sexta-feira, 10 de abril de 2020


Domitila Hormizinda Miranda de Carvalho nasceu a 10 de abril de 1871, em de Travanca da Feira, Aveiro. Ao ingressar, nos finais do século XIX, como estudante da Universidade de Coimbra viria a distinguir-se não só como a primeira estudante universitária em Portugal, mas também pelas suas ações em prol da criação do primeiro Liceu feminino, pela participação em iniciativas de cariz feminista, assim como, pelo seu percurso político: uma das três primeiras mulheres deputadas do Estado Novo.




Após prestar provas finais do curso dos liceus, com excelentes resultados, os seus professores e a sua mãe insistiram que se candidatasse ao ensino superior. Viria a ingressar na Universidade de Coimbra, em outubro de 1891, como a primeira mulher que assistia regularmente às aulas. Porém, para que pudesse inscrever-se o Reitor da altura, Dr. António dos Santos Viegas (1890-92), enviaria um ofício ao Ministro da Instrução Pública e Belas Artes requerendo não só a permissão de matrícula, mas também a dispensa do uso de traje académico argumentando que “Não encontro na legislação académica disposição alguma que obste à matrícula de alunos do sexo feminino, a não ser para a Faculdade de Teologia (…) tanto os Estatutos como a legislação são omissos a tal respeito, certamente por se não ter previsto a possibilidade de uma rapariga se habilitar para seguir as carreiras científicas[i].
Enquanto aguardava autorização de matrícula pode assistir às aulas como ouvinte de modo a não perder as primeiras lições e durante cinco anos foi a única mulher a frequentar esta instituição. Enquanto aluna ficaria hospedada no Largo de São João (que hoje não subsiste), depois numa casa no Marco da Feira, mais tarde numa das casas do Arco dos Jardins e finalmente na Rua da Trindade (atual Rua José Falcão).
Entre 1891 e 1904, formou-se em três cursos superiores: Matemática (1894), Filosofia (1895) e Medicina (1904). Recebeu honras a quase todas as cadeiras, foi aluna distinta a cadeiras como Botânica, Física, Zoologia, Matemática ou Química Orgânica e foi galardoada com o Prémio Barão de Castelo de Paiva (1899 - 1900) e o Prémio Alvarenga (1901- 1902).
Foi uma mulher de grande sensibilidade humana, artística e pedagógica. Em 1904, seria convidada, pela rainha D. Amélia, a trabalhar para a recém-criada na Associação Nacional de Tuberculose. Exerceu a prática clínica no Centro Materno-Infantil e compreendendo que muitos problemas de saúde das crianças resultavam de parcas ou inexistentes cuidados maternos irá proferir conferências alertando para a necessidade de educar as mulheres uma vez que “estas são elas são as primeiras educadoras e as melhores agentes de mudança.[ii]
Viria a lutar pela criação do primeiro liceu feminino em Portugal – o Liceu D. Maria Pia (1906) – onde não só foi a primeira professora de Matemática em Portugal, como também a primeira Reitora (Diretora) no país. Como pedagoga acreditava que o acesso das mulheres ao ensino permitia-lhes transformar a sociedade atenuando as diferenças que separavam os homens das mulheres.
Em 1934, integraria a Assembleia Nacional na I e II Legislaturas (de 1935 a 1942) onde lutaria, entre outros assuntos, por incorporar no currículo liceal a disciplina de Higiene e Puericultura e cujo Governo, no ano seguinte,“Institue cursos de higiene geral em todos os liceus e de puericultura, para as alunas, nos liceus femininos ou mixtos e demais escolas secundárias onde houver turmas exclusivamente femininas.”[iii]
Aos 95 anos de idade viria a falecer, em Lisboa,deixando como legado uma importante carreira médica, pedagógica, política, humanista, feminista, de escritora e de poeta:
Coimbra – Terra de Amores[iv]
Catedral dos meus sonhos, casto bem
Que sorris ao meu gosto alvoraçado
Com ternura boa em si tem
Toda a côr dum vitral iluminado!

Terra de amores! Assim te chama alguém,
E céu de tanto afecto enamorado,
Sempre nova e florida, como quem
Torna ao presente as horas do passado…

És sonho piedoso de quimera.
Junto de ti há sempre primavera,
Aligeira-se a dor quando aqui passa.

Em ti há sempre luz e riso e côr
Pois quando a sombra desce inda é maior
Mais luminoso o sol da tua graça.



de Germana Torres 



[i] GOMES, J.F. Estudos para a História da Universidade de Coimbra. Coimbra. 1991: 41 – 43. A fonte original encontra-se no AUC Reitoria da Universidade. Correspondência. Ofícios (1890-1892). fls. 131v. – 132v.
[ii] MONTEIRO, N. (2009, fevereiro 10). A Associação de Propaganda Feminista e a primeira eleitora portuguesa. Ecos da Marofa, 6
[iii] Lei n. 1916 de 25 de maio de 1935. Diário do Governo n.º 119/1935 - I Série I. Lisboa: Ministério da Instrução Pública
[iv] CARVALHO, D. 1924. Terra de Amores. Coimbra: Coimbra Editora, Lda. 71 - 72

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