terça-feira, 21 de maio de 2019

A PRISÃO ACADÉMICA




As estruturas atualmente existentes reportam do que foi, até 1834, o cárcere académico (quando, por virtude da revolução liberal, se extingue a jurisdição do conservador da Universidade sobre professores, estudantes e familiares). Correspondem a três fases distintas, de utilização do espaço: a primeira ligada às estruturas originais do palácio régio e, as restantes, já da ocupação universitária.

Quanto ao cárcere académico propriamente dito, a sua existência decorre do foro privativo, que protegia as antigas universidades enquanto corporações, preservando professores, funcionários e (sobretudo) escolares do convívio com criminosos de delito comum. Não raro, as punições deviam-se sobretudo a razões de índole puramente disciplinar.

Reivindicada, por esse facto, pela Universidade junto do Rei desde 1541, a existência da cadeia seria finalmente reconhecida nos Estatutos de 1591, instalando-se, em 1593, em dois antigos aposentos existentes sob a Sala dos Capelos. Aí se conservaria até ao século XVIII. Só em 1773, no âmbito da reforma pombalina dos estudos e dos trabalhos gerais de dignificação do palácio escolar, a cadeia viria a ser transferida para os pisos inferiores da Biblioteca Joanina, em dependências construídas para essa função.

Durante a sua transferência foram realizadas obras de adaptação, levadas a cabo em 1782, por forma a acrescentar aos restos ainda existentes do cárcere medieval (fundamentalmente os segredos e o pequeno corredor adjacente) um reduzido número de celas comuns, sala de visitas, oratório, etc. Foram também tidas em consideração questões de conforto (construção de latrinas) e de segurança. Esta operação obrigaria a que o cárcere passasse a ocupar parte do piso intermédio.

Embora parte das suas dependências tenham sido adaptadas a depósito bibliográfico e muito do seu recheio e equipamento se tenha perdido, a Cadeia Académica constitui um raríssimo testemunho europeu de uma antiga cadeia privativa.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Os Guardiões da Joanina


A Biblioteca Joanina, exemplo de uma perfeita harmonia entre a arte e a cultura. No seu interior, revestido de belas estantes e varandas, cobertas de ricas talhas e pinturas a ouro, sobre fundos azuis e vermelhos, ornamentados com motivos orientais (Chinoiserie), podemos encontrar valiosíssimas coleções de obras publicadas por toda a Europa, até ao ano de 1800, com especial incidência nas áreas que serviram de base à constituição da própria Universidade: Direito (Civil e Canónico), Medicina e Teologia.

Todo o edifício foi idealizado com vista à preservação natural dos seus livros, através da concretização de uma climatização natural, proporcionada quer pela própria orientação da Biblioteca, bem como da espessura das suas paredes (211 cm), as quais proporcionam as conduções necessárias à conservação natural dos livros.

Contudo, o mais extraordinário facto ambiental da Biblioteca Joanina, e aquele que junto do grande público suscita grande admiração é a permanência, no seu interior de alguns dos seus principais guardiões: os morcegos da Joanina.



Tornados famosos pelo próprio escritor italiano Umberto Eco, a propósito de uma visita à Biblioteca Joanina em 1966, estes pequenos mamíferos vivem numa pequena colónia, no interior da própria Biblioteca, na qual encontram abrigo no cimo das altas estantes. Aqueles que hoje habitam a Biblioteca ainda são os descendentes daqueles há quase trezentos anos ali se introduziram, quando o edifício foi guarnecido de livros pela primeira vez.

Em troco do abrigo proporcionado pela Biblioteca, estes animais da noite retribuem através da proteção dada aos livros nela contidos, através da caça de insetos bibliófagos, a presença dos quais poderia danificar os livros, quer o papel das suas páginas, que as próprias capas de couro.

Devido à sua capacidade de fácil deteção de insetos, voadores e/ou rastejantes, os morcegos facilmente os alcançam, alimentando-se deles, numa perfeita relação simbiótica: a Biblioteca oferece o abrigo e, em troca, o morcego protege os livros. O único efeito secundário perigoso desta relação é o excremento do morcego que, tendo propriedades ácidas, poderia danificar as mesas da Bibliotecas, também elas parte do seu valiosíssimo espólio. Por essa mesma razão, ao fim do dia, tais mesas são cobertas, para sua proteção.

Para dissabor daqueles que visitam a Biblioteca Joanina, os morcegos raramente aparecem durante o dia. No entanto, aquando da realização de espetáculos no Piso Nobre, estes guardiões da noite têm sido vistos, como que atraídos pelos sons do piano, a sobrevoar os seus ouvintes, proporcionando, assim, um espetáculo adicional e único para todos os presentes.

Ao fim do dia, é comum poder-se observar o seu voo em torno da Torre da Universidade, num claro sinal de que a sua vigília se iniciou.

Gustavo Gonçalves



quarta-feira, 3 de abril de 2019

Jardim Botânico da Universidade de Coimbra


A ideia da criação de um Jardim Botânico surge no seio da Reforma Iluminista, que o Marquês de Pombal levou a cabo na Universidade de Coimbra. O intuito desta reforma era modernizar o ensino e abrir portas a novas perspetivas para o ensino superior, centrando-se numa preocupação racionalista e experimentalista dos métodos, dando primazia ao conhecimento empírico.

É com a criação da Faculdade de Filosofia que vemos surgir um jardim, que possibilitará o desenvolvimento científico dos estudos da área Botânica, mas tal só seria possível com a construção de novos espaços adequados ao propósito. Já havia sido apontada essa necessidade de estabelecer um Horto Botânico em Coimbra, com o efémero projeto elaborado por Jacob de Castro Sarmento, em 1731.

De modo a concretizar essa necessidade, o Marquês manda, sobre o patrocínio do reitor D. Francisco Lemos, construir um jardim inspirado em outros já existentes nas grandes cidades universitárias da europa, nomeadamente de Pádua. Surge, então, ligado à fundação do Museu de História Natural, por decreto, em 1772, o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. Os seus trabalhos só foram iniciados em 1774, ocupando os terrenos onde estava a Quinta do Colégio de S. Bento.

Os seus primeiros diretores foram Domingos Vandelli, e a partir de 1791, Avelar Brotero. O último foi Luís Wittnich Carisso, entre 1918-1937.

Teve vários botânicos encarregues da sua direção, possui exemplares de plantas exóticas de vários sítios de Portugal continental, Açores, Europa, Austrália, Oceânia, Angola, Brasil, etc…, que foram sendo implementados ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX, transformando este jardim não só num polo do conhecimento botânico, mas também numa das grandes maravilhas de Portugal e da Europa.

O jardim possui uma biblioteca com mais de 125 000 volumes, um herbário com cerca de 1 milhão de espécies originárias de todos os cantos do planeta. Possuí, inclusive, uma das maiores e mais completas coleções de Eucaliptos, com cerca de 51 espécies diferentes.

A dimensão do jardim é de 13,5 hectares, constituídos por dois núcleos primordiais: o núcleo do quadrado central, desenhado à moda italiana com arbustos pequenos e sempre muito bem aparados, envolvido com árvores e plantas raras (ou ainda as estufas), de modo a recriar um jardim interior intimista resguardado por vegetação de médio-grande porte; e a Mata que se vai espalhando como se se disseminasse por toda a restante encosta do monte.

Os laboratórios criados em torno do Jardim ainda hoje proporcionam e impulsionam boas condições para o desenvolvimento de atividades de investigação científica na Botânica.


João Archer de Carvalho


terça-feira, 2 de abril de 2019

O desejo marcado no livro 

Ao longo dos séculos da sua existência a Biblioteca Joanina recebeu doações que alargaram o seu acervo de livros. Nessas coleções, além do conhecimento e dos sinais do tempo, existem também algumas marcas provocadas de forma intencional sinalizando e demonstrando práticas e costumes sociais de uma época. Exemplo dessas marcas intencionais pode ser observado na coleção Histoire Naturelle de Buffon, anteriormente pertencente ao Colégio dos Militares de Lisboa, e hoje presente na estante 25 do piso intermédio da Biblioteca Joanina. Essa coleção, composta por 13 volumes, em relativo bom estado de conservação, além do típico desgaste traz também marcas realizadas de forma intencional. O volume IV, diferente dos demais, possui a lombada de numeração raspada, quase apagada, diferente dos outros volumes ainda legíveis. Essa marca denuncia uma sinalização deliberada e o motivo pode ser percebido no interior do livro.

Neste volume Buffon trata, entre outros temas, sobre as forças da natureza que produzem os denominados “prodígios” como gêmeos siameses, o vitiligo e o albinismo. Ilustrando essas patologias presentes na natureza, a obra traz como exemplo vários desenhos de mulheres nuas. Evidentemente no século XVIII e XIX a nudez era um tabu, sendo muitas vezes censurada e vedada aos jovens estudantes. Se tratando de um Colégio Militar, provavelmente a marca foi feita pelos professores que, certamente, não recomendavam a obra… ou mesmo pelos próprios alunos desejosos de saciar sua curiosidade sobre o corpo feminino.

                                                                                                              de Gustavo Oliveira Ferreira 






segunda-feira, 1 de abril de 2019

Os reis ausentes na Sala dos Capelos

1640, o ano no qual os “Quarenta Conjurados” planearam e consumaram a conspiração que, a 1 de dezembro, restaurou a independência de Portugal sob a égide de D. João IV, o duque de Bragança. Durante as três décadas seguintes foram travados uma série de confrontos armados entre o reino de Portugal e a Coroa de Castela, os quais culminaram com a vitória decisiva de Portugal e à obrigação, por parte do seu vizinho ibérico, ao reconhecimento oficial da soberania portuguesa, a par das suas possessões coloniais. Durante todo o processo restaurador, a causa portuguesa contou com apoios vindos não só do estrangeiro, mas também de todos os estratos da própria sociedade portuguesa. Entre as diversas personalidades que deram voz a esta causa, destacamos a figura de D. Manuel de Saldanha o qual, a par de ter exercido as funções de reitor da Universidade de Coimbra (1639-1659), comandou, enquanto general, as forças académicas nos teatros de guerra ibéricos. 

A D. Manuel de Saldanha se ficou, de igual forma, a dever a remodelação da antiga sala do trono do palácio real, a atual Sala dos Capelos. Guiado por um ideal de afirmação e consolidação da identidade nacional o novo reitor procurou alcançar tal fim através do recurso a elementos ornamentais elucidativos do período anterior à perda da soberania. Exemplo disso é a aplicação de um cordão em talha dourada, que delimita cada um dos caixotões  presentes no teto da sala, bem como a própria pintura destes que denota características que procuravam ir contra a estética real filipina. 



No entanto, no conjunto decorativo da Sala dos Capelos, os elementos que mais se destacam são os retratos dos trinta e um monarcas portugueses. De Afonso Henriques a D. João IV, todos os retratos são da autoria do dinamarquês Carlos Falch. Daí em diante, até D. Manuel II, os retratos foram pintados à medida que os monarcas se iam sucedendo. 

Fruto do acérrimo patriotismo de D. Manuel de Saldanha, aos Filipes de Espanha, que governaram Portugal entre 1580 e 1640, não foi concedida a mesma honra, uma vez que estes não eram vistos como monarcas legítimos, mas sim como usurpadores do poder real. Assim se explica a sua ausência do rol de retratos daqueles que, por 767 anos, governaram Portugal. 


De Gustavo Gonçalves
01 de Abril, 2019


quinta-feira, 7 de março de 2019


A CAPELA REAL DE S. MIGUEL 



Remonta aos inícios da nacionalidade portuguesa a fundação da capela real de S. Miguel nos paços da Alcaçova em Coimbra. Assentando nesta cidade a sua residência habitual, el-rei D. Afonso Henriques erigiu no seu próprio palácio uma capela, onde quotidianamente se celebrasse o sacrifício eucarístico, e se recitassem privadamente as horas canónicas, para satisfação da piedade de el-rei e da régia família. (...)

Grande era a devoção que o fundador da monarquia portuguesa tributava ao arcangélico príncipe da milícia celeste, em cuja proteção muito confiava.
Edificando a igreja do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a ele fez consagrar a primeira das capelas laterais da nave da Epístola; em sua honra também erigiu capelas na igreja da Alcáçova de Santarém, e em Santa Maria de Alcobaça; fundou finalmente a notável ordem militar de S. Miguel da Ala, que em breve desapareceu, e cuja memória escassa ficou envolvida em denso nevoeiro de lendas.
Desde então os nossos reis e o povo português ficaram considerando o arcanjo S. Miguel como espírito tutelar, que vigia, protege e defende esta nação. (...)




Durante os primeiros reinados conservou-se em Coimbra a sede habitual da corte, e na capela real de S. Miguel manteve-se regularmente o culto.
Era nela que os nossos reis, e as pessoas das suas famílias, satisfaziam os seus deveres religiosos; a ela iam frequentemente implorar do céu a proteção e auxílio para as suas empresas e cometimentos bélicos. (...) 
Capela frequentada pela austera, adorável, virtuosíssima e muito popular esposa de D. Dinis, a rainha Santa Isabel, que nela recebia a sagrada comunhão das mãos do seu capelão Mestre Gonçalo, e assiduamente aqui viria suplicar graças e agradecer favores, cobrar alentos e desabafar mágoas, solicitar caritativamente perdões divinos e formar devotamente propósitos santos, pondo toda feuza em nosso Senhor Jesu Christo, & na Virgem Santa Maria sa Madre, & na Corte Celestial (declaração feita pela rainha Santa Isabel a 8 de Janeiro era 1363, logo depois da morte de D. Dinis) particularmente no príncipe da milícia angélica, em cuja honra se erguera este santuário!
Que variedade de impressionantes recordações que nos traz à imaginação esta antiga e nobre capela real de S. Miguel do paço dos nossos primeiros reis!
(...)

do livro Real Capela da Universidade, de Dr. António de Vanconcelos

sexta-feira, 1 de março de 2019

1 de Março de 1290. 729 ANOS de HISTÓRIA 

                                           "Documento Precioso" de fundação da Universidade


É este o documento mais antigo que atesta a existência da Universidade. Foi trazido para o Arquivo da Universidade em 1912, quando então se encontrava no arquivo do cabido da Sé de Viseu, por iniciativa do seu Diretor, o Doutor António de Vasconcelos que o designou "Documento precioso".
É hoje um dos mais preciosos tesouros que se conserva no Arquivo da Universidade de Coimbra.

O Estudo Geral do Reino ou Universidade Portuguesa fundada por D. Dinis, em Lisboa, a 1 de Março de 1290, mas só a 9 de Agosto o Papa Nicolau IV assinou a bula de confirmação: De statu regni Portugalise (Livro Verde da Universidade de Coimbra), criando o estudo sobre o Direito Canónico, Direito Civil, Medicina, Gramática e Dialética- as duas últimas constituíam as Artes. 

A 26 de Fevereiro de 1308, por bula do Papa Clemente V- Profectibus publicis- foi autorizada a transferência da Universidade para Coimbra. 
D. Afonso IV, transfere novamente a Universidade para Lisboa em 1338 e em 1354 volta de novo a Coimbra por determinação do mesmo rei. Em 1377, volta a Lisboa com o rei D. Fernando e só em 1537, a Universidade, o Colégio Real ou antes, as Escolas Gerais fixam-se definitivamente em Coimbra. 

Com Sete séculos e vinte e nove anos, a Universidade de Coimbra conta com um património material e imaterial único, peça fundamental na história da cultura científica europeia e mundial. Estudar e investigar na Universidade de Coimbra é dar continuidade à história da matriz intelectual do país, que já formou as mais destacadas personalidades da cultura, da ciência e da política nacional.


                                                                     Tradução portuguesa




                                                                     Transcrição latina



Fonte Arquivo da Universidade de Coimbra