quinta-feira, 1 de agosto de 2019

UMA RAPOSA NA UC


Dos Gerais da Faculdade de Direito ao corredor de acesso à Via Latina, encontra-se um dos azulejos mais famosos e mais sacrificados da UC, a famosa “Raposa”, que os estudantes chutavam para a afastar o chumbo (rapozos = chumbos), tornando-se esta uma das mais famosas lendas da universidade.

Atualmente a raposa está protegida por um vidro, dado a sua grande deterioração.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Quando os sinos se calam...


Desde o século XIX, que os sinos marcam a vida dos estudantes, mas também de toda a cidade. 

Apesar dos sinos terem toques/funções diferentes, o sino das 18h é conhecido como a cabra, onde a academia é avisada que no dia seguinte devem vir às aulas e o das 7h30 da manhã, esse com um nome bastante mais forte é o cabrão porque tinha como função despertar os estudantes.” 

E a verdade é que algumas vezes, na história da academia os sinos se calaram. 

Em 1910, com a Implantação da República e com a suspensão das cerimónias académicas, bem como das praxes, o silêncio na torre imperou. Tendo sido interrompido em 1918, mas outras vezes houve, em que quer a cabra, quer o cabrão por motivos mais ou menos nobres também se calaram. 

No ano de 1863, quando foi chumbado um aluno de direito, nessa mesma noite houve um pequeno incêndio na casa do professor que tinha chumbado esse dito aluno. Ele foi levado a tribunal e no dia da audiência os colegas quiseram ir assistir julgamento. Estava-se a viver numa época em que as aulas eram obrigatórias e pediram ao reitor que lhes concedesse permissão para fazerem ponte nesse dia e o reitor negou-lhes essa prerrogativa. Nessa mesma noite, estudantes subiram à torre e silenciaram os sinos. Não tocando o sino pela manhã, não há aulas. 

60 Anos depois… Houve em Portugal uma grave epidemia de gripe que matou muita gente. O ministério, dada a violência da gripe, mandou encerrar todos os estabelecimentos de ensino… com a exceção da universidade. Alguns estudantes terão pensado, então quer dizer, nós não somos gente?! Subiram à torre e de novo, roubaram o badalo.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

O PAÇO DAS ESCOLAS NO SÉC XVIII


O Paço das Escolas, no decorrer do século XVIII verá grandes modificações, que lhe darão um aspeto muito próximo daquilo que encontramos hoje. 
As obras mais importantes foram a Via Latina, a construção da Biblioteca, a nova torre da universidade e inseridas na Reforma Pombalina, a remodelação dos Gerais do alçado norte do terreiro.

O frontispício da Via Latina, com a composição escultórica de Laprade é construído em 1700/01, garantindo um corpo central com dignidade aquela fachada. A construção da Biblioteca, entre 1716 e 1728, juntamente com as Escadas de Minerva, constituem uma significativa adição pela sua envergadura, fechando o conjunto edificado da ala poente. A sumptuosidade da decoração barroca no interior da biblioteca, contrasta com a simplicidade do seu exterior. Substitui-se a antiga torre de Ruão, por uma desenhada pelo arquiteto italiano António de Canevari, com cerca de 34 metros de altura. A torre sineira, de linhas severas quebradas apenas pelo delicado frontão, teve um raro acabamento em terraço, a fim de nele instalar um observatório, projeto que acabou por não se concretizar. 

O plano de intervenção da Reforma Pombalina, fez-se sentir em obras como o Laboratório Chímico, Colégio de Jesus ou Jardim Botânico, ou a construção do Observatório, no topo sul do Pátio  das Escolas, concluído em 1799.

terça-feira, 23 de julho de 2019

A ESCULTURA DE D. JOÃO III



Foi já no século XX, em 1944, que se deu o contrato entre a Comissão Administrativa do Plano de Obras da Cidade Universitária de Coimbra (CAPOCUC) e o escultor Francisco Franco, para a realização da escultura de D. João III. A representação do rei virada para o paço, uma vez que fora ele que cedera o espaço, em 1537 para acolher os estudos.

Francisco Franco coloca D. João III sobre um pedestal, encostando o Rei ao volume que se adensa e sobe, por detrás até à cintura. Esta opção formal definiu uma personagem mais descontraída, como se tivesse sido esculpida no momento em que se encostava a um qualquer objeto a olhar para a sua obra.

D. João III no meio da Pátio das Escolas, o que na realidade transmite é que cumpriu o que tinha destinado, mesmo a partir de Lisboa, transferindo para Coimbra a Universidade que nunca mais de cá saiu.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

A REFORMA MANUELINA DO PAÇO



Reconstrução volumétrica do projeto manuelino do Paço Real da Alcáçova (desenho de José Luís Madeira) do livro "A Morada da Sabedoria", de António Filipe Pimentel

Com a deslocação do centro de decisão para sul, no reinado de D. Dinis. o Paço Real é progressivamente abandonado, até ao século XVI quado D. Manuel decide fazer nele uma grande reforma e em 1517 contrata Marcos Pires, mestre da Batalha para fazer a obra.

Uma parte importante da imagem atual do Paço das Escolas nasce das obras de arquitetura da reforma manuelina. A acentuada inclinação dos telhados, sobretudo no corpo central (norte) salientando a grande sala de atos, a forte presença dos cubelos na fachada norte, construídos sobre as fundações dos cubelos da fortificação original, o edifício da capela e o seu portal virado para o terreiro, com inspiração naturalista que prolonga os colunelos da ombrira sobre as portas, envolve 6 símbolos importantes da icnografia nacional daquele período. Compõe o portal as cinco Chagas de Cristo, sobre a coroa de espinhos e os cravos, noutro plano a Esfera Armilar, a Cruz de Cristo e ao centro o escudo de Portugal.

O plano de obra tinha um programa ambicioso, mas ficou incompleto pela morte de D. Manuel em 1521, e do construtor, Marcos Pires em 1522. 

Na realidade a capela de S. Miguel é o único edifício do Paço Manuelino que se encontra de acordo com o traçado original. 

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Santo António do Oratório do Cárcere Académico da UC


                        Oficina desconhecida || calcário de Ançã || século XVII (1ª metade)

« (...) Como qualquer outro espaço vivencial, também o oratório do cárcere possuía um conjunto de móveis, alfaias e paramentos indispesáveis às funções celebrativas que aí decorriam nos Domingos e principais dias festivos do Calendário da Igreja. Os mesmos capelães deveriam ainda auxiliar no apoio espiritual daqueles que procuravam a redenção pelos actos imprudentes praticados.
Mas é somente a partir do inventário dos Trastes, Moveis e Alfaias da Capela da Cadêa da Universidade, executado por José Joaquim de Faria (?), no dia 15 de Novembro de 179969, que ficamos a conhecer o orago a que havia sido dedicado o espaço cultual da cadeia académica: Santo António de Lisboa (c. 1191‑5| 1231).
Foi durante as nossas investigações que viemos a localizar nos anexos da capela de São Miguel da Universidade de Coimbra, nas áreas do antigo Museu de Arte Sacra, aquela que acreditamos ser a imagem devocional primitiva existente no oratório do cárcere académico, uma escultura “representando Santo António com o Menino (com respectivos resplendores de prata)”. Contudo, a peça localizada foi executada calcário de Ançã, e não em “barro” ou “pao” como os inventariantes, contraditoriamente, descreveram nos arrolamentos.
NOTA:
Apesar das obras hagiográficas tradicionais não o identificarem como padroeiro dos prisioneiros
é possível que a escolha de Santo António para o orago da capela da cadeia esteja relacionado
com o episódio em que o santo, através do dom da ubiquidade, apareceu em Lisboa para livrar o pai
da acusação por homicídio. De igual modo, é ainda muito sugestiva a estrofe de um responsório
popular que invoca a intercessão do santo junto dos condenados:
"Meu Santo António
Das prisões quebra as correntes."
(...)

Texto retirado do trabalho de "De corpo e alma: O oratório do Cárcere Académico da Universidade de Coimbra.
Primeiras linhas de investigação" de MILTON PEDRO DIAS PACHECO

Doutorando na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Bolseiro pela Fundação para a Ciência e Tecnologia
Centro de História de Além‑Mar
(CHAM) da Universidade Nova de Lisboa/
Universidade dos Açores
Centro Interdisciplinar de Estudos Camonianos (CIEC) da Universidade de Coimbra

sexta-feira, 24 de maio de 2019



Gabinete de Física 



O gabinete da física experimental foi mandado construir por D. José I “para depósito de Machinas e Instrumentos, os quaes são necessários para que as liçoens da Fysica que se dão no curso Filosófico se façam com aproveitamento dos estudantes; os quaes não somente devem ver e executar as experiências com que se demonstram as verdades ate o prezente conhecidas nas fysica; mas também adquirir o habito de as fazer com a sagacidade, e destreza, que se requer nos Exploradores da natureza”. Assim refere o documento intitulado “A Relação Geral do estado da Universidade”, que fora preparado em 1777 por D. Francisco de Lemos para ser apresentado à Rainha D. Maria I. Para a localização do gabinete, o Marquês tinha destinado uma parte do “Collegio que fora dos Jezuitas”. 

Nas duas salas do Gabinete de Física podemos encontrar expostos os instrumentos que, durante os séculos XVIII e XIX, foram usados no ensino da Física Experimental. O Gabinete de Física foi equipado com seis centenas de máquinas. Cada uma delas tinha uma conceção que a tornava adequada a um dos capítulos do programa descrito no curso redigido por Dalla Bella. O Gabinete de Física de Coimbra mostra bem a profunda influência que as ideias e os instrumentos provenientes de outros lados da Europa tiveram em Portugal no século das luzes. 



Antes de 1772, ano da publicação dos “Estatutos Novos” da Universidade de Coimbra (considerados como a maior reforma no ensino universitário português), pode dizer-se que o ensino experimental era inexistente em Portugal. 

A tentativa de introdução, nesta instituição de ensino secundário, da Física Experimental não foi, no entanto, bem-sucedida. A fundação do Gabinete de Física Experimental na Universidade de Coimbra envolveu a transferência, em 1773, das “máquinas” de Lisboa para Coimbra. A aquisição, ao longo do tempo, de outros instrumentos científicos veio a dar origem à vasta coleção que hoje podemos visitar em duas salas, uma contendo os instrumentos do século XVIII, outra contendo os do século XIX. 

O cenário com que nos depararíamos se, no primeiro andar do Colégio de Jesus, tivéssemos uma máquina que nos permitisse viajar no tempo, recuando dois séculos, não seria muito diferente do que vemos hoje quando visitamos o Gabinete de Física. É nas salas que lhe foram destinadas no final do século XVIII, e no mobiliário original, que podemos encontrar instrumentos usados ao longo dos séculos XVIII e XIX para ensinar Física Experimental na Universidade de Coimbra. O primeiro laboratório de Física a funcionar no nosso país não corresponde, no entanto, à primeira tentativa de implementação desta ciência experimental em Portugal – esta ocorreu na década anterior, em Lisboa. Os rapazes que frequentavam o Colégio dos Nobres, instituição pré-universitária sediada na capital, foram os primeiros destinatários de parte destas máquinas. A sua falta de interesse e preparação para as lições de Física Experimental ditou o insucesso desta iniciativa e a consequente transferência da coleção para Coimbra. O acervo atual corresponde a esta “coleção fundadora” mais os instrumentos adquiridos ao longo das décadas seguintes.

O Colégio das Artes foi a “sala de espera” das máquinas chegadas a Coimbra numa manhã de 1773 – até poderem ser albergadas nas salas onde, segundo os estatutos de 1772, deveriam ser mantidas e as lições ministradas[1]. Nos estatutos encontramos uma menção à organização dos instrumentos: devem ser dispostos de forma a acompanhar a sequência dos temas abordados nas lições (esta sequência de objetos é conseguida pelas letras no topo dos armários; note-se a ausência das letras J e U). As máquinas pequenas, guardadas em armários, encontravam-se numa sala e, na outra, as máquinas grandes, que não cabiam em armários. Hoje encontramos os instrumentos do século XVIII numa e, na outra, os do século XIX.


Sala do Século XVIII

Giovanni Antonio Dalla Bella (1730-1823) foi diretor do Gabinete de Física desde a sua fundação até 1790. Este professor italiano havia já sido o responsável pelo fracassado gabinete do Colégio dos Nobres. A sala com o seu nome alberga os exemplares mais antigos da coleção, muitos deles provenientes do referido colégio. O mais antigo de todos não faz, porém, parte deste grupo, nem foi construído no século XVIII. Trata-se de um autómato em forma de centauro, contruído na Alemanha em 1595-1600 e adquirido em 1779 pela Universidade, como parte integrante da coleção particular de Domingos Vandelli (primeiro diretor do Laboratório Chimico e do Gabinete de História Natural).

Dada a sua “origem nobre”, podemos apreciar os detalhes estéticos/artísticos dos instrumentos que aqui se encontram (para além das luxuosas peças de mobiliário Chippendale). Exemplos disso são o conjunto para estudo da porosidade, com duas figuras femininas aladas em bronze dourado que, sendo o elemento visual proeminente deste conjunto, não têm qualquer função prática. Pode referir-se ainda o equilibrista (usado para demonstrar a importância da posição do centro de massa para o equilíbrio de um corpo), que representa uma figura masculina, trajada à época, repleta de detalhes que em nada contribuem para a demonstração pretendida.



Sala do Século XIX

A primeira sala do Gabinete de Física é nomeada em homenagem a José Homem de Figueiredo Freire (1786-1837), o seu terceiro diretor. Aqui, onde inicialmente se guardavam as máquinas grandes, podemos ver instrumentos do século XIX, ainda que alguns correspondam a invenções de séculos anteriores. É o caso das Garrafas de Leiden – os primeiros condensadores (instrumentos que permitem “armazenar” cargas elétricas) –, que têm o nome da cidade Holandesa onde foram inventados no século XVIII. Os hemisférios de Magdeburgo (cidade natal de Otto von Guericke, cientista alemão que, no século XVII, estabelece a Física do Vácuo) ou a bomba de incêndio de Nollet (físico experimental francês, séc. XVIII) são também exemplos disso.


Exemplos de tecnologia desenvolvida no século XIX são os telégrafos e o conjunto para daguerreotipia. Os primeiros são representados por dois modelos: o telégrafo de Morse e o (talvez) menos conhecido telégrafo de Breguet. Este, inventado em França, e posterior ao de Morse, pode ser encarado como um alargamento do acesso à utilização desta tecnologia: permite o uso da telegrafia elétrica sem a necessidade de aprender um novo código; apontando para uma letra no emissor, vemos o recetor fazer o mesmo movimento e assim passamos mensagens letra a letra. O conjunto para daguerreotipia (outra invenção francesa), adquirido em 1842, está exposto juntamente com a cópia de uma fotografia do Paço das Escolas, tirada usando este mesmo conjunto.