quinta-feira, 13 de junho de 2019

Santo António do Oratório do Cárcere Académico da UC


                        Oficina desconhecida || calcário de Ançã || século XVII (1ª metade)

« (...) Como qualquer outro espaço vivencial, também o oratório do cárcere possuía um conjunto de móveis, alfaias e paramentos indispesáveis às funções celebrativas que aí decorriam nos Domingos e principais dias festivos do Calendário da Igreja. Os mesmos capelães deveriam ainda auxiliar no apoio espiritual daqueles que procuravam a redenção pelos actos imprudentes praticados.
Mas é somente a partir do inventário dos Trastes, Moveis e Alfaias da Capela da Cadêa da Universidade, executado por José Joaquim de Faria (?), no dia 15 de Novembro de 179969, que ficamos a conhecer o orago a que havia sido dedicado o espaço cultual da cadeia académica: Santo António de Lisboa (c. 1191‑5| 1231).
Foi durante as nossas investigações que viemos a localizar nos anexos da capela de São Miguel da Universidade de Coimbra, nas áreas do antigo Museu de Arte Sacra, aquela que acreditamos ser a imagem devocional primitiva existente no oratório do cárcere académico, uma escultura “representando Santo António com o Menino (com respectivos resplendores de prata)”. Contudo, a peça localizada foi executada calcário de Ançã, e não em “barro” ou “pao” como os inventariantes, contraditoriamente, descreveram nos arrolamentos.
NOTA:
Apesar das obras hagiográficas tradicionais não o identificarem como padroeiro dos prisioneiros
é possível que a escolha de Santo António para o orago da capela da cadeia esteja relacionado
com o episódio em que o santo, através do dom da ubiquidade, apareceu em Lisboa para livrar o pai
da acusação por homicídio. De igual modo, é ainda muito sugestiva a estrofe de um responsório
popular que invoca a intercessão do santo junto dos condenados:
"Meu Santo António
Das prisões quebra as correntes."
(...)

Texto retirado do trabalho de "De corpo e alma: O oratório do Cárcere Académico da Universidade de Coimbra.
Primeiras linhas de investigação" de MILTON PEDRO DIAS PACHECO

Doutorando na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Bolseiro pela Fundação para a Ciência e Tecnologia
Centro de História de Além‑Mar
(CHAM) da Universidade Nova de Lisboa/
Universidade dos Açores
Centro Interdisciplinar de Estudos Camonianos (CIEC) da Universidade de Coimbra