segunda-feira, 1 de abril de 2019

Os reis ausentes na Sala dos Capelos

1640, o ano no qual os “Quarenta Conjurados” planearam e consumaram a conspiração que, a 1 de dezembro, restaurou a independência de Portugal sob a égide de D. João IV, o duque de Bragança. Durante as três décadas seguintes foram travados uma série de confrontos armados entre o reino de Portugal e a Coroa de Castela, os quais culminaram com a vitória decisiva de Portugal e à obrigação, por parte do seu vizinho ibérico, ao reconhecimento oficial da soberania portuguesa, a par das suas possessões coloniais. Durante todo o processo restaurador, a causa portuguesa contou com apoios vindos não só do estrangeiro, mas também de todos os estratos da própria sociedade portuguesa. Entre as diversas personalidades que deram voz a esta causa, destacamos a figura de D. Manuel de Saldanha o qual, a par de ter exercido as funções de reitor da Universidade de Coimbra (1639-1659), comandou, enquanto general, as forças académicas nos teatros de guerra ibéricos. 

A D. Manuel de Saldanha se ficou, de igual forma, a dever a remodelação da antiga sala do trono do palácio real, a atual Sala dos Capelos. Guiado por um ideal de afirmação e consolidação da identidade nacional o novo reitor procurou alcançar tal fim através do recurso a elementos ornamentais elucidativos do período anterior à perda da soberania. Exemplo disso é a aplicação de um cordão em talha dourada, que delimita cada um dos caixotões  presentes no teto da sala, bem como a própria pintura destes que denota características que procuravam ir contra a estética real filipina. 



No entanto, no conjunto decorativo da Sala dos Capelos, os elementos que mais se destacam são os retratos dos trinta e um monarcas portugueses. De Afonso Henriques a D. João IV, todos os retratos são da autoria do dinamarquês Carlos Falch. Daí em diante, até D. Manuel II, os retratos foram pintados à medida que os monarcas se iam sucedendo. 

Fruto do acérrimo patriotismo de D. Manuel de Saldanha, aos Filipes de Espanha, que governaram Portugal entre 1580 e 1640, não foi concedida a mesma honra, uma vez que estes não eram vistos como monarcas legítimos, mas sim como usurpadores do poder real. Assim se explica a sua ausência do rol de retratos daqueles que, por 767 anos, governaram Portugal. 


De Gustavo Gonçalves
01 de Abril, 2019


quinta-feira, 7 de março de 2019


A CAPELA REAL DE S. MIGUEL 



Remonta aos inícios da nacionalidade portuguesa a fundação da capela real de S. Miguel nos paços da Alcaçova em Coimbra. Assentando nesta cidade a sua residência habitual, el-rei D. Afonso Henriques erigiu no seu próprio palácio uma capela, onde quotidianamente se celebrasse o sacrifício eucarístico, e se recitassem privadamente as horas canónicas, para satisfação da piedade de el-rei e da régia família. (...)

Grande era a devoção que o fundador da monarquia portuguesa tributava ao arcangélico príncipe da milícia celeste, em cuja proteção muito confiava.
Edificando a igreja do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a ele fez consagrar a primeira das capelas laterais da nave da Epístola; em sua honra também erigiu capelas na igreja da Alcáçova de Santarém, e em Santa Maria de Alcobaça; fundou finalmente a notável ordem militar de S. Miguel da Ala, que em breve desapareceu, e cuja memória escassa ficou envolvida em denso nevoeiro de lendas.
Desde então os nossos reis e o povo português ficaram considerando o arcanjo S. Miguel como espírito tutelar, que vigia, protege e defende esta nação. (...)




Durante os primeiros reinados conservou-se em Coimbra a sede habitual da corte, e na capela real de S. Miguel manteve-se regularmente o culto.
Era nela que os nossos reis, e as pessoas das suas famílias, satisfaziam os seus deveres religiosos; a ela iam frequentemente implorar do céu a proteção e auxílio para as suas empresas e cometimentos bélicos. (...) 
Capela frequentada pela austera, adorável, virtuosíssima e muito popular esposa de D. Dinis, a rainha Santa Isabel, que nela recebia a sagrada comunhão das mãos do seu capelão Mestre Gonçalo, e assiduamente aqui viria suplicar graças e agradecer favores, cobrar alentos e desabafar mágoas, solicitar caritativamente perdões divinos e formar devotamente propósitos santos, pondo toda feuza em nosso Senhor Jesu Christo, & na Virgem Santa Maria sa Madre, & na Corte Celestial (declaração feita pela rainha Santa Isabel a 8 de Janeiro era 1363, logo depois da morte de D. Dinis) particularmente no príncipe da milícia angélica, em cuja honra se erguera este santuário!
Que variedade de impressionantes recordações que nos traz à imaginação esta antiga e nobre capela real de S. Miguel do paço dos nossos primeiros reis!
(...)

do livro Real Capela da Universidade, de Dr. António de Vanconcelos

sexta-feira, 1 de março de 2019

1 de Março de 1290. 729 ANOS de HISTÓRIA 

                                           "Documento Precioso" de fundação da Universidade


É este o documento mais antigo que atesta a existência da Universidade. Foi trazido para o Arquivo da Universidade em 1912, quando então se encontrava no arquivo do cabido da Sé de Viseu, por iniciativa do seu Diretor, o Doutor António de Vasconcelos que o designou "Documento precioso".
É hoje um dos mais preciosos tesouros que se conserva no Arquivo da Universidade de Coimbra.

O Estudo Geral do Reino ou Universidade Portuguesa fundada por D. Dinis, em Lisboa, a 1 de Março de 1290, mas só a 9 de Agosto o Papa Nicolau IV assinou a bula de confirmação: De statu regni Portugalise (Livro Verde da Universidade de Coimbra), criando o estudo sobre o Direito Canónico, Direito Civil, Medicina, Gramática e Dialética- as duas últimas constituíam as Artes. 

A 26 de Fevereiro de 1308, por bula do Papa Clemente V- Profectibus publicis- foi autorizada a transferência da Universidade para Coimbra. 
D. Afonso IV, transfere novamente a Universidade para Lisboa em 1338 e em 1354 volta de novo a Coimbra por determinação do mesmo rei. Em 1377, volta a Lisboa com o rei D. Fernando e só em 1537, a Universidade, o Colégio Real ou antes, as Escolas Gerais fixam-se definitivamente em Coimbra. 

Com Sete séculos e vinte e nove anos, a Universidade de Coimbra conta com um património material e imaterial único, peça fundamental na história da cultura científica europeia e mundial. Estudar e investigar na Universidade de Coimbra é dar continuidade à história da matriz intelectual do país, que já formou as mais destacadas personalidades da cultura, da ciência e da política nacional.


                                                                     Tradução portuguesa




                                                                     Transcrição latina



Fonte Arquivo da Universidade de Coimbra

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Sabia que em Coimbra existiu um Castelo? 


                                                                                            Figura 1-Castelo de Coimbra


O sítio que hoje conhecemos como Largo de D. Dinis esteve ocupado, em tempos, pelo Castelo de Coimbra (vejam-se as figuras 1 e 2) (Alarcão, 2008). Não se sabe, ao certo, a data da sua fundação, mas a construção da torre de menagem é do reinado de D. Afonso Henriques e a da torre quinária ou de Hércules do tempo de D. Sancho I (1198) (Filipe & Teixeira, 2013). 
O castelo teve reformas nos reinados de D. Sancho I, D. Dinis e D. Fernando (Duarte, 2005) (Filipe & Teixeira, 2013). 
A Torre de menagem tinha cerca de 22 metros de altura e a torre quinária devia ter 26,5 metros (Alarcão, 2008). 
O seu desaparecimento deveu-se, em primeiro lugar, às demolições do século XVIII, para se construir um observatório astronómico (obra que não foi terminada) (Filipe & Teixeira, 2013) e, em segundo lugar, às obras do estado novo que destruíram o que restava do castelo (Duarte, 2005). Coimbra tinha, igualmente, uma muralha e um conjunto de 15 torres (Duarte, 2005). Juntamente com os castelos de Penela, Montemor-o-Velho, Soure ou Miranda do Corvo, o castelo de Coimbra pertencia á linha de defesa do Mondego, apresentando, assim uma relevante importância militar e política (Filipe & Teixeira, 2013) . 


                                                                 Figura 2- Localização do Castelo de Coimbra



                                                                                                                   Figura 3-Planta do Castelo



Miriam Rocha
Fevereiro de 2019




Referências Bibliográficas:
Alarcão, J. d. (2008). Coimbra: a montagem do cenário urbano. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.
Duarte, B. (2005). Coimbra,cidade muralhada. Arquivo Coimbrão.Boletim da Biblioteca Municipal, 38, 93-108.
Filipe, S., & Teixeira, R. (2013). A intervenção arqueológica no largo do castelo de coimbra: Vestigios da Torre de Menagem.Abordagem preliminar dos resultados. Em I. Fernandes, Fortificações e Território na Peninsula Ibérica e no Magreb (Séculos VI a XVI)-Volume I (pp. 445-456). Lisboa: Edições Colibri& Campo arqueológico de Mértola.



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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

NASCERAM REIS NO PAÇO REAL DE COIMBRA


No Paço Real da Alcáçova, foi o local onde nasceram e viveram alguns dos Reis de Portugal durante a primeira Dinastia. E foi na Sala Grande dos Actos que ocorreram importantes episódios da vida da nação portuguesa, não fosse esta a Sala do Trono do Paço Real da Alcáçova, onde foi a aclamação de D. João I, Rei de Portugal.
Primeira Dinastia de 1143-1383.

Fotos dos quadros da Sala Grande dos Actos (Sala dos Capelos).


D. Sancho I “O Povoador” – 1185-1211

                                    

Nasceu em Coimbra, em 1154. filho de D. Afonso Henriques e de D. Mafalda de Sabóia. Casou com D. Dulce de Aragão, filha do conde de Barcelona. Herdeiro das virtudes militares de seu pai, continuou a luta encetada contra os mouros. D. Sancho I teve o cognome de “O Povoador”por ter mandado povoar as terras conquistadas. Faleceu em 1211, em Santarém. Sepultado no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, com seu pai D. Afonso Henriques.


D. Afonso II “O Gordo” – 1211-1223

                               

Nasceu em Coimbra, em 1185. Filho de D. Sancho I e de D. Dulce de Aragão, foi o sucessor de seu pai. Casou com D. Urraca, filha de Afonso VIII de Castela. D. Afonso II foi cognominado de “O Gordo” por ser muito gordo. A principal preocupação de D. Afonso II foi a administração do reino e convocou as primeiras Cortes portuguesas em 1211, em Coimbra. Prosseguiu, também, o alargamento do território. D. Afonso II faleceu em Santarém, em 1223. Jaz no Mosteiro de Alcobaça.


D. Sancho II “O Capelo” – 1223-1248



Nasceu em Coimbra, em 1209. Filho de D. Afonso II e de D. Urraca de Castela. Casou com D. Mécia Lopes de Haro, de Leão. D. Sancho II subiu ao trono aos 13 anos e foi cognominado de “O Capelo” por, em criança, ter usado o hábito de frade franciscano. Mostrou-se rijo na arte da guerra, como seu bisavô D. Afonso Henriques, mas foi um fraco administrador. Destituído de rei pelo Papa, em 1245, D. Sancho II exila-se em Castela. Morre em Toledo, em 1248, onde foi sepultado.


D. Afonso III “O Bolonhês” – 1248-1279



Nasceu em Coimbra, em 1210. Era irmão de D. Sancho II, a quem sucedeu. Casou com D. Matilde, condessa de Bolonha, e mais tarde casou com D. Beatriz de Guilhen. D. Afonso III foi cognominado de “O Bolonhês”por, ter casado com a condessa de Bolonha. Assumiu a Regência do Reino em 1245. Depois da morte de seu irmão, D. Sancho II, em 1248, foi proclamado rei. Protegeu a agricultura e desenvolveu o comércio e a indústria. Criou concelhos e concedeu muitos forais. D. Afonso III faleceu em 1279. Jaz no Mosteiro de Alcobaça.



D. Pedro I “O Justiceiro” – 1357-1367


Nasceu em Coimbra, em 1320. Era filho de D. Afonso IV, a quem sucedeu, e de D. Beatriz. Casou com D. Constança, de Castela. D. Pedro I foi cognominado de “O Justiceiro”, "Cruel" por ter aplicado uma justiça rigorosa e severa, igual para todos. Faleceu em Estremoz, em 1367 mas os seus restos mortais e de D. Inês de Castro encontram-se no Mosteiro de Alcobaça.


D. Fernando “O Formoso” – 1367-1383




Nasceu em Coimbra, em 1345. Era filho de D. Pedro I, a quem sucedeu, e de D. Constança. O seu casamento com D. Leonor de Teles, não foi bem recebido pelo povo, tendo até de sair de Lisboa para se poder casar sem tumultos. D. Fernando foi cognominado de “O Formoso”pela sua beleza e distinta figura. Morreu em 1383, deixando uma única filha, D. Beatriz, casada com D. João I, rei de Castela. Terminou, assim, a primeira dinastia, conhecida por “Afonsina” ou “de Borgonha”.




terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

«Basta de tanto sofrer!» uma história do Aqueduto de São Sebastião


O Aqueduto de São Sebastião, popularmente conhecido como os Arcos do Jardim, localiza-se na calçada Martim de Freitas, em frente ao Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, e remonta a um primitivo aqueduto romano, que abastecia a parte alta da povoação.

O atual aqueduto é obra do final do século XVI, sob o reinado de Sebastião de Portugal, com traça do arquiteto italiano Filipe Terzio. Aproveitando o percurso e possivelmente os restos do antigo aqueduto, ligava os morros onde se situavam o mosteiro de Santana e o Castelo de Coimbra, vencendo uma depressão em vinte e um arcos.
O Arco de Honra é de cantaria de pedra, e no seu topo destaca-se um conjunto de duas esculturas representando, do lado Norte São Roque, e do lado Sul São Sebastião.

Foram muito faladas algumas aventuras académicas nos arcos, sendo a mais conhecida a 1859-1860 um grupo de estudantes treparam ao alto do arco nobre em cima do qual se vê ainda hoje o baldaquino que cobre S. Sebastião e S. Roque e arrancaram as setas cravadas no mártir e deixaram um cartaz dizendo «Basta de tanto sofrer!»

Fonte: Trindade Coelho no seu livro “In Ill Tempore: Estudantes, lentes e futricas” (1902:346) 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019


O MOSAICO ROMANO



Na entrada principal da Reitoria, no Paço Real encontra-se uma vitrina com um fragmento de mosaico romano, o que provoca a curiosidade de muitos os que por ali passam.

 



O fragmento foi encontrado durante as escavações arqueológicas no pátio, em 2001 e terá segundo os arqueólogos pertencido à sala de uma casa senhorial romana. Este achado mostra a ocupação do espaço da universidade desde o século I / II.
A residência romana seria uma das construções da antiga cidade romana de Aeminium. O mosaico, que é um dos raros exemplos em espaços urbanos, mostra o mesmo tipo de motivos geométricos que eram comuns na região, provavelmente produto de uma oficina local.