colocação na Sala dos Archeiros  DA SÉRIE DA VIDA DE TOBIAS
 de António Filipe Pimentel




A série de oito tábuas maneiristas representando a Vida de Tobias constitui um dos muitos tesouros que se guardam no Paço das Escolas. E, como quase tudo nesse extraordinário edifício, possui uma história que merece ser contada: e, sobretudo, que merece ser vista. Com efeito, têm a sua origem na respetiva oferta à Companhia de Jesus, em 1600, pelo bispo-conde D. Afonso de Castelo Branco- que procedera já, em 1598, à colocação da pedra fundamental da sua monumental igreja- prelado ilustre pela estirpe, cultura e ação mecenática (que em Coimbra deixaria tantos traços) e que chegaria a ocupar, durante a união dinástica, as funções de Vice-Rei. A razão da oferta radicaria no seu reconhecimento pela abnegada da atuação dos padres inacianos durante o violento surto pestífero que assolara Coimbra no ano anterior, cidade de que se considerava efetivo senhor, a um tempo no plano espiritual e no plano temporal.

Executadas, segundo Vìtor Serrão, por Mateus Coronado, artista castelhano ao seu serviço, a partir de gravuras de Dirk Volkerst, as tábuas ilustram, em oito passos cumulativos (com representações complementares em primeiro e segundo plano) e em leitura sequencial da esquerda para a direita, um trecho dos livros deuterocanónicos do Velho Testamento: a saga, na verdade pouco divulgada, da viagem do jovem hebreu Tobias, de Ninive até Ragès (a atual Shahr-e-Rey, no Irão) ocorrida, segundo a tradição, nos inícios do século VIII AC. A saber: A provação de Tobite; Tobias inicia a sua jornada na companhia de Azarias; A captura do peixe miraculoso; Tobias e Azarias alcançam a terra de Ecbátana; Tobias livra Sara do demónio; Esponsais de Tobias e Sara; Tobias empreende a viagem de regresso e Revelação da identidade do Arcanjo São Rafael.
O relato evangélico constitui uma metáfora da conquista, por intermédio da Fé, das virtudes da coragem, fraternidade, humildade, abstinência e castidade, pelo que a oferta à congregação dos apóstolos, como eram denominados os seguidores de Santo Inácio- em cuja igreja deveriam figurar em lugar destacado, protegidas por cortinas de tafetá, que o prelado igualmente ofertaria- funciona não somente como agradecimento pela sua exemplar atuação no contexto referido, mas como público testemunho da exemplar ilustração dessas virtudes por parte da milícia jesuítica, que o bispo objetivamente patrocinava. A integração das oito tábuas no Paço das Escolas, porém, decorre mediatamente da expulsão da companhia, em 1759 (com o correlativo encerramento da respetiva igreja) e, no plano imediato, da integração do Colégio de Jesus no património da Universidade, em 1772, com entrega do templo à diocese, com o fito de servir-lhe de nova catedral, como desde então sucederia.
Tudo indica, pois, que na sua incorporação terá tido um papel ativo o Reitor- Reformador D. Francisco de Lemos, que presidiria à implementação dessa medida administrativa (ao mesmo tempo que à reforma da Universidade, decorrente dos novos estatutos, outorgados nesse ano) e que atuava, em simultâneo, como vigário-geral e administrador da diocese.

No Paço, seriam as oito tábuas colocadas no coro alto da Real Capela, onde se conservariam até 2003, quando foram objeto de uma intervenção de limpeza e reabilitação. Assim, desanconselhada tecnicamente a sua recolocação in situ - sendo que nada, historicamente, vinculava uma fidelidade museográfica a essa situação - seria tomada a decisão de expô-las na Sala dos Archeiros, uma das dependências mais emblemáticas do palácio universitário, no quadro do objetivo de valorização do circuito turístico defiido pela Reitoria e com vista a possibilitar uma fruição eficaz do conjunto pictórico, inviável na anterior localização.