segunda-feira, 22 de julho de 2019

A REFORMA MANUELINA DO PAÇO



Reconstrução volumétrica do projeto manuelino do Paço Real da Alcáçova (desenho de José Luís Madeira) do livro "A Morada da Sabedoria", de António Filipe Pimentel

Com a deslocação do centro de decisão para sul, no reinado de D. Dinis. o Paço Real é progressivamente abandonado, até ao século XVI quado D. Manuel decide fazer nele uma grande reforma e em 1517 contrata Marcos Pires, mestre da Batalha para fazer a obra.

Uma parte importante da imagem atual do Paço das Escolas nasce das obras de arquitetura da reforma manuelina. A acentuada inclinação dos telhados, sobretudo no corpo central (norte) salientando a grande sala de atos, a forte presença dos cubelos na fachada norte, construídos sobre as fundações dos cubelos da fortificação original, o edifício da capela e o seu portal virado para o terreiro, com inspiração naturalista que prolonga os colunelos da ombrira sobre as portas, envolve 6 símbolos importantes da icnografia nacional daquele período. Compõe o portal as cinco Chagas de Cristo, sobre a coroa de espinhos e os cravos, noutro plano a Esfera Armilar, a Cruz de Cristo e ao centro o escudo de Portugal.

O plano de obra tinha um programa ambicioso, mas ficou incompleto pela morte de D. Manuel em 1521, e do construtor, Marcos Pires em 1522. 

Na realidade a capela de S. Miguel é o único edifício do Paço Manuelino que se encontra de acordo com o traçado original. 

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Santo António do Oratório do Cárcere Académico da UC


                        Oficina desconhecida || calcário de Ançã || século XVII (1ª metade)

« (...) Como qualquer outro espaço vivencial, também o oratório do cárcere possuía um conjunto de móveis, alfaias e paramentos indispesáveis às funções celebrativas que aí decorriam nos Domingos e principais dias festivos do Calendário da Igreja. Os mesmos capelães deveriam ainda auxiliar no apoio espiritual daqueles que procuravam a redenção pelos actos imprudentes praticados.
Mas é somente a partir do inventário dos Trastes, Moveis e Alfaias da Capela da Cadêa da Universidade, executado por José Joaquim de Faria (?), no dia 15 de Novembro de 179969, que ficamos a conhecer o orago a que havia sido dedicado o espaço cultual da cadeia académica: Santo António de Lisboa (c. 1191‑5| 1231).
Foi durante as nossas investigações que viemos a localizar nos anexos da capela de São Miguel da Universidade de Coimbra, nas áreas do antigo Museu de Arte Sacra, aquela que acreditamos ser a imagem devocional primitiva existente no oratório do cárcere académico, uma escultura “representando Santo António com o Menino (com respectivos resplendores de prata)”. Contudo, a peça localizada foi executada calcário de Ançã, e não em “barro” ou “pao” como os inventariantes, contraditoriamente, descreveram nos arrolamentos.
NOTA:
Apesar das obras hagiográficas tradicionais não o identificarem como padroeiro dos prisioneiros
é possível que a escolha de Santo António para o orago da capela da cadeia esteja relacionado
com o episódio em que o santo, através do dom da ubiquidade, apareceu em Lisboa para livrar o pai
da acusação por homicídio. De igual modo, é ainda muito sugestiva a estrofe de um responsório
popular que invoca a intercessão do santo junto dos condenados:
"Meu Santo António
Das prisões quebra as correntes."
(...)

Texto retirado do trabalho de "De corpo e alma: O oratório do Cárcere Académico da Universidade de Coimbra.
Primeiras linhas de investigação" de MILTON PEDRO DIAS PACHECO

Doutorando na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Bolseiro pela Fundação para a Ciência e Tecnologia
Centro de História de Além‑Mar
(CHAM) da Universidade Nova de Lisboa/
Universidade dos Açores
Centro Interdisciplinar de Estudos Camonianos (CIEC) da Universidade de Coimbra

sexta-feira, 24 de maio de 2019



Gabinete de Física 



O gabinete da física experimental foi mandado construir por D. José I “para depósito de Machinas e Instrumentos, os quaes são necessários para que as liçoens da Fysica que se dão no curso Filosófico se façam com aproveitamento dos estudantes; os quaes não somente devem ver e executar as experiências com que se demonstram as verdades ate o prezente conhecidas nas fysica; mas também adquirir o habito de as fazer com a sagacidade, e destreza, que se requer nos Exploradores da natureza”. Assim refere o documento intitulado “A Relação Geral do estado da Universidade”, que fora preparado em 1777 por D. Francisco de Lemos para ser apresentado à Rainha D. Maria I. Para a localização do gabinete, o Marquês tinha destinado uma parte do “Collegio que fora dos Jezuitas”. 

Nas duas salas do Gabinete de Física podemos encontrar expostos os instrumentos que, durante os séculos XVIII e XIX, foram usados no ensino da Física Experimental. O Gabinete de Física foi equipado com seis centenas de máquinas. Cada uma delas tinha uma conceção que a tornava adequada a um dos capítulos do programa descrito no curso redigido por Dalla Bella. O Gabinete de Física de Coimbra mostra bem a profunda influência que as ideias e os instrumentos provenientes de outros lados da Europa tiveram em Portugal no século das luzes. 



Antes de 1772, ano da publicação dos “Estatutos Novos” da Universidade de Coimbra (considerados como a maior reforma no ensino universitário português), pode dizer-se que o ensino experimental era inexistente em Portugal. 

A tentativa de introdução, nesta instituição de ensino secundário, da Física Experimental não foi, no entanto, bem-sucedida. A fundação do Gabinete de Física Experimental na Universidade de Coimbra envolveu a transferência, em 1773, das “máquinas” de Lisboa para Coimbra. A aquisição, ao longo do tempo, de outros instrumentos científicos veio a dar origem à vasta coleção que hoje podemos visitar em duas salas, uma contendo os instrumentos do século XVIII, outra contendo os do século XIX. 

O cenário com que nos depararíamos se, no primeiro andar do Colégio de Jesus, tivéssemos uma máquina que nos permitisse viajar no tempo, recuando dois séculos, não seria muito diferente do que vemos hoje quando visitamos o Gabinete de Física. É nas salas que lhe foram destinadas no final do século XVIII, e no mobiliário original, que podemos encontrar instrumentos usados ao longo dos séculos XVIII e XIX para ensinar Física Experimental na Universidade de Coimbra. O primeiro laboratório de Física a funcionar no nosso país não corresponde, no entanto, à primeira tentativa de implementação desta ciência experimental em Portugal – esta ocorreu na década anterior, em Lisboa. Os rapazes que frequentavam o Colégio dos Nobres, instituição pré-universitária sediada na capital, foram os primeiros destinatários de parte destas máquinas. A sua falta de interesse e preparação para as lições de Física Experimental ditou o insucesso desta iniciativa e a consequente transferência da coleção para Coimbra. O acervo atual corresponde a esta “coleção fundadora” mais os instrumentos adquiridos ao longo das décadas seguintes.

O Colégio das Artes foi a “sala de espera” das máquinas chegadas a Coimbra numa manhã de 1773 – até poderem ser albergadas nas salas onde, segundo os estatutos de 1772, deveriam ser mantidas e as lições ministradas[1]. Nos estatutos encontramos uma menção à organização dos instrumentos: devem ser dispostos de forma a acompanhar a sequência dos temas abordados nas lições (esta sequência de objetos é conseguida pelas letras no topo dos armários; note-se a ausência das letras J e U). As máquinas pequenas, guardadas em armários, encontravam-se numa sala e, na outra, as máquinas grandes, que não cabiam em armários. Hoje encontramos os instrumentos do século XVIII numa e, na outra, os do século XIX.


Sala do Século XVIII

Giovanni Antonio Dalla Bella (1730-1823) foi diretor do Gabinete de Física desde a sua fundação até 1790. Este professor italiano havia já sido o responsável pelo fracassado gabinete do Colégio dos Nobres. A sala com o seu nome alberga os exemplares mais antigos da coleção, muitos deles provenientes do referido colégio. O mais antigo de todos não faz, porém, parte deste grupo, nem foi construído no século XVIII. Trata-se de um autómato em forma de centauro, contruído na Alemanha em 1595-1600 e adquirido em 1779 pela Universidade, como parte integrante da coleção particular de Domingos Vandelli (primeiro diretor do Laboratório Chimico e do Gabinete de História Natural).

Dada a sua “origem nobre”, podemos apreciar os detalhes estéticos/artísticos dos instrumentos que aqui se encontram (para além das luxuosas peças de mobiliário Chippendale). Exemplos disso são o conjunto para estudo da porosidade, com duas figuras femininas aladas em bronze dourado que, sendo o elemento visual proeminente deste conjunto, não têm qualquer função prática. Pode referir-se ainda o equilibrista (usado para demonstrar a importância da posição do centro de massa para o equilíbrio de um corpo), que representa uma figura masculina, trajada à época, repleta de detalhes que em nada contribuem para a demonstração pretendida.



Sala do Século XIX

A primeira sala do Gabinete de Física é nomeada em homenagem a José Homem de Figueiredo Freire (1786-1837), o seu terceiro diretor. Aqui, onde inicialmente se guardavam as máquinas grandes, podemos ver instrumentos do século XIX, ainda que alguns correspondam a invenções de séculos anteriores. É o caso das Garrafas de Leiden – os primeiros condensadores (instrumentos que permitem “armazenar” cargas elétricas) –, que têm o nome da cidade Holandesa onde foram inventados no século XVIII. Os hemisférios de Magdeburgo (cidade natal de Otto von Guericke, cientista alemão que, no século XVII, estabelece a Física do Vácuo) ou a bomba de incêndio de Nollet (físico experimental francês, séc. XVIII) são também exemplos disso.


Exemplos de tecnologia desenvolvida no século XIX são os telégrafos e o conjunto para daguerreotipia. Os primeiros são representados por dois modelos: o telégrafo de Morse e o (talvez) menos conhecido telégrafo de Breguet. Este, inventado em França, e posterior ao de Morse, pode ser encarado como um alargamento do acesso à utilização desta tecnologia: permite o uso da telegrafia elétrica sem a necessidade de aprender um novo código; apontando para uma letra no emissor, vemos o recetor fazer o mesmo movimento e assim passamos mensagens letra a letra. O conjunto para daguerreotipia (outra invenção francesa), adquirido em 1842, está exposto juntamente com a cópia de uma fotografia do Paço das Escolas, tirada usando este mesmo conjunto.

terça-feira, 21 de maio de 2019

A PRISÃO ACADÉMICA




As estruturas atualmente existentes reportam do que foi, até 1834, o cárcere académico (quando, por virtude da revolução liberal, se extingue a jurisdição do conservador da Universidade sobre professores, estudantes e familiares). Correspondem a três fases distintas, de utilização do espaço: a primeira ligada às estruturas originais do palácio régio e, as restantes, já da ocupação universitária.

Quanto ao cárcere académico propriamente dito, a sua existência decorre do foro privativo, que protegia as antigas universidades enquanto corporações, preservando professores, funcionários e (sobretudo) escolares do convívio com criminosos de delito comum. Não raro, as punições deviam-se sobretudo a razões de índole puramente disciplinar.

Reivindicada, por esse facto, pela Universidade junto do Rei desde 1541, a existência da cadeia seria finalmente reconhecida nos Estatutos de 1591, instalando-se, em 1593, em dois antigos aposentos existentes sob a Sala dos Capelos. Aí se conservaria até ao século XVIII. Só em 1773, no âmbito da reforma pombalina dos estudos e dos trabalhos gerais de dignificação do palácio escolar, a cadeia viria a ser transferida para os pisos inferiores da Biblioteca Joanina, em dependências construídas para essa função.

Durante a sua transferência foram realizadas obras de adaptação, levadas a cabo em 1782, por forma a acrescentar aos restos ainda existentes do cárcere medieval (fundamentalmente os segredos e o pequeno corredor adjacente) um reduzido número de celas comuns, sala de visitas, oratório, etc. Foram também tidas em consideração questões de conforto (construção de latrinas) e de segurança. Esta operação obrigaria a que o cárcere passasse a ocupar parte do piso intermédio.

Embora parte das suas dependências tenham sido adaptadas a depósito bibliográfico e muito do seu recheio e equipamento se tenha perdido, a Cadeia Académica constitui um raríssimo testemunho europeu de uma antiga cadeia privativa.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Os Guardiões da Joanina


A Biblioteca Joanina, exemplo de uma perfeita harmonia entre a arte e a cultura. No seu interior, revestido de belas estantes e varandas, cobertas de ricas talhas e pinturas a ouro, sobre fundos azuis e vermelhos, ornamentados com motivos orientais (Chinoiserie), podemos encontrar valiosíssimas coleções de obras publicadas por toda a Europa, até ao ano de 1800, com especial incidência nas áreas que serviram de base à constituição da própria Universidade: Direito (Civil e Canónico), Medicina e Teologia.

Todo o edifício foi idealizado com vista à preservação natural dos seus livros, através da concretização de uma climatização natural, proporcionada quer pela própria orientação da Biblioteca, bem como da espessura das suas paredes (211 cm), as quais proporcionam as conduções necessárias à conservação natural dos livros.

Contudo, o mais extraordinário facto ambiental da Biblioteca Joanina, e aquele que junto do grande público suscita grande admiração é a permanência, no seu interior de alguns dos seus principais guardiões: os morcegos da Joanina.



Tornados famosos pelo próprio escritor italiano Umberto Eco, a propósito de uma visita à Biblioteca Joanina em 1966, estes pequenos mamíferos vivem numa pequena colónia, no interior da própria Biblioteca, na qual encontram abrigo no cimo das altas estantes. Aqueles que hoje habitam a Biblioteca ainda são os descendentes daqueles há quase trezentos anos ali se introduziram, quando o edifício foi guarnecido de livros pela primeira vez.

Em troco do abrigo proporcionado pela Biblioteca, estes animais da noite retribuem através da proteção dada aos livros nela contidos, através da caça de insetos bibliófagos, a presença dos quais poderia danificar os livros, quer o papel das suas páginas, que as próprias capas de couro.

Devido à sua capacidade de fácil deteção de insetos, voadores e/ou rastejantes, os morcegos facilmente os alcançam, alimentando-se deles, numa perfeita relação simbiótica: a Biblioteca oferece o abrigo e, em troca, o morcego protege os livros. O único efeito secundário perigoso desta relação é o excremento do morcego que, tendo propriedades ácidas, poderia danificar as mesas da Bibliotecas, também elas parte do seu valiosíssimo espólio. Por essa mesma razão, ao fim do dia, tais mesas são cobertas, para sua proteção.

Para dissabor daqueles que visitam a Biblioteca Joanina, os morcegos raramente aparecem durante o dia. No entanto, aquando da realização de espetáculos no Piso Nobre, estes guardiões da noite têm sido vistos, como que atraídos pelos sons do piano, a sobrevoar os seus ouvintes, proporcionando, assim, um espetáculo adicional e único para todos os presentes.

Ao fim do dia, é comum poder-se observar o seu voo em torno da Torre da Universidade, num claro sinal de que a sua vigília se iniciou.

Gustavo Gonçalves



quarta-feira, 3 de abril de 2019

Jardim Botânico da Universidade de Coimbra


A ideia da criação de um Jardim Botânico surge no seio da Reforma Iluminista, que o Marquês de Pombal levou a cabo na Universidade de Coimbra. O intuito desta reforma era modernizar o ensino e abrir portas a novas perspetivas para o ensino superior, centrando-se numa preocupação racionalista e experimentalista dos métodos, dando primazia ao conhecimento empírico.

É com a criação da Faculdade de Filosofia que vemos surgir um jardim, que possibilitará o desenvolvimento científico dos estudos da área Botânica, mas tal só seria possível com a construção de novos espaços adequados ao propósito. Já havia sido apontada essa necessidade de estabelecer um Horto Botânico em Coimbra, com o efémero projeto elaborado por Jacob de Castro Sarmento, em 1731.

De modo a concretizar essa necessidade, o Marquês manda, sobre o patrocínio do reitor D. Francisco Lemos, construir um jardim inspirado em outros já existentes nas grandes cidades universitárias da europa, nomeadamente de Pádua. Surge, então, ligado à fundação do Museu de História Natural, por decreto, em 1772, o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. Os seus trabalhos só foram iniciados em 1774, ocupando os terrenos onde estava a Quinta do Colégio de S. Bento.

Os seus primeiros diretores foram Domingos Vandelli, e a partir de 1791, Avelar Brotero. O último foi Luís Wittnich Carisso, entre 1918-1937.

Teve vários botânicos encarregues da sua direção, possui exemplares de plantas exóticas de vários sítios de Portugal continental, Açores, Europa, Austrália, Oceânia, Angola, Brasil, etc…, que foram sendo implementados ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX, transformando este jardim não só num polo do conhecimento botânico, mas também numa das grandes maravilhas de Portugal e da Europa.

O jardim possui uma biblioteca com mais de 125 000 volumes, um herbário com cerca de 1 milhão de espécies originárias de todos os cantos do planeta. Possuí, inclusive, uma das maiores e mais completas coleções de Eucaliptos, com cerca de 51 espécies diferentes.

A dimensão do jardim é de 13,5 hectares, constituídos por dois núcleos primordiais: o núcleo do quadrado central, desenhado à moda italiana com arbustos pequenos e sempre muito bem aparados, envolvido com árvores e plantas raras (ou ainda as estufas), de modo a recriar um jardim interior intimista resguardado por vegetação de médio-grande porte; e a Mata que se vai espalhando como se se disseminasse por toda a restante encosta do monte.

Os laboratórios criados em torno do Jardim ainda hoje proporcionam e impulsionam boas condições para o desenvolvimento de atividades de investigação científica na Botânica.


João Archer de Carvalho


terça-feira, 2 de abril de 2019

O desejo marcado no livro 

Ao longo dos séculos da sua existência a Biblioteca Joanina recebeu doações que alargaram o seu acervo de livros. Nessas coleções, além do conhecimento e dos sinais do tempo, existem também algumas marcas provocadas de forma intencional sinalizando e demonstrando práticas e costumes sociais de uma época. Exemplo dessas marcas intencionais pode ser observado na coleção Histoire Naturelle de Buffon, anteriormente pertencente ao Colégio dos Militares de Lisboa, e hoje presente na estante 25 do piso intermédio da Biblioteca Joanina. Essa coleção, composta por 13 volumes, em relativo bom estado de conservação, além do típico desgaste traz também marcas realizadas de forma intencional. O volume IV, diferente dos demais, possui a lombada de numeração raspada, quase apagada, diferente dos outros volumes ainda legíveis. Essa marca denuncia uma sinalização deliberada e o motivo pode ser percebido no interior do livro.

Neste volume Buffon trata, entre outros temas, sobre as forças da natureza que produzem os denominados “prodígios” como gêmeos siameses, o vitiligo e o albinismo. Ilustrando essas patologias presentes na natureza, a obra traz como exemplo vários desenhos de mulheres nuas. Evidentemente no século XVIII e XIX a nudez era um tabu, sendo muitas vezes censurada e vedada aos jovens estudantes. Se tratando de um Colégio Militar, provavelmente a marca foi feita pelos professores que, certamente, não recomendavam a obra… ou mesmo pelos próprios alunos desejosos de saciar sua curiosidade sobre o corpo feminino.

                                                                                                              de Gustavo Oliveira Ferreira